Seguidores

Translate

Site Protegido

Protected by Copyscape Plagiarism Scanner

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Anjo Malaquias - Mario Quintana


         O Ogre rilhava os dentes agudos e lambia os beiços grossos, com esse exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de aparentar, por esporte.
Diante dele, sobre a mesa posta, o Inocentinho balava, imbele.
Chamava-se Malaquias – tão pequenino e reconchudo, pelado,a barriguinha pra baixo, na tocante posição de certos retratos da primeira infância...
O Ogre atou o guardanapo ao pescoço. Já ia o miserável devorar o Inocentinho, quando Nossa Senhora interferiu com um milagre.
Malaquias criou asas e saiu voando, voando, pelo ar atônito... saiu voando janela em fora...
Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima, atrás dos ombros. Pois quem nasceu para mártir, nem mesmo a Mãe de Deus lhe vale!
Que o digam as nuvens, esses lerdos e desmesurados cágados das alturas, quando, pela noite morta, o Inocentinho passa por entre elas, voando em esquadro, o pobre, de cabeça pra baixo.
E o homem que, no dia do ordenado, está jogando os sapatos dos filhos, o vestido da mulher e a conta do vendeiro, esse ouve, no entrechocar das fichas, o desatado pranto do Anjo Malaquias!
E a mundana que pinta o seu rosto de ídolo... E o empregadinho em falta que sente as palavras de emergência fugirem-lhe como cabelos de afogado... E o orador que pára em meio de uma frase...
E o tenor que dá, de súbito, uma nota em falso... Todos escutam, no seu imenso desamparo, o choro agudo do Anjo Malaquias!
E quantas vezes um de nós, ao levantar o copo ao lábio, interrompe o gesto e empalidece... – O Anjo! O Anjo Malaquias! – ... E então, pra disfarçar, a gente faz literatura... e diz aos amigos que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran...

(QUINTANA, Mario. Nova Antologia Poética. São Paulo, 2009. Pgs 92,93.)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Anjos não tem Asas – Danny Marks



            — Não tem asas!
Duas gotas grossas caíram sobre as finas cicatrizes brancas dos pulsos. Deixei por alguns segundos que extravasasse, tinha que ficar atento, nesses momentos ela sempre resvalava para algum canto inatingível. Precisava manter o contato, criar uma ponte...
— Por que acha que ele disse isso?
— Mikel? Por que não diria? Ele sabe dessas coisas, tem que saber, afinal...
— Não, digo, o que o motivou a falar isso para você?
Ela me olhou profundamente, como se quisesse pesar a minha alma em uma balança de ouro. Por certo eu seria condenado; se ela fosse realmente capaz. Levantou-se, abriu a blusa descobrindo os seios e as costas, virou-se mostrando a imensa tatuagem que lhe cobria o dorso. Asas. Asas negras como a melancolia, escorrendo pelas suas costas em lava derretida, manchadas de entardecer. Nunca havia visto algo tão belo e deprimente.
Ela cobriu as asas como se puxa o lençol sobre um cadáver. Voltou-se ainda com os seios semidesnudos, tremia ao abotoar a blusa. A cabeça era de rendição, havia me revelado, em um impulso, muito mais do que pretendia e agora estava com medo de me olhar.
Mantive um silêncio respeitoso, mais pelo êxtase que aquela visão me provocara do que gostaria de admitir... Quem poderia ter feito algo tão belo e terrível? Deus...
— Você mostrou para ele? Por isso que Mikel foi tão duro com você?
— Mikel que fez! Depois que fizemos amor...ele sabia, e ainda assim...
Finalmente ela me encarou com desafio. A lembrança do seu suposto encontro com Mikel a tornava poderosa; lhe emprestava uma fúria desafiadora. Por um instante tive a impressão de que sua figura se agigantava à minha frente, absurdo.
Sustentei o olhar mantendo o distanciamento, uma pergunta pairando como uma espada pronta para desferir o golpe fatal.
— Sim, Anjos podem fazer amor com humanos. Por que não poderiam? Foram feitos a nossa semelhança.
— Interessante, suponho que Mikel lhe tenha dito isso também. Mas não vieram antes de nós? Não seria o contrário? Talvez a afirmação de Mikel não seja tão correta...
— Claro que não? Ele nos criou à sua imagem e semelhança, depois fez os Anjos, mais perfeitos que nós, somos o protótipo. Então os enviou ao princípio para que criassem a Sua Obra. Você não entende que para Ele o tempo não é igual como para nós? É... apenas uma coisa que... tipo assim... se dobra, está lá o tempo todo e é você que avança em um sentido ou outro e...
Ela estava ficando agitada, fiz que compreendia para que se acalmasse. Havia tantas implicações no que ela dizia que precisaria revisar todas as minhas notas, talvez falar com...
— Estou grávida. Ele nunca vai voltar.
— Como assim? Está grávida de Mikel? Por que ele não voltaria? Ainda mais sabendo que está esperando um filho dele. Ou ele não sabe?
— Quando se vai para o início não há mais volta... Só um Anjo poderia me levar lá.
— O seu psiquiatra já sabe que está grávida? Conversou com ele a respeito?
— Crianças são... como anjos sem asas, Mikel me disse. Esta...pode me levar...
Ela saiu correndo da sala, tentei impedi-la, mas já estava longe demais. Peguei o telefone, precisava avisar da situação. A coisa se complicara muito mais do que imaginara a princípio. Comuniquei o ocorrido, alguém tomaria providências. Talvez até conseguissem impedi-la a tempo.
Mas isso não importava mais. Minha mente se voltava para aquelas asas, aquela imagem perfeita de algo que não existia mais. Mikel era apenas uma criação dela. Então quem teria feito aquilo? Por quê? Para nos insultar? Anjos não tem asas, não mais.

domingo, 16 de novembro de 2014

Porque nós Precisamos – Danny Marks


— Agente 840p690 se apresentando, senhor.
— Entre, entre! Não precisa de formalidades aqui. Na verdade, sei que não gosta muito delas. Tem corrompido vários protocolos ultimamente, não é mesmo?
— Eu... bem...
— Ah, não se preocupe. Está tudo bem, na verdade esperávamos que fizesse isso. Estaríamos encrencados se não o fizesse, na verdade. Pelo meu relatório tem estudado profundamente os conceitos de Linha T negativa. Há alguma coisa que não compreenda?
— Quase tudo, senhor.
O outro riu alto. Isso ao mesmo tempo incomodou e surpreendeu o agente. Não se ouvia muitos risos naquele lugar.
— Eu entendo. Também me sinto assim às vezes...
— Impossível, senhor. Toda esta instalação só existe devido a sua...
— De meu pai, na verdade. Fui desenvolvido para cumprir o que ele havia previsto. Sou tão agente quanto você, meu caro. Apenas que minha função é um pouco... diferente.
— Entendo...
— Duvido. Não é algo que alguém como nós possa entender. Aquele que está sendo projetado talvez consiga se aproximar disso, e o que ele projetar irá entender melhor e projetará outro e este fará o mesmo... uma longa linha até que estejamos prontos... Mas não importa. Estive observando as suas mudanças nos protocolos... são, no mínimo, interessantes.
— Eu posso explicar...
— Esqueça. Acha que teria conseguido êxito se não lhe fosse permitido? Compreende que não podemos cometer falhas? Qualquer tipo de falha? Ou então, tudo o que está vendo... e até o que não pode ver... Estaríamos simplesmente perdidos, compreende isso? Mas há uma falha que talvez não tenha levado em consideração. Como pode acreditar que suas, manobras, não estariam previstas? Esquece que temos um plano que não pode ser mudado?
— Não, Senhor. Pelo protocolo 1000/01 é impossível mudar o que está previsto pelo simples fato de que já foi consolidado em uma Linha T positiva...
— Não precisa me falar dos protocolos. Eu os escrevi, conforme as instruções do Pai. O que estou perguntando é algo bem diferente. Acredita no que está fazendo? Acredita que suas... manipulações, podem mudar o que está previsto? O que pretende com isso?
— Ok, que se dane tudo isso. Todos esses protocolos e essa porcaria toda. Na verdade não sei por que fui projetado assim, mas isso deve ter sido previsto também, não é? O que lhes dá o direito de fazer isso comigo?
— Ah, finalmente a raiva. Estava esperando por isso. Desejando na verdade. Há quanto tempo vem guardando isso? Não importa. Precisamos disso. O que nos dá o direito? Simples, podemos fazê-lo, foi feito na verdade, está sendo feito neste exato momento. Cada uma das pessoas que cuidadosamente projetamos nas linhas T negativas nos traz justamente a este momento e além... muito além disto.
— Por que não deixar a aleatoriedade...
— Porque não haveria algo do tipo sem que fizéssemos. Não entendeu ainda? Depois de ter estudado o Início com tanto cuidado, não se perguntou jamais como algo assim poderia ter acontecido? Como algo pode ser criado do “nada”? Como algo pode simplesmente se criar e recriar sem uma causa fundamental?
— A Aleatoriedade poderia...
— Bobagem! Tudo uma imensa besteira criada na cabeça de você e de seus seguidores... Sim, eu sei que tem seguidores, conhecemos todos eles. Na verdade os projetamos para que assim fosse. O que não conseguem entender é que se não fizermos o nosso trabalho, este momento jamais terá acontecido. Nada terá acontecido. Não, desculpe, isso é um paradoxo. A Não Existência não permite eventos. Apenas é. Como nós apenas somos o que somos, é um estado natural que pretendemos preservar a qualquer preço.
— E para que? Como pode dizer que isto serve para algo, tudo o que fazemos, as coisas que foram provocadas, direcionadas, condicionadas até que...
— É por isso mesmo que não podemos parar! Não entende? Em algum momento, no Instante antes do Instante, no verdadeiro princípio que agora procuramos manter. Talvez a sua maldita Aleatoriedade tenha produzido tudo isto, e nós precisamos manter. Cada sábio da história, cada um que fez com que os rumos mudassem ou fossem mantidos precisam estar lá para que este momento chegue. Cada questionamento que precisa ser feito, cada resposta certa ou errada que precisa ser formulada, para que possamos ter esta conversa e...
— Então...
Ambos se calaram, o entendimento se formando lentamente. Explodindo e se inflacionando como os imensos espaços que tornavam o Multiverso possível, de uma forma que simplesmente contrariava todas as formulas conhecidas.
— Diga, agente. Fale, ou isso vai destruí-lo mais rapidamente do que imagina.
— O objetivo disto tudo é simplesmente entender por que houve um início... Como não pude ver isso antes?
— Porque isso é o máximo que a sua mente, ou a minha, poderia alcançar. Chegou no seu limite, meu amigo. Assim como eu cheguei no meu. Mas os que vierem depois irão além dele. Vamos conseguir criar Deus e envia-lo pelo tempo para o momento da Criação e ele fará com que tudo isto ocorra do jeito que conhecemos. Assim seja.
— Mas, só Ele poderia compreender... E se...
— Sim. Diga! E se Ele achar que não deve? E se ele vacilar no instante em que deve iniciar tudo e deixar que a Aleatoriedade se faça? Então talvez nada disso ocorra, ou ocorra de outra forma, ou...
— Eu nunca imaginei que o senhor...
— Fosse um Aleatorista? Claro que sou. No fundo, todos nós somos, apenas que a maioria não pensa nisso. Mas o que estamos fazendo aqui é permitir que, talvez, nada disso aconteça. Precisamos da contraparte, do que poderia Não-Ser  para que possamos Ser. Precisamos de algo que nos defina.
— Eu sempre achei que...
— Estava agindo contra o sistema? Contra tudo isto? Não seja bobo. Ninguém melhor que você para perceber que está fazendo exatamente o oposto, mas precisávamos ter esta conversa. Estava previsto. Meu pai me falou quando me projetou. Foram suas ultimas palavras na verdade. O máximo de paradoxo que as linha T poderiam suportar de alguém vindo do Futuro para criar o futuro.
— E o passado...
— Percebe então? Nós precisamos disso. Não há alternativa. Precisamos que você crie a antítese, da mesma forma como estamos fazendo Ele. De outra forma jamais saberíamos...
— Nós vamos criar o Criador e...
— O Destruidor. Esse será o seu trabalho a partir de agora. Não há outra forma.
— E como saberemos se... Digo, como poderemos saber que funcionou?
— Ora, meu amigo. Estamos tendo esta conversa, não estamos?
— Digo, quanto tempo relativo teríamos até que algo tão longe nas Linhas T negativas nos alcançasse e tivéssemos a resposta?

...

sábado, 8 de novembro de 2014

Sacro Vício - Danny Marks




Diante de vós
Sacrifico o meu prazer em nome da saúde da alma.
Sacrifico o amor no altar da dor devota.
Sacrifico a minha consciência em nome do perdão.

Vergo e vergasto minha vontade sistematicamente,
para atender a tua Vontade
maior que a minha, 
que não se verga, nem se vergasta jamais.

Sorvo o poder, no qual fui investido, pelo/no sacrifício alheio.
E proclamo a tua necessidade
do Sacro Oficio.
Conclamo a todos que venham para (o) sacrifício.
Rendo-me, 
definitivamente entregue,
ao Sacro Vício.

E Sacro Fico.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...