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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Um homem e seu livro – Danny Marks


              O homem entrou no bar e sentou-se em uma mesa perto da porta, pediu uma bebida e começou a ler um livro que trazia consigo.
              Aos poucos foi chamando a atenção das moças que estavam no bar, seja porque estava melhor vestido e perfumado que os outros homens, seja porque estava lendo um livro com a dedicação de um amante apaixonado.
              Por consequência, chamou a atenção de um valentão que logo reparou na preferência das moças e acreditou ter encontrado a sua oportunidade para um espetáculo. Estufou o peito, levantou as calças e andou com passos duros em direção ao compenetrado leitor.
              — Ei, você, o que acha que está fazendo?
              O rapaz olhou o amontoado de músculos e, sem fechar o livro, respondeu:
              — Estou lendo um livro.
              — Isto aqui não é lugar para ler um livro. Da o fora antes que eu me aborreça.
              O rapaz não ergueu o olhar do livro, mas falou em um tom frio e firme.
              — Sinto pelo seu aborrecimento, posso lhe contar uma piada que li há muito tempo para compensar. É sobre dois inimigos que acabam indo para o inferno. Um deles era um valente guerreiro, forte e orgulhoso. O outro era apenas um estudioso que havia tido a desgraça de conhecer o guerreiro e seu ódio. Quando chegaram no inferno o diabo veio os receber e disse-lhes: “Grande dia, hoje. Estou me sentindo generoso. Todos que chegam aqui são recebidos com cinquenta chibatadas para que já se acostumem com a casa, mas vou conceder a vocês um desejo antes que lhes arrebentem as costas. O guerreiro assustado pediu que lhe fosse amarrado às costas uma grossa manta de couro, ao que foi imediatamente atendido. Trinta chibatadas depois a manta já estava em tiras e as costas do guerreiro indo pelo mesmo caminho. Entretanto o estudioso estava lendo o seu livro tranquilamente. O diabo ficou tão impressionado com a coragem do homem que lhe concedeu mais um pedido adicional e o homem assim o fez. Meu primeiro pedido — disse — é que dupliquem as chibatadas, quero que sejam cem e não cinquenta. Todos ficaram impressionados com aquilo e logo aguardaram qual seria o segundo pedido. Este não se fez demorar. Meu segundo pedido é que amarrem o guerreiro nas minhas costas. E assim se fez. E o diabo ainda elegeu o estudioso seu lugar-tenente no inferno”.
              — Eu não entendi nada do que falou. Quer saber, eu vou é rasgar o seu livro em pedaços e depois rasgo você também.
              — Pois é, eu só queria lhe dizer que nem no inferno a força é melhor que a inteligência. Quando aprendi isso descobri como me livrar de valentões como você. Simplesmente contratei um pistoleiro que me acompanha para todos os lados. Quem tentar encostar em mim vai levar um tiro.
              O valentão ficou um tempo pensando no que o outro falara e se decidindo o que fazer. Quando estendeu a mão para agarrar o livro do outro, ouviu-se uma garrafa quebrando, e imediatamente o valentão se encolheu todo.
              O homem que finalmente fechara o livro disse bem alto para todos ouvirem.
              — Garçom, pode por a garrafa na minha conta. Não quero que saia no prejuízo por essa demonstração.
              O valentão lentamente se afastou e foi embora do bar e o homem voltou a ler calmamente.
              Então veio o garçom e cochichou no seu ouvido.
              — Escuta, amigo, o que acontece se eu falar para aquele cara que eu deixei cair a garrafa acidentalmente?
              O homem sem parar de ler respondeu no mesmo tom sussurrante:
              — Aconteceriam duas coisas: A primeira é que ficaria com o prejuízo da garrafa quebrada. E a segunda é que meu pistoleiro teria que atirar.
              O garçom ficou parado vendo o homem ler tranquilamente e se afastou sem falar nada. Cobrou a garrafa e ficou de boca fechada.
              O homem voltou várias vezes ao mesmo bar, mas todos já conheciam a história e ninguém nunca mais incomodou a sua leitura. Até lhe pagaram algumas bebidas, só para garantir; afinal, nunca se sabe o que se passa na cabeça de um homem com um livro.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Homem Invisível - Danny Marks


          Quem não conheceu o Jorge Armando de Souza?
          Aquele moleque remelento que andava com a bermuda, dada por algum parente, caindo e mostrando parte da bunda. O boleiro destemido, armador das melhores jogadas nas peladas da várzea, um craque não descoberto, terror das menininhas. Terror mesmo, preferiram as bonecas. Nem aquele olheiro que o descobriria para o mundo chegou a olhar para ele.
          Quem viu quando Jorge virou Armandinho? Esse garoto experto que escrevia longos textos que encantava até mesmo seus professores. Discursava seus trabalhos escolares fazendo grandes congressos para uma audiência cativa, não podia sair até que o sinal tocasse. Quando tocou, ninguém sobrou.
          Vida de poeta, belos poemas para encantar as mulheres de sua vida. Mulheres que ele conquistava com a mesma facilidade com que as via partir. Armando, que não conseguia descobrir o seu grande amor e que enfim passou a duvidar que existisse. Foi Armando aqui, Armando ali até que se sobreviveu.
          Feirante e entregador de jornal, Office Boy e Cafetão, usuário e entregador de pizza, quando percebeu tornou-se o Sr Souza.
            Ah! O Souza, esse grande exemplo, homem trabalhador, um cara legal estimado pelos amigos de cerveja, pai de família, marido fiel e honesto.
          Foi apertando parafusos, assinando papeis, curvando espinha e engolindo sapos que driblou as dificuldades como fazia com a bola na várzea.
          Discursos vazios, palavras elaboradas para satisfazer a audiência, aplausos desgarrados de idéias, dias sonhados em camas de gato, arquiteto de projetos futuros, nunca presentes.
          Falta, algo lhe fala lá de dentro, fantasmas que o atormentavam mas que ele exorcizava na cachacinha antes do trabalho e na cerveja do fim da tarde no bar do Osvaldo, que pendura para o final do mês. Esse bêbado nunca lembra quanto bebeu, se ele não bebe, como eu.
          Vai seu Armando, ajusta esse parafuso, aperta esses calos, olha as contas para pagar, precisa comprar material escolar. Precisa, precisa, precisa, isso vai ter que dar, melhor essa colar.
          E de sonhos e idéias, de dias vazios como bolsos e dispensas, de tanto ajustar e aceitar, acabou sendo aceito e ajustado, incorporado e carimbado.
          Homem invisível, cidadão desprezível, força na mão, caráter vencido. Comido e mastigado, cuspido fora em caso de necessidade. De quem a necessidade? Necessário se faça então.
          Seis dias, dois fora, quem nota? Quem faltou? Alguém viu porque o trabalho não saiu? Cabeças vão rolar, melhor se apressar, entregar no prazo.
          Ajustem a máquina, apertem os botões, acertem o compasso, o passo.Um, dois, um, dois. Um, apenas um, para fazer por dois.
          Olha no espelho não vê ninguém, desespero insano. Coitado, é da idade. Culpa do governo, sistema, estratagema, síndrome do pânico, sei lá.

          Melhor assistir a novela e ver que a vida é bela, até empregado tem vez nela. Apartamento bacana dessa dona que nunca trabalha, não tem marido e ainda tem jóia pra ser roubada. Que coisa. Quem foi que morreu mesmo? Nem manchete deu.

(08/06/2007)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Cálice - Danny Marks

 
Sabe aqueles momentos em que você tem todas as palavras na mão e não tem desejo nenhum de usá-las? Pode parecer um paradoxo, uma dicotomia até. Não é. Talvez eu devesse usar uma interrogação nessa frase: Não é?
          Ela assumiria um aspecto de ironia, uma pergunta retórica, uma afirmação inquisitiva que não necessita de respostas porque não é uma pergunta, mas não afirma nada porque pede uma resposta que não será ouvida. Um balé sedutor de ir e vir, sem sair do lugar.
          Existe uma crueldade latente nisso, ter todas as palavras na mão e não se ter o desejo de usá-las, diria até que é uma forma cínica de se lidar com a situação.
          De certa forma é triste, como se o seu melhor estivesse prestes a se entregar e como o guardasse para si. Egoísmo autorizado porque te pertence o direito de não usar o que tem, de reservar para si algo que em si não terá efeito porque só se realiza quando dividido, compartilhado.
          Dá raiva, não é? Não há retórica aqui, apenas afirmação.
          É por dar raiva que se faz isso, por desejar a raiva que dá, por não querer nada além da fúria silenciosa do que não foi entregue, não foi dividido, que se volta para si mesmo.
          O desejo de não ter o desejo satisfeito, de não ir em frente, não por medo, por raiva que se deseja intensamente.
          Claro que pode ser por medo, em alguns momentos pode haver muito medo, não se sabe exatamente do que, mas sente-se mesmo assim, fluindo lentamente. Tencionando os músculos.
          Ou seria o poder que se possui de não ceder, de se recusar e represar o que explodiria naturalmente; estancando o que, preso, morre.
Deixar morrer é ter poder?
          Melhor seria exercer o poder de deixar viver, de não interromper o fluxo.
          Isso implicaria uma responsabilidade com o que deixa, uma corrente que nos liga ao que está saindo, partindo para nunca mais voltar. Que poderia nos puxar para longe.
          Existiria liberdade se houvesse a necessidade de fazer o que não se está disposto a fazer, mesmo que com isso se conseguisse apenas a morte do que foi preso? Represado?
A quem pertenceria o que naturalmente veio e que não se quis usar?
          Quem se sentiria obrigado de usar tudo o que tem? Por obrigação. Que prazer adviria disso? Existe prazer obrigatório?
          Desejo e prazer. Um Freud moderno se resumiria a isso matando definitivamente as alternativas. Imaginar a “não ação”, o “deixa para lá” que, como lágrimas insatisfeitas no rosto, simplesmente, não rolam.

          E assim, no momento em que todas as palavras poderiam ser ditas, é apenas o silêncio que vai falar mais alto. Aceita um Cálice?

 (08/10/2007)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Segundo O Jogo - Danny Marks


O que é Livre Arbítrio? Quais são as consequências dessa condição? Em Segundo O Jogo o leitor acompanha o desenrolar dos fatos apresentados no primeiro Jogo, mas de forma independente. Trata-se de uma nova narrativa onde os personagens tentarão descobrir, entre outras, a resposta ao maior questionamento de todos seres vivos: Qual a necessidade da morte existir? Novamente as respostas mudam conforme as perguntas mudam e com isso provocam novas reflexões e interpretações. Um texto dinâmico que envolve a psicologia e a filosofia de uma forma que não deixa nenhum leitor sem respostas, e sem mais perguntas do que quando iniciou. São as perguntas que criam o futuro e as respostas estão dentro delas esperando que um novo lance seja dado. Não inicie este jogo se não quiser mudar a sua vida, você nunca mais será o mesmo. Vamos Jogar?


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