terça-feira, 3 de abril de 2018

O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias


O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os vários aspectos da arte e da literatura portuguesas.
Entrevistar Fernando Pessoa não é fácil. Só é fácil entrevistar os que não pensam, os que não se importam de jogar palavras, ao acaso, atirando-as impudicamente ao vento.
Fernando Pessoa, quer como Fernando Pessoa, quer como Álvaro de Campos - o engenheiro alucinado que comporta o seu segundo eu, e que aparece em toda a parte, enchendo a voz de louvores e raios para a Vida - raios partam a Vida e quem lá ande! -é sempre um voluptuoso do raciocínio, um amante da inteligência, podemos dizer: um criador duma nova Razão. Paradoxal? Sem dúvida. Mas há tantas maneiras de ser paradoxal!
A entrevista que se segue, toda escrita por Fernando Pessoa - nem podia deixar de ser, visto Fernando Pessoa possuir uma sintaxe própria para a lógica própria dos seus pensamentos, misto de seriedade e de ironia, vai decerto prender o espírito dos leitores...
Atenção! Fernando Pessoa vai responder às perguntas que lhe fizemos:
- Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos - político, moral e intelectual?
- A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis. Esta frase, como todas que envolvem uma contradição, não envolve contradição nenhuma. Eu explico.
Todo povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e este ele mesmo têm uma substância idêntica; manifestam-se, porém, diferentemente A aristocracia manifesta-se como indivíduos, incluindo alguns indivíduos amadores; o povo revela-se como todo ele um indivíduo só. Só colectivamente é que o povo não é colectivo.
O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo. Ora ser tudo em um indivíduo é ser tudo; ser tudo em uma colectividade é cada um dos indivíduos não ser nada. Quando a atmosfera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o português pode ser português, pode portanto ser indivíduo, pode portanto ter aristocracia. Quando a atmosfera da civilização não é cosmopolita - como no tempo entre o fim da Renascença e o princípio, em que estamos, de uma Renascença nova - o português deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser só portugueses. Passa a não poder ter aristocracia. Passa a não passar. (Garanto-lhe que estas frases têm uma matemática íntima.)
Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilização, porém, não perdoa. Por isso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjunto. E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada. É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis. Foi neste vácuo de si próprio que o português abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essência da nossa crise.
As nossas crises particulares procedem desta crise geral. A nossa crise política é o sermos governados por uma maioria que não há. A nossa crise moral é que desde 1580 - fim da Renascença em nós e de nós na Renascença - deixou de haver indivíduos em Portugal para haver só portugueses. Por isso mesmo acabaram os portugueses nessa ocasião. Foi então que começou o português à antiga portuguesa, que é mais moderno que o português, e é o resultado de estarem interrompidos os portugueses. A nossa crise intelectual é simplesmente o não termos consciência disto.
Respondi, creio, à sua pergunta. Se V. reparar bem para o que lhe disse, verá que tem um sentido. Qual, não me compete a mim dizer.
- Que pensa dos nossos escritores do momento, prosadores poetas e dramaturgos?
- Citar é ser injusto. Enumerar é esquecer. Não quero esquecer ninguém de quem me não lembre. Confio ao silêncio a injustiça. A ânsia de ser completo leva ao desespero de o não poder ser. Não citarei ninguém. Julgue-se citado, quem se julgue com direito a sê-lo. Resolvo assim todos. Lavo as mãos, como Pilatos; lavo-as, porém, inutilmente, porque é sempre inutilmente que se faz um gesto simplificador. Que sei eu do presente, salvo que ele é já o futuro? Quem são os meus contemporâneos? Só o futuro o poderá dizer. Coexiste comigo muita gente que vive comigo apenas porque dura comigo. Esses são apenas os meus conterrâneos no tempo; e eu não quero ser bairrista em matéria de imortalidade. Na dúvida, repito, não citarei ninguém.
- Estaremos em face de uma renascença espiritual?
- Estamos tão desnacionalizados que devemos estar renascendo. Para os outros povos, na sua totalidade eles próprios, o desnacionalizar-se é o perder-se. Para nós, que não somos nacionais, o desnacionalizar-se é o encontrar-se. Apesar dos grandes obstáculos à nossa regeneração - todas as doutrinas de regeneração - estamos no início de tornar a começar a existir. Chegámos ao ponto em que colectivamente estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos. Extraviámo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho. Os sinais do nosso ressurgimento próximo estão patentes para os que não vêem o visível. São o caminho-de-ferro de Antero a Pascoaes e a nova linha que está quase construída. Falo em termos de vida metálica porque a época renasce nestes termos. O símbolo, porém, nasceu antes dos engenheiros.
Nada há a esperar, é certo, das classes dirigentes, porque não são dirigentes; e ainda menos da proletariagem, porque ser inferior não é uma superioridade. Com razão lhes chamei eu, a estes, subgente, num artigo da antiga Águia - da Águia que voava. Só a burguesia, que é a ausência da classe social, pode criar o futuro. Só de uma classe que não há pode nascer uma classe que não há ainda. Seja como for, avancemos confiadamente. Todos os caminhos vão dar à ponte quando o rio não tem nenhuma.
- O que se deve entender por arte portuguesa? Concorda com este termo? Há arte verdadeiramente portuguesa?
- Por arte portuguesa deve entender-se uma arte de Portugal que nada tenha de português, por nem sequer imitar o estrangeiro. Ser português, no sentido decente da palavra, é ser europeu sem a má-criação de nacionalidade. Arte portuguesa será aquela em que a Europa - entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro - se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações - a Grécia passada e Portugal futuro - receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras. Chamo a sua atenção para o facto, mais importante que geográfico, de que Lisboa e Atenas estão quase na mesma latitude.
- O regionalismo na literatura e na pintura?
- O regionalismo é uma degeneração gordurosa do nacionalismo, e o nacionalismo também. E como o nacionalismo é antiportuguês (sendo bom, cá no Sul, só para os povos latinos e ibéricos), o regionalismo em Portugal é uma doença do que não há. Amar a nossa terra não é gostar do nosso quintal. E isto de quintal também tem interpretações. O meu quintal em Lisboa está ao mesmo tempo em Lisboa, em Portugal e na Europa. O bom regionalismo é amá-lo por ele estar na Europa. Mas quando chego a este regionalismo, sou já português, e já não penso no meu quintal. (O facto de o meu quintal ser inteiramente metafórico não diminui a verdade de tudo isto: Deus, e o próprio universo, são metáforas também.)
- Teriam existido em toda a nossa história literária períodos de criação?
- O nosso único período de criação foi dedicado a criar um mundo. Não tivemos tempo para pensar nisso. O próprio Camões não foi mais que o que esqueceu fazer. Os Lusíadas é grande, mas nunca se escreveu a valer. Literariamente, o passado de Portugal está no futuro. O Infante, Albuquerque e os outros semideuses da nossa glória esperam ainda o seu cantor. Este poderá não falar deles; basta que os valha em seu canto, e falará deles. Camões estava muito perto para poder sonhá-los. Nas faldas do Himalaia o Himalaia é só as faldas do Himalaia. É na distância, ou na memória, ou na imaginação que o Himalaia é da sua altura, ou talvez um pouco mais alto. Há só um período de criação na nossa história literária: não chegou ainda.
- Continuará sendo o lirismo a nossa feição literária predominante?
- Há duas feições literárias -a épica e a dramática. O lirismo é a incapacidade comovida de ter qualquer delas. O que é ser lírico? É cantar as emoções que se têm. Ora cantar as emoções que se têm faz-se até sem cantar. O que custa é cantar as emoções que se não têm. Sentir profundamente o que se não sente é a flâmula de almirante da inspiração. O poeta dramático faz isto directamente; o poeta épico fá-lo indirectamente, sentindo o conjunto da obra mais que as partes dela, isto é, sentindo exactamente aquele elemento da obra de que não pode haver emoção nenhuma pessoal, porque é abstracto e por isso impessoal. Fomos esboçadamente épicos. Seremos inviolavelmente dramáticos. Fomos líricos quando não fomos nada. O lirismo só continuará sendo a nossa feição predominante se não formos capazes de ter feição predominante.
- O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa?
-O Quinto Império. O futuro de Portugal —que não calculo mas sei —está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamo. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeismo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.
13-10-1923
Ultimatum e Páginas de Sociologia Política . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. 
 - 3.
1ª publ. in Revista Portuguesa, nº 23-24. Lisboa: 13-10-1923.

disponível em http://arquivopessoa.net/textos/980 (acesso em 03/04/2018)

Uma Casa em Segunda Instância - Danny Marks

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A criança é acusada de cometer uma falta. O pai analisa a denuncia e manda por de castigo. Impetrado um recurso contra o julgamento do pai, recorre-se à mãe, que analisa o caso e confirma o veredito de culpado.
A criança deve cumprir o castigo imediatamente ou isso só deve acontecer depois do julgamento dos avós que só poderão vir à casa na próxima reunião familiar, sem data para ocorrer?
Se os avós decidirem pela absolvição, não estarão afirmando que os pais são incompetentes para criar os filhos, apesar destes terem seguido as regras que aprenderam com os avós? Deveriam os avós ordenar uma reciclagem das competências paternas sobre as regras familiares para aprenderem a julgar melhor?

terça-feira, 27 de março de 2018

Entrevista de Danny Marks para o Almanaque Literário, com Nell Morato




ENTREVISTA: Danny Marks

Sua Biografia:
Danny Marks é o nome artístico de Daniel Teijeira Claro. Nascido em Santos, atualmente morador de Praia Grande. Formado em Administração e Letras, pós-graduado em Alfabetização e Letramento. Metalúrgico aposentado dedica-se atualmente a profissão de escritor, palestrante e professor de Técnicas de Redação e Escrita Criativa.
Sua carreira literária oficialmente inicia-se com a participação na antologia Anno Domini da editora Andross, onde posteriormente organizou a antologia Dias Contados.
Foi editor da editora Multifoco, onde lançou a coletânea Universo Subterrâneo. Publicou independente pela Amazon os livros Amor, sexo e outras tragédias (contos) e Sob o Signo de Tanatos. Pela editora Dragonfly, publicou O Escultor de Ossos (policial) e Deus Vapor (steampunk). Tem participações em diversas outras antologias de editoras diversas, algumas em vias de produção.

Suas Obras:

Escultor de Ossos trabalha com o nascimento de um assassino serial na cidade de São Paulo. Na história, uma repórter fotográfica acaba cruzando inadvertidamente o caminho de um homem que rouba ossos dos cemitérios, para esculpi-los e apresentá-los como obras de arte e acaba tendo um envolvimento amoroso. Lançado em eBook e como parte da coleção Criminal da Editora Dragonfly.
Deus Vapor é uma história steampunk voltada para o público jovem adulto. Trata sobre a vida de um rapaz que busca compreender os segredos da natureza e da misteriosa tecnologia do Vapor. Entre o romance com uma jovem da cidade, as questões éticas e politicas do choque cultural de novas tecnologias em comunidades rurais, há a descoberta de si mesmo, do amor, da ciência e da aventura de viver em um universo cheio de surpresas e riscos, onde não há espaços para erros e nenhuma certeza dos resultados.


O Jogo é um romance mítico, trabalha com a questão do Livre Arbítrio usando uma linguagem arquetípica em forma de romance. Um trabalho complexo de arte literária que não tem a mínima pretensão de ser comercial. A grande vantagem é que a história é mutante, ela se ajusta ao momento do leitor e induz a reflexões e apropriações que mudam completamente a história para quem a lê. Tem recebido ótimas críticas dos leitores.

Segundo O Jogo é uma nova história envolvendo os eventos posteriores ao que ocorre no primeiro livro, mas é totalmente independente. Trabalha também com arquétipos, mas desta vez supre uma visão que não foi abordada pelo primeiro livro, a perspectiva do Feminino. Nesta nova trama as relações interpessoais e a busca pela compreensão do sentido da vida se inicia com uma ausência presente. Também é um romance mítico e de difícil leitura, mas que tem encantado aos que se aventuram nessa possibilidade de mergulhar no Si Mesmo e descobrir-se.


Amor, Sexo e Outras Tragédias é um uma coletânea de contos que trabalham a questão da sexualidade sob várias perspectivas, incluindo as que podem ser consideradas trágicas e cômicas.


Sob o Signo de Tanatos é uma autobiografia romanceada com os primeiros passos de um aprendiz de bruxo. Traz verdades, muitas mentiras e ensinamentos mascarados em uma linguagem literária que tem a pretensão de ser isenta de tudo, ou quase.



Como surgiu o escritor Danny Marks?
É chavão dizer isso, mas no meu caso é verdade. Escrevo desde a infância, meu primeiro personagem era um anti-herói, uma criatura desenvolvida por monstros para salvá-los...dos humanos rsrs. Desde antes de ser alfabetizado via HQs que não conseguia ler e inventava histórias para as figuras. Quando comecei a ler de fato, devorava todo tipo de livros e cheguei a assustar a bibliotecária pública ao pegar livros que “não eram adequados à minha idade” como Jorge Amado, Gabriel Garcia Marques e outros, mas ela percebeu que entendia as histórias e passou a trocar comigo argumentações e recomendações de livros.
Mas foi Isaac Asimov quem me “incentivou” a me tornar escritor, porque li em vários livros dele sua trajetória como autor ainda na infância, seus sucessos e fracassos. Li toda a obra de Asimov, até mesmo os livros científicos e as antologias que organizou e isso marcou muito meu estilo pessoal, a diversidade de interesses, ainda o tenho como meu grande Mestre em Escrita por sua linguagem simples, em histórias complexas e bem amarradas, inclusive na questão da verossimilhança e lógica textual.
O nome Danny Marks, porém, é anterior a carreira de escritor. Aos treze anos me interessei por misticismo e cheguei a estudar e me iniciar em diversos estilos de magia, chegando a criar um grupo de estudos e desenvolver a Ciência Evolucionária, um ramo da magia tecnológica vinculado à psicobiofísica. Como na época era proibido usar nomes pessoais nos trabalhos, inscrevi minhas teses A Ciência Evolucionária, O Caos Contido e A Lei da Completude, com o pseudônimo, uma corruptela do termo “A marca de Daniel” ou Danny’s Mark, que virou Danny Marks. Eu já lia Asimov e muito do orgulho dele pelo trabalho que fazia me inspirou também rsrs.
Desde a infância sempre publiquei em pequena escala, ganhei prêmios literários menores e sem repercussão, mas só depois de adulto e próximo de aposentadoria que realmente me dediquei à carreira literária, até porque viver de escrita no Brasil é para poucos e é preciso pagar as contas.


Você exerceu atividades na área editorial. Fale a respeito do mercado.

Leia a entrevista completa em:

sexta-feira, 23 de março de 2018

O Caminho do Meio - Danny Marks



 Está cada dia mais difícil conviver com as pessoas de forma civilizada, por isso que muita gente acaba fazendo trilhas off-road, para relaxar o espirito e ter um contato melhor com a natureza. O problema é que, em tempos chuvosos, o carro fica parecendo bife à milanesa, com aquela crosta envolvendo por todos os lados, que até desanima.
          Mas quem tem uma lava jato como o meu vizinho de frente, não se assusta com a coisa por mais ruim que pareça, e os problemas vão se dissolvendo rapidamente diante dos poderosos efeitos dos jatos da limpeza, que arrancam qualquer sujeira, por mais escondida que estivesse. Revelando no processo as histórias passadas em lugares sombrios e escorregadios.
          E voa sujeira e lama grossa para longe, enquanto a verdadeira e brilhosa tinta da civilidade vai sendo revelada. Que o diga o vizinho do lado esquerdo do meu vizinho de frente. E diz! Com gritos que atravessam a rua e chamam a atenção do bairro todo.
          Imediatamente começa uma campanha para terminar com essa operação da lava jato que está sujando completamente o seu quintal. Nem adianta dizer que aquela sujeirada toda não estava lá antes, e que é completamente ilegal fazer algo daquele jeito. Ameaça de todas as formas possíveis e imagináveis, faz campanha para mobilizar e até passeata colorida, com bandeirinhas e tudo.
          O vizinho da direita do meu vizinho de frente ao ouvir o clamor da multidão embalada pelas músicas que se criaram no calor do momento para dar ritmo à manifestação, logo toma partido, defendendo a decência de retirar a sujeira doa a quem doer. Como assim não havia sujeira no seu quintal se todo mundo sabe que sempre esteve lá. Está é contra a operação da lava jato porque gosta mesmo da sujeira, e a prova está lá naquele carro que só vê agua quando chove ou alaga. Como o carro não é seu se quem usa é a sua família? Que empresa que nada. E tem mais, já dá para sentir o cheiro de que tem algo muito podre lá para o lado da esquerda.
          Enquanto a briga rola solta, o da direita brigando com o da esquerda (com direito a passeatas, bandeirinhas, bandas de música que aproveitaram para fazer o comercial do seu show, e até um ou outro artista que aproveita para ensaiar uma pantomima), o vizinho da frente termina um dos lados e começa a limpar o outro, e tome sujeira voando para o outro lado.
          Aí o bicho pega feio, o da direita reclamando que assim não pode ser, que na verdade isso foi uma manobra da esquerda para tumultuar toda a situação, que vai acionar as autoridades máximas para acabar com a bandalheira. O da esquerda começa a tirar um sarro, dizendo que vai voar lama no telhado de vidro e no jardim japonês. Quer mais é ver as carpas nadando na lama para ver como é a vida de peixe pequeno. Onde está o apoio que estava dando agora que a coisa virou de lado?
Como o barulho estava alto que ninguém mais se entendia, logo apareceu um megafone, carro de som e até chamaram a reportagem para apresentar os fatos incontestáveis. E a notícia foi se espalhando tanto que logo tinha jornaleiro vendendo até revista encalhada para garantir um trocado. Até veio gente do outro bairro para assistir a briga, e não demorou para aparecer uma turma com mascaras ninja distribuindo cartão, divulgando os seus serviços, mão de obra pronta para entrar em ação. Até quiseram dar uma demonstração, mas a multidão acabou abafando o caso, vai que a polícia aparece e acaba com a festa.
          Não demorou muito para ter barraquinha vendendo lanche, camisetas deste ou daquele lado, utensílios simbólicos, placas feitas na hora e fogos de artifício. Um outro lá da ponta começou a alugar cadeira na calçada para os que queriam tomar partido de longe, mas teve que levantar uma cerca no meio da rua para evitar confrontos que destruíssem o seu investimento.
          Quando a coisa parecia que não podia piorar, a turma que estava vendo tudo pela TV, na sala do vizinho da frente, começa a reclamar do barulho exigindo uma compensação em salgadinhos, pipoca, refrigerantes e cervejas. Uma dona sobe na mesa e grita que só aceita de vinho para cima, que de pobreza já chega os que estão em volta, e logo uma galera protesta ofendida com o comentário, exigindo explicações.
          Quase exaurido com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, a lava jato já ficando sem força de tanta gente pisando na mangueira, e sem ter para onde correr diante da catastrófica situação, o vizinho da frente resolve tomar uma atitude impensável até então e, em um ato completamente autoritário e totalmente reprovável, pela minha perspectiva, pega o carro e vem me devolver sem terminar o serviço, pelo qual, é claro, não vou querer pagar, não adianta.
Agora estou com esse problema em mãos. Como vou poder fazer o próximo off-road com o carro daquele jeito? E, cá entre nós, não dá para suportar conviver com esse tipo de vizinhança sem dar uma escapada de vez em quando. Ninguém merece essa barbárie toda.


Então fica o meu apelo, compungido: Alguém por aí sabe de alguém que tenha uma lava jato e faça um serviço confiável?

(25/08/2016)

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