sexta-feira, 15 de julho de 2011

Xicara Vazia - Danny Marks

O mestre se preparava para tomar seu chá com o aluno quando uma mulher triste o procurou.
            _ Em que posso ajudar?
            _ Não aguento mais o meu marido, ele nunca me houve...
            _ Sente-se! Tome um chá conosco. Dois corações que vivem juntos e não se compartilham, não crescem. Acabam ficando pequenos e duros.
            A mulher sentou-se e o mestre encheu uma xícara e lhe deu, enquanto continuava suavemente.
            _ As pessoas se unem pelas semelhanças que encontraram. Com o tempo descobrem diferenças que estavam lá, mas não haviam percebido.
            _ Eu pensei que com o tempo ele mudaria, mas ele não muda. E pra evitar conflitos, me calo.
            _ As pessoas só mudam por prazer ou por necessidade. O prazer é quando descobrem que existem caminhos mais fáceis, aprendem com os erros e crescem em seus espíritos. Mudam pela necessidade quando, mesmo não tendo aprendido que há um caminho melhor, são forçados a ele pelas contingências da situação, mesmo lutando contra. Quem determina o que a pessoa se torna é o que já havia dentro dela, as tendências estão lá e sempre que encontram espaço, se libertam.
            _ Como assim...?
            _ Diz a lenda que um sábio deixou uma semente em um bule de chá. Com o tempo a semente germinou e lançou seus galhos pelo bico do bule. Atingindo o sol, ganhou forças e empurrou a tampa do bule. Depois de algum tempo cresceu tanto que acabou rompendo o bule e tornou-se uma arvore. As pessoas para sobreviver buscam os caminhos mais fáceis, com o tempo ficam mais fortes e criam novos caminhos, através das adversidades. Quando o fazem conseguem se libertar e ser realmente o que eram. A árvore estava na semente desde o princípio, ao sentir-se livre, assumiu o que era.
            _ Mas, meu marido já disse que é assim e não muda...
            _ Se o sábio podasse o galho que saia pelo bico do bule a semente não se tornaria árvore, morreria. Em um relacionamento é necessário que haja uma troca, as arvores que crescem lado a lado se protegem mutuamente e as folhas que caem alimentam a ambas. Se uma se tornar egoísta e quiser tudo para si acaba destruindo aquela que lhe permitia ser mais forte e morrem as duas.
            _ Mas o que eu posso fazer? Ele não me escuta...
            O sábio colocou mais chá na xícara, ainda cheia, que acabou transbordando.
            _ Um coração cheio é como esta xícara. Nada pode entrar, é necessário que se esvazie a xícara, ou que a mesma se torne maior, caso contrario o chá esfria e fica amargo...
            _ Mas o que eu posso fazer?
            _ Crescer ou esvaziar! Se as semelhanças forem maiores que as diferenças, ele irá perceber sua necessidade e vai tentar preenche-la novamente, senão as diferenças já estão maiores que as semelhanças e nada mais o irá segurar. Se a distancia já for tão grande que não perceba sua xícara vazia então nada mais há a fazer do que buscar outro caminho.
            _ Mas eu gosto dele, não quero brigar...
            _ Quando há respeito pelas diferenças, consegue-se dividir o que se tem e o amor cresce, porque ambos se completam e tornam-se melhores. Como somente se pode dar o que se tem, se apenas um se dá chega o momento em tudo acaba e mais nada pode ser dado. Quando se dá amor se demonstra o desejo de receber amor, quando se dá respeito demonstra-se o desejo de receber respeito. Aceitar coisas amargas em troca de coisas doces enche o coração de amargura; até que somente amargura poderá ser dada.
            _ Não há outro meio?
            _ Esvazie a sua xícara ou cresça, do contrário ninguém vai conseguir preenche-la. Mostre a sua necessidade e o que deseja de compartilhar. Aquele que parece satisfeito não dá oportunidade para que o satisfaçam.
            _ Mas, e se nem assim ele quiser mudar...
            _ Então haverá o afastamento e, nesse caso, o melhor é que seja rápido, antes que seu chá fique tão frio e ruim que só produza amarguras.
            _Gostaria que ele fosse diferente.
            _Quando duas arvores crescem juntas elas se sustentam. Quando se distanciam não se reconhecem mais.
            A mulher levantou-se e foi embora. O aluno aproximou-se e perguntou ao sábio.
            _ Mestre, será que ela vai conseguir?
            O mestre olhou para a xícara cheia que a mulher havia deixado sobre a mesa.
            _ Talvez. Nenhum problema é fácil de resolver quando não estamos dispostos a olhar de frente para ele. Quanto mais fugimos mais espaço deixamos para que cresça. Somente quando a necessidade é maior nos dispomos a lutar e sempre ficam as cicatrizes da batalha como lembrança.
_ Fico pensando porque as pessoas se deixam chegar nessas situações...
_ Quando nos sentimos fracos, buscamos a força que nos proteja. Mas se não nos fortalecemos, nos tornamos prisioneiros desta mesma força.
_ Espero que ela tenha entendido isso.
_ Crescer ou esvaziar! A xícara dela estava cheia, e nos pediu mais chá...E a sua? Já tem mais espaço?
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