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quinta-feira, 31 de maio de 2018

Os Caminhos da Narrativa – Danny Marks





            É muito comum se falar dos benefícios de um livro para a vida das pessoas, inúmeras vantagens são levantadas pelos autores e divulgadores e não vou gastar seu tempo falando sobre isso. Mas, será que é apenas pela possibilidade de divertimento, de instrução, de autoconhecimento e coisas afins que é importante ler um livro? No Brasil, nas últimas décadas, temos observado um movimento interessante. Há cada vez mais autores iniciantes lançando seus livros e tentando uma carreira nessa área, alguns com relativo sucesso, por algum tempo. Por outro lado, vemos um declínio significativo do mercado de livros (não confundir com mercado editorial, que é outra coisa). Também não vou aprofundar na questão de que ainda precisamos inventar um mercado de LIVROS no Brasil, porque já fiz isso em outros momentos e o objetivo deste texto é diferente, embora haja muitos pontos em comum com essas outras questões. Então vamos lá.
            As narrativas têm evoluído ao longo dos séculos, e isso é bom porque, em última análise, criatividade é o nosso negócio, certo? Alguns fatores são cruciais para que essa evolução se efetue. Em primeiro lugar há a realimentação dos temas. Uma temática tem que ser relevante para conquistar algum sucesso e longevidade na construção de um texto literário, isso significa dizer que o texto literário se apropria das condições de uma sociedade, elabora de forma artística e devolve para a sociedade os desdobramentos possíveis até os limites da imaginação e, em muitos casos, influencia os rumos dessa sociedade para algum caminho diferente. Esse movimento quase orgânico é semelhante ao que se pode perceber em qualquer sistema evolutivo, as soluções importantes prevalecem e se multiplicam, até que se tornam comuns e outros desafios se impõem exigindo novas soluções, enquanto que as que não são relevantes apenas desaparecem pelo peso de sua falta de sintonia.
            Não vou tentar descrever a miríade de modelos literários que foram criados, ampliados, ramificados e remodelados ao longo dos tempos, porque isso seria um trabalho para uma vida inteira e não haveria espaço aqui para isso. Vamos nos concentrar em algo mais específico e que serve como um dos pilares para vários modelos literários, a Jornada do Herói. É chamada assim porque trabalha com um formato específico, linear, de construção do personagem (o herói) que se encontra em uma zona de conforto até que é provocado por um chamado (algo que o obriga a sair dessa zona de conforto) e é auxiliado por um guia em sua jornada em busca de algo que vai promover o retorno à estabilidade perdida quando alcançar um determinado objetivo. Ao longo da jornada o herói terá que lidar com várias dificuldades e ao supera-las sozinho ou com ajuda de outras pessoas, vai desenvolvendo capacidades anteriormente adormecidas, além de sabedoria, e conquistando ferramentas na construção de seu destino.
            Se identificou? Provavelmente sim, porque a Jornada do Herói é em maior ou menor grau uma metáfora da saída da infância, o percurso da adolescência rumo à maturidade, que todos passamos em algum momento. Por isso mesmo é um dos pilares de vários modelos literários de extrema eficiência, afinal todos passamos por essa fase em nossas vidas, embora alguns não a superem com todos os méritos, mas isso é outra história. O problema, e nesse ponto é que iniciamos o nosso desvio, é que a sociedade evoluiu para uma forma em que cada vez menos há espaço para os heróis que centralizam em si a força e as soluções em jornadas razoavelmente solitárias, embora solidárias. Sem falar que cada vez mais, na sociedade atual, há uma identificação maior com o Vilão, o adversário do herói, a ponto de muitas narrativas inverterem o sentido e quase apagarem a linha divisória entre um e outro criando uma variante que denominamos o anti-herói, que é quase um vilão que deu certo quebrando as regras e fazendo as coisas necessárias de forma diferente do que está estabelecido a despeito do custo envolvido.
            Essa identificação com o anti-herói muitas vezes é maior do que a identificação com o herói, porque é mais comum em um mundo em que as regras mudam rapidamente e há necessidade de fazer diferente do padrão estabelecido e ainda assim funcionar bem para todos. O anti-herói não é contra o caminho do herói, mas um caminho paralelo, sombrio, onde não há certezas de sucesso e decisões difíceis são exigidas constantemente sob o risco de tornar as coisas piores, e não melhores. Se identificou com esse modelo? Pois é, na sociedade tecnológica as regras mudam rapidamente, e apenas aqueles que são capazes de fazer diferente e melhor são os que obtém sucesso. Nesse mundo tudo precisa evoluir, até mesmo os vilões, ninguém é bobo de acreditar que os desafios vão se manter os mesmos e é preciso sobreviver a qualquer custo. A sociedade pressiona nesse sentido “Seja igual a todos, mas faça melhor que qualquer um”, ou seja um paradoxo. Como fazer algo igual, a partir das mesmas bases, e obter resultados melhores?
            Essa é a grande charada da evolução. Seguir as regras até o limite de adquirir força suficiente para superar as regras e dar um salto no desconhecido. Se é desconhecido, não haverá guias, não haverá regras claras, quando muito a certeza de riscos e a possibilidade do fracasso, mas que se conseguir superar obterá uma capacidade inigualável, ou rapidamente será esquecido sem qualquer epitáfio. A pior parte do caminho do anti-herói é justamente essa, ele não tem uma zona de conforto, o chamado para a aventura não existe, ou melhor, sempre existiu e se chama sobrevivência, implicando que dependerá dos recursos da sociedade que o sustentou e agora exige a mudança, porém fará tudo para que fracasse e resistirá a qualquer alteração da balança do poder. O anti-herói precisa provar seu valor para ser reconhecido, o que é impossível até que a tarefa esteja completa, mas para conseguir alcançar o seu objetivo terá que convencer os provedores de recursos a ajuda-lo, fazendo o mesmo salto que ele no desconhecido.
            É nesse cenário de incertezas absolutas, de caos constante e desafios absurdamente enormes que o anti-herói tem que continuar sobrevivendo, e suportando as perdas pessoais e dos aliados que se arriscaram junto com ele nesse caminho, seguindo sua visão e confiando em suas habilidades. Parece impossível? Então considere que as coisas estão tão ruins que as chances de sucesso são mínimas para qualquer um, se nada for feito o fim já está decretado, por outro lado se fizer algo errado pode acelerar o fim OU pode encontrar uma solução inusitada para o problema, que permitirá que o próximo da fila consiga avançar mais um pouco. O anti-herói, nesse contexto, é a evolução do herói que depois de ter conquistado a sabedoria, de ter feito sua aventura e vencido coisas terríveis, percebe que esse é apenas o início da jornada e não há um “viveram felizes para sempre”, pelo contrário, os adversários agora sabem do que é capaz e se preparam para vencê-lo e destruir tudo o que conquistou. Sabe aquele mosquito que sugou o seu sangue? Ele é mais fácil matar enquanto está com a barriga cheia, porque se move mais lentamente, está mais pesado, a fartura o coloca mais próximo do risco pela indolência.
            Um herói evita arriscar a vida dos amigos e aliados, por isso que facilmente conquista apoio, o vilão não se importa com ninguém e por isso tem dificuldade de manter o apoio,  já o anti-herói sabe que não pode proteger a todos e a si mesmo, então escolhe não ter aliados ou prepara-los para se defenderem sozinhos, apenas apontando a direção para onde pretende ir e se aproveitando de qualquer avanço que puder tornar seu, mesmo que ao custo dos que o seguem. Percebe que essa é uma forma de apresentar a teoria da Evolução das Espécies de Darwin? Os melhores preparados sobrevivem, isso quer dizer que nem todos vão conseguir, ou melhor, para que alguns sobrevivam, todos tem que dar o seu melhor e criar soluções que ajudem a coletividade e a si mesmos, não há um indivíduo que vai solucionar tudo, mas um grupo de indivíduos que pode potencializar suas chances trabalhando por um objetivo em comum. Parte desse grupo não vai chegar ao final, não vai suportar, mas de outra forma ninguém conseguirá vencer a adversidade, o herói passa a ser aquele que se sacrifica pelos outros e não o que chegou até o final. Nesse modelo a coletividade se torna mais eficiente que o indivíduo e se alimenta dos indivíduos que a compõe, e obriga a um outro tipo de habilidade, a do Líder que motiva os que o acompanham e se arriscam junto em um projeto. O líder, diferente do herói, não tem todas as respostas e vai cometer erros, por isso tem que rever constantemente suas estratégias para não perder o apoio e a força que o grupo lhe fornece. Um líder egoísta morre sozinho ou é morto pelos que o apoiavam. Só um líder que tenta atender as necessidades da coletividade, mesmo lutando contra essa mesma coletividade, consegue apoio para sobreviver por tempo suficiente para fazer a diferença, até ser substituído por outro melhor capacitado que se formou no âmbito do grupo. É como o macho alfa de um bando de predadores, que tem seguidores enquanto conseguir sucessos, mas gera e sustenta os que irão substituí-lo entre os amigos e adversários.
            Conseguiu perceber os links com algumas narrativas de sucesso? Acredita que é injusto? Não é, se olhar pela perspectiva da evolução. Tudo tende a um declínio na natureza, chama-se entropia. A única forma de evitar a entropia é justamente manter a evolução constante, isso significa tornar as coisas diferentes para que continuem a funcionar, até porque tudo muda quando as soluções deram certo. Algo que muda para permanecer igual tende a decair em sua energia gerando a estagnação, a entropia. É por isso que há um movimento crescente da distopia, aquele modelo literário que quebra as regras e tenta demonstrar da forma menos idealizada os fatos, destruindo a jornada do herói e seus maniqueísmos e tentando demonstrar que entre os dois extremos há um universo de possibilidades interessantes, mas nem todas viáveis ou benéficas para os envolvidos, por isso é importante ter cuidado com as escolhas que se faz e quais regras pretende quebrar.
            Foi nessa linha de argumentação que desenvolvi um modelo literário diferenciado, para poder alcançar o máximo potencial da narrativa que se tornou o eixo central da Saga SOBREVIVENTES. Em primeiro lugar abandonei a jornada do herói, a jornada do anti-herói, a jornada do vilão e estabeleci um modelo em que nenhum personagem é mais importante que o outro, mas todos tem um papel fundamental no desenvolvimento da trama. Isso gerou um problema enorme para compor a narrativa, não havia um modelo que pudesse me apoiar, era um terreno pantanoso que tinha tudo para dar errado e apenas algumas possibilidades de sucesso. Tive que refazer todo o projeto diversas vezes ao longo de seis anos de trabalho, reformulando tudo até chegar ao ponto em que gerava os resultados desejados. A narrativa cresceu tanto que não cabia mais em um único volume e isso me obrigou a quebrar outro paradigma. Em Sagas é comum que a narrativa vá evoluindo ao longo dos volumes que podem ser intermináveis, enquanto o leitor tiver interesse, e as vezes não há interesse justamente porque são vários volumes para contar uma história. A solução foi pensar de outro modo, mais de acordo com a realidade das coisas e em consonância com o modelo que desenvolvi. Se os personagens são importantes em sua história, e são relevantes na história como um todo, mas nenhum é insubstituível, então porque não tornar cada livro independente, fazendo parte de um todo maior que vai se construindo?
            No modelo que construí para a narrativa distópica desenvolvida em SOBREVIVENTES, o eixo central é a sobrevivência. Sem vilões, heróis, anti-heróis, personagens centrais, mas com tudo isso junto, em histórias que se desenvolvem em livros fechados, com início, meio e fim, mas que compõem e ampliam o universo criado em que existem. São como peças de um quebra-cabeças em que cada uma se basta, mas que quanto mais peças, maior a diversão. Percebi uma coisa interessante nesse modelo, cada livro pode ser feito com um modelo diferente, que pode até ter a jornada do herói e seus maniqueísmos, pode ter a jornada do anti-herói e suas complexidades, pode até ter a jornada do vilão e suas perspectivas, ou pode ter tudo isso junto e misturado em uma narrativa diferenciada, como o volume de abertura que leva o nome da saga, SOBREVIVENTES. Onde quero chegar com essa loucura toda? Não sei, não há um objetivo a ser alcançado, mas uma jornada a ser percorrida que pode ajudar aos que trabalham com os modelos clássicos a progredirem e pode ajudar aos que querem romper com esses modelos a ver outras perspectivas, ao mesmo tempo que ofereço aos meus leitores uma forma diferente de narrar essa aventura e encantar, instruir, denunciar, questionar e divertir.
            Antes mesmo de ser lançado o primeiro volume, desenvolvi três livros dentro do modelo para verificar a funcionalidade. Estão prontos e serão lançados seguindo uma estratégia de marketing diferenciada, porque, como disse lá no início, precisamos inventar um mercado de livros no Brasil, e se é para inovar, vamos fazer bem feito. A evolução é necessária e para que as coisas funcionem, precisamos pensar que cada um dos envolvidos vai ter que contribuir com a sua parte para a coletividade e fazer com que seja conquistado algo que poderá nos dar uma nova chance de continuar tentando fazer melhor, usando tudo o que já sabemos e todas as regras já estabelecidas, mas avançando no desconhecido e inventando novas soluções para um mundo que tem que se recriar constantemente, para se manter vivo e evoluindo. Não há outra opção viável se quisermos continuar a nossa jornada em busca do melhor que podemos obter, sem destruir os caminhos para os heróis, anti-heróis e vilões que merecem ter suas histórias contadas e recontadas até que não sejam mais necessárias.
            Quer saber mais? Continue acompanhando nos meus canais o desenvolvimento desta jornada. Apresentarei oportunamente todos os bastidores da Saga, os modelos utilizados em cada um dos volumes, as técnicas de construção da narrativa e dos personagens e muito mais. Conto com o apoio de todos para que possa realizar essa jornada sem heróis ou vilões, mas com pessoas que vão dar o melhor de si para atingirem um patamar mais elevado de evolução. Deixe suas dúvidas, criticas, sugestões, apoio, nos comentários, todos serão parte desta história que estamos escrevendo juntos. As coisas nunca mais serão as mesmas, e isso faz toda a diferença no sucesso.

Danny Marks, 2018

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Costelas de Salomão – Danny Marks


          Chega o momento em que se tem que mandar as estratégias às favas e rever tudo do zero, e o único momento em que isso acaba acontecendo é quando todas as coisas parecem estar erradas, ao menos para os brasileiros. Temos a cultura (errada) de que “em time que está ganhando não se mexe”, e nisso denota-se dois erros clássicos: 1 – de que tudo funciona como no futebol, com times e torcidas organizadas (às vezes até mais do que os clubes e confederações) e 2 – esquecem que é quando o time está ganhando que há espaço para testar novas possibilidades, não quando está já quase derrotado, no desespero.
          Ok, claro que vou falar (novamente) do “mercado literário brasileiro” que insisto, não existe de fato, sendo mais um “mercado de nichos” que realmente um mercado de livros e, não, não vou apresentar novamente os argumentos a respeito disso. Desta vez vou usar uma estratégia diferente, dissecar o problema por segmentos e apontar onde possam estar soluções. É claro que não sei se funcionam, não tenho como testa-las, mas pensem a respeito e me digam, ou não digam, façam.
          Então vamos lá. Em primeiro lugar há na atualidade uma grande reclamação por parte dos segmentos envolvidos nessa crise de que as vendas despencaram, ou nem alavancaram, apesar dos esforços. Sei disso porque tenho contato com várias pessoas do setor e muitos me procuram em busca de soluções, até testei algumas, mas os resultados neste caso sempre são de longo prazo. Qual o problema? O que está havendo? Quem ou o que está provocando isso tudo? É o que pretendo destrinchar neste trabalho.
          Vamos começar pelos autores brasileiros. As perguntas que faço são: Quantos autores brasileiros contemporâneos foram lidos por autores brasileiros? De que tipo? Só os que já foram consagrados? Autores iniciantes com novas propostas? Desses, quantos foram divulgados pelos autores que os leram? Fica difícil querer que haja um mercado quando os próprios agentes do mercado que poderiam se beneficiar mais, agem como se não existisse. Entenda, não existe mercado de UM único produto, há sempre a necessidade de uma variação para gostos, preços, qualidades, etc., e é ISSO que faz com que os segmentos se formem e o mercado se fortaleça.
          Ah, mas autores brasileiros são ruins de se ler. Concordo, em parte, há uma gama imensa de autores que acreditam que basta o talento e tudo se resolve. É como se fosse possível arrancar um diamante da terra e incrusta-lo em um anel e pronto, nenhuma lapidação, nenhuma técnica, só o “natural”. Tentem fazer isso e o mercado de diamantes vai abaixo em pouco tempo. São as técnicas de lapidação que tornam a pedra valiosa, brilhante, eficiente. Então, autores, estudem muito as técnicas, ou guardem o seu talento para si. E, sim, há muitos autores excelentes, embora na maioria das vezes desconhecidos do público e dos próprios autores, então, experimentem, vão se surpreender.
          E nisso chegamos ao segundo segmento envolvido, as editoras. Tudo bem que uma editora precisa vender, mas é preciso ter noção do que será negociado e como. Houve há algum tempo uma enxurrada de editoras que nasciam apenas para vender publicações para autores. Qualquer um podia publicar em um livro solo ou coletânea, bastava pagar e ainda “ganhava” alguns livros que poderia vender e resgatar o dinheiro de volta. Ótimo negócio, se fosse combinado com os russos, no caso os leitores, que foram simplesmente deixados de fora na equação. Quando se tem um produto ruim, pode-se até vender e ter lucro por algum tempo, mas depois o mercado (leitores) reage e exige uma qualidade melhor, haja vista como exemplo as lojas de R$ 1,99 que vendiam qualquer porcaria por um preço baratinho e depois tiveram que subir o preço e a qualidade ou fechar.
          Se as editoras não investem em profissionais de revisão para trabalhar os textos que, invariavelmente vão chegar com erros de todos os tipos (desde estilísticos até gramaticais), vão acabar entregando um produto ruim, defeituoso e vão prejudicar a própria imagem da marca (editora), o que dificulta as vendas posteriores. Pior, se a editora publica qualquer coisa, literalmente falando, acaba criando a imagem negativa de negócio que dificilmente será revertida. Por outro lado, se as editoras investissem em profissionais de revisão, haveria uma demanda maior por cursos do tipo nas escolas, haveria mais profissionais qualificados e uma competição saudável por preços e qualidade do trabalho de revisor que seria benéfico para as editoras e para os autores, que poderiam contratar esses profissionais para auxiliar no processo de depuração do original antes de apresenta-los para as editoras, que então teriam menos trabalho e mais qualidade no material recebido. Não lhe parece um bom negócio?
          Então vamos a outra ponta da equação, as vendas. Sites de publicação há aos montes, mas todos seguem os mesmos padrões. Colocam os títulos, os preços e uma resenha curta (na maioria das vezes feitas pelo próprio autor). Alguns até disponibilizam para os leitores (que compraram) falar algo sobre o livro e dar “estrelinhas”. Sério?! Alguém volta no mercado para dizer “este sabão em pó é excelente, dou cinco estrelinhas para ele” e sai satisfeito de ter dado a sua contribuição para o mercado? O mesmo ocorre com livros, acreditem. Livros são produtos, precisam de estratégias de marketing, de exposição, de incentivos ao público para que falem sobre o produto, de degustação, enfim, todo tipo de coisa que pode alavancar uma venda quando a qualidade é garantida. Querem estimular os leitores (e não apenas os que compraram no site aquele determinado livro) a comentarem sobre? Então ofereçam descontos para quem fizer comentários (sejam quais forem) nos livros apresentados. Ao mesmo tempo que alavancam as vendas do site (no uso dos descontos), fazem com que as pessoas se proponham a comentar sobre o produto oferecido.
          “Ah, mas eu gosto de livro físico, essa coisa de eBook não colou não, me perdoem as arvores”. Ok, em primeiro lugar são dois segmentos não excludentes, ou não deveriam, que exigem estratégias diferenciadas. Um livro impresso que não é exposto, ou fica em uma prateleira na estante do fim da loja, dificilmente vai vender, serão arvores derrubadas inutilmente. Que tal fazer rotatividade nos exemplares apresentados na vitrine? Colocar os menos vendidos e os mais vendidos, lado a lado? Porque, pense bem, quem vai comprar dois exemplares do mesmo livro? A não ser para dar de presente. Então se um livro teve muitas vendas, a probabilidade delas caírem com o tempo é muito maior, e se você volta à mesma vitrine e sempre estão com as mesmas ofertas que, provavelmente, você já tem, qual o interesse em parar para ver novamente? Não seria melhor uma oferta rotativa? Gerar um interesse em buscar aquele livro que viu na vitrine (e não está mais lá) dentro da loja?
          Quanto aos eBooks, eles oferecem a oportunidade de degustação, que pode alavancar a venda do digital (por ser mais barato, e por favor, TEM que ser MUITO mais barato) ou até a do físico, afinal com o preço dos livros é sempre bom poder dar uma olhadinha para ver se é realmente interessante antes de pagar por ele. Então deveria haver estratégias de incentivo a essa degustação, estarem disponíveis INCLUSIVE na livraria física, não apenas nos sites especializados que colocam uma enxurrada de livros de todos os tipos, com filtros que mais embaralham que ajudam. E se há procura por um determinado livro, então ele deve ser disponibilizado o mais rápido possível para o leitor na opção que achar melhor.
          Recentemente me perguntaram qual seria a minha estratégia para fazer uma tarde de autógrafos de um eBook. Achei pertinente a pergunta e a resposta é bem simples, aliás, dou um exemplo de estratégia de mercado. Recentemente comprei um pacote de programas de uma empresa famosa mundialmente. Veio a embalagem e um código que me deu acesso a um site na internet onde pude instalar os programas e usa-los e, veja que interessante, me ofereceram vantagens e ofertas para ampliar ainda mais a experiência, caso estivesse interessado. Então a resposta é simples, em uma tarde de autógrafos de eBooks, poderiam ser autografadas as embalagens com a capa do livro e dentro o código exclusivo para acesso ao conteúdo digital em diversas plataformas, além de poder incluir alguns benefícios exclusivos para quem comprasse naquele evento específico. Teriam algo físico para marcar, guardar e até dar de presente, e não alteraria o valor do produto digital. Poderia haver leituras de trechos do livro junto com o público que poderia acompanhar em seus aparelhos particulares. E por aí vai, as estratégias são ilimitadas quando há criatividade e interesse e, como sempre digo, criatividade é o meu negócio, sou um autor afinal de contas.
          Por fim é preciso combinar com os russos, digo, leitores. Sem isso não há mercado. Como fazer com que o público queira ler mais autores nacionais de qualidade (sim, é preciso que seja oferecido algo bom, do contrário toda a estratégia vira o contrário do que deveria, mas isso já supondo que foram feitos os trabalhos descritos anteriormente aqui mesmo)? Ora, é igual novela, que faz sucesso porque todo mundo comenta. Mesmo quem diz que não gosta, sempre dá uma espiadinha nem que seja para poder entrar naquela conversa em ponto de ônibus, no trabalho, na roda de amigos, nas redes sociais, etc. De que adianta saber de uma coisa fantástica que não se pode comentar com ninguém? Trocar experiências e impressões? A primeira lei de Marketing é sempre a de que um produto só existe se alguém falar sobre ele. Então como fazer isso?
          Caso não tenha percebido, apresentei algumas estratégias nesse sentido ali acima no texto, retorne e leia com mais atenção. Mas não são as únicas, é possível estimular um mercado criando demanda a partir de soluções simples. O mercado da moda cria desfiles, diversas lojas contratam modelos para usarem as roupas que estão acessíveis nas arandelas e as exibem para o público criando o desejo de ficarem parecidos com as belezas que se apresentam. Na literatura deveria haver o mesmo. Bibliotecas deveriam, com o apoio das livrarias e editoras, fazer saraus de leitura de diversos autores contemporâneos. Escolas deveriam promover encontros do tipo, abertos ao público em geral e estimular os alunos a participarem (além de poderem atrair público para os seus cursos).        É preciso desconstruir a coisa de que ler é uma atividade solitária, para poucos e estranhos seres. Sexo é uma atividade intima e, no entanto, todos falam de sexo, todos se interessam por sexo, todos têm seus gostos e preferências e, não, não estou incentivando o sexo em público e coletivo, é apenas um exemplo de que há atividades que são intimas, mas que produzem experiências que podem ser compartilhadas de forma saudável e enriquecedora dentro de grupos com os mesmos interesses, e até abrir possibilidades maiores de experimentação.
          Claro que todas as estratégias apresentadas aqui necessitam de maior elaboração para serem aplicadas, são genéricas por necessidade de espaço e porque também sou um administrador, quem estiver interessado em um estudo mais aprofundado, basta me procurar que negociamos um valor razoável e interessante para ambos. Também sou escritor, professor de técnicas discursivas e leitor, então todas as estratégias para melhorar o mercado me interessam de diversas formas. Além disso acredito que, ou se perde tempo dizendo como as coisas estão ruins, ou se ganha tempo resolvendo a situação.

          Gostou? Detestou? Não se cale, compartilhe o texto com todos os seus conhecidos e amigos, reflitam em conjunto sobre o que foi apresentado e me incluam no debate, se possível; tenho o maior interesse em ouvir o que tenham a dizer a respeito. Afinal, crítica é algo bom, mesmo sendo desagradável de se ler, porque nos ajuda a entender como os leitores estão recebendo o que produzimos e podemos melhorar o que está ruim e aprimorar ainda mais o que está bom. E, me perdoem os que pretendem ser autores, se não concordam com o que foi dito neste último parágrafo, talvez seja melhor investir em outra profissão. Dizem que a de político está em alta, e não precisa nem dar bola para o eleitorado o tempo inteiro, só contratar bons marqueteiros na hora da campanha. Como não tenho estofo para política, então vou continuar como escritor mesmo, e que venham os comentários. Estou aguardando você.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

País do Diabo – Danny Marks


           Em 1884, um brasileiro chamado de Machado de Assis, publicava um texto intitulado de Igreja do Diabo. Neste, apresentava a ideia do citado personagem do título para resolver o problema de que sempre se dava mal. Faltava-lhe uma igreja que permitisse aos humanos exercerem de forma livre e desimpedida a sua natureza sórdida, coibida pela ação daqueles que se alinhavam em templos de natureza oposta. Com essa ideia em mãos, foi solicitar a Deus a justiça da igualdade de direitos. Queria montar a sua igreja, e assim lhe foi permitido.
          133 anos após, no mesmo pais, em outra história, o que se observa é o passo seguinte, a construção de um Pais do Diabo. A exemplo do que foi solicitado anteriormente, o pedido foi de que, não apenas em um templo fosse feito o que se tivesse vontade, mas em todo um país. Todos estariam livres para fazer o que bem entendessem, por mais imoral ou ilegal que isso fosse, não seriam punidos. E viva a liberdade de se ser o que é.
          Impossível! Diriam alguns tolos, acrescentando que a moral elevada é uma condição da natureza humana. Mas o que se viu foi exatamente o que o Diabo esperava. Dada a liberdade com garantia de impunidade, a corrupção se instalara facilmente. A princípio em pequenos gestos, tímidos. Um pequeno engano aqui, um desvio moral ali, justificados pela necessidade ou pela generalização. Todos mentem, quem ainda não percebeu isso?
          Do menino que colava na hora da prova ao médico que comprou os trabalhos em sites especializados, todos garantiram uma vida mais fácil com os recursos necessários. Combatia-se o crime, é claro, aquele descarado, de armas na mão. A venda de drogas ilícitas que degradavam rapidamente a ideia de uma sociedade ordenada sob princípios mais elevados, estéticos. Roubar é algo que prejudica a imagem, desviar recursos é um ato de inteligência. Matar com disparos de armas ou bombas é um crime hediondo. Matar dezenas, milhares, por projetos mal dimensionado que desabam, por falta de recursos desviados da saúde, apenas um acidente não intencional.
          O importante é ter a garantia de apoio daqueles que pensam igual, alinhados em um discurso que os defende e os representa. E como não há unidade de interesses, então é preciso criar representantes para estes, defendidos com unhas, dentes, paus, pedras, bombas, balas de borracha ou de chumbo, para garantir que a bandeira do que é moral e ético (o conjunto de valores estabelecidos e reconhecidos por um grupo) seja defendido dos imorais (aqueles que defendem discursos diferentes).
          Criam-se times e torcidas que se confrontam. Criam-se divisões polarizadas o suficiente para saber que há apenas dois lados, a seu favor ou contra, sendo obvio qual que se deve se defender e ouvir, o outro deve ser exterminado sumariamente, nem merece ocupar um lugar ao sol. Na verdade é a causa das nuvens negras que tampam o seu sol. Essa é a lei.
          A lei não deve beneficiar a todos, como assim defender bandidos? Por isso mesmo que é necessário criar uma legião de defensores da lei acima de tudo. E estes devem ser escolhidos entre aqueles que não compraram o diploma. Devem ser expertos e inteligentes (sim, há uma diferença entre os termos) para defender os que são bem-sucedidos daqueles que tentam usurpar seus vencimentos exigindo igualdade de valores. Como assim, igualdade de valores? Os que trabalharam duramente para criar esquemas ilícitos para ganhar mais devem poder gozar dos resultados dos seus esforços em driblar a concorrência e convencer com fortunas prometidas os que poderiam favorece-los.
          Os vagabundos que nada fizeram, esperando que a lei os beneficiasse, mamando nas tetas do populismo complacente com o ócio, não merecem ser compensados por nada fazer. Ao contrário, devem pagar ainda mais pela oportunidade de fazer parte do progresso, daqueles que realmente trabalham para conquistar ainda mais lucros e tornar a nação e a família rica. É uma questão de valores elevados que devem ser defendidos a todo custo.
          É claro que para que haja um lado vencedor, deve ter um lado perdedor. É a vida. O melhor adaptado sobrevive para lutar mais um dia. Soldados morrem nas guerras, para isso são feitos soldados. Pessoas morrem todos os dias, e ninguém nem fica sabendo, melhor morrer por uma causa, a minha. É preciso garantir o futuro das próximas gerações de iguais, daqueles que seguem os mesmos valores e, para alcança-los, fazer uso daquilo que aprenderam. A vida é curta e cheia de perigos, mas é sempre melhor quando se pode olhar do alto de uma montanha, de preferência de dinheiro, para as mazelas do mundo.
          Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Essa é a lei, garantida por um pelotão de fuzilamento judicial que serve aos que roubam muito, porque roubar pouco é sinal de mediocridade e deve ser combatido. O mundo é dos expertos, todos sabem. Garantir que apenas os expertos sobrevivam é tornar o mundo melhor, mais humano. Afinal a humanidade é corrupta por sua própria natureza, e só os fortes sobrevivem.
          É claro que quando todos descobrem que roubar muito compensa, e roubar pouco condena, começam a fazer uma concorrência desleal. Agora não basta ser experto, tem que ser também articulado, garantir apoio para os seus e garantir que não traiam os ideais que os fizeram fortes. Mas como evitar trair quando a traição é parte do negócio? Traindo antes que seja traído, é claro. Isso demonstra a habilidade em perceber quando a pirâmide vai desabar e permite escapar com um belo acordo de delação que vai garantir grande parte do lucro conquistado, pagando uma pequena propina à título de ressarcimento por não ter incluído, antes, os novos aliados.
          Com o mundo violento do jeito que está, é melhor viver em uma prisão domiciliar, uma mansão conquistada com muito suor dos incompetentes, garantindo uma escolta armada para impedir que os ludibriados tentem resgatar de volta o que lhes foi tomado pela inação. A lei existe para ser cumprida, desde que beneficie aqueles que as fazem e as mantém. E quem são esses senão aqueles lideres visionários que perceberam que a condição humana é uma incoerência absoluta, como declarado por Machado.

          Bendito o pais que elege o Diabo do inferno que merece. Isso fica claro a cada dia para este autor, que pretende incluir urgentemente no currículo a habilidade absoluta em criar discursos que justifiquem qualquer coisa, de forma a garantir um lugar de destaque nessa nova ordem a um custo exorbitantemente justo pelo que é oferecido. E que todos digam Amém!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A Verdade Líquida em tempos de Revolução Tecnológica – Danny Marks

  
          Posso lhe contar uma história? Será algo criado especialmente para você e lhe fará refletir de uma forma muito simples e direcionada sobre questões complexas que todos estão discutindo no momento. Como vou fazer isso? Na verdade, de uma forma bem simples, usando todas as informações que forneceu voluntariamente através das suas redes sociais, compiladas através de um algoritmo que me fornece um mapa do seu perfil psicológico e os pontos em que posso atuar influenciando as suas opiniões e comportamentos, mas relaxe, você não vai nem perceber. Mais provavelmente vai acreditar que todas as suas constatações são apenas suas e que está muito bem fundamentado na sua opinião a respeito de um assunto que, anteriormente, não estaria tão atento assim, mas para o qual foi despertado pelo insight que teve de sua importância, tornando-se um militante da temática apresentada.
          Parece coisa de ficção científica, não é mesmo? Aquelas coisas inventadas por escritores com imaginação fértil que servem para nos assustar de uma forma agradável e nos fazer sair da nossa realidade e dar uma relaxada em um mundo alternativo que, por pior que possa ser, não vai nos afetar de verdade. Afinal a verdade é algo concreto e sólido, consistente e facilmente verificável, que sempre dará um jeito de emergir das sombras da mentira e iluminar a todos com seu poder de diluir os conflitos e nos conduzir no rumo do Bem Maior, com a ajuda de Deus e o apoio dos Homens e da Ciência. Tem sido assim desde os primórdios da nossa civilização, quando os pensadores e filósofos se debruçaram sobre as questões universais, entre elas a busca da verdade e de como alcança-la. E essa busca tem se mantido até hoje, com resultados diversos.
          A Filosofia, mãe de todas as ciências, chegou a ter cinco formas de descrever a verdade. A verdade como correspondência, originária em Platão, diz que a verdade é o que garante a realidade, ou seja, o objeto falado (discurso) é apresentado como ele é. Já o empirismo, a metafísica e a teologia apresentam a verdade como uma concepção de revelação, ou seja, algo que se revelou ao homem por meio das sensações ou pela intervenção de um Ser Supremo que evidência a essência das coisas. Platão e Santo Agostinho retornam com uma outra perspectiva em que a verdade deve se apresentar no sentido da conformidade e adequar-se a uma regra ou conceito, para ser verdadeira. Já no movimento idealista inglês, por volta da metade do século XIX, o filósofo Bradley alega que “o princípio de que o que é contraditório, não pode ser real”, portanto “a verdade é a coerência perfeita”, e assim apresenta-se a verdade como Coerência. Mas há aqueles mais pragmáticos, como Nietzche, que acreditam que a verdade deve ser funcional, ter uma utilidade. Para ele “Verdadeiro não significa em geral senão o que é apto à conservação da humanidade. O que me deixa sem vida quando acredito nele não é a verdade para mim, é uma relação arbitrária e ilegítima do meu ser com as coisas externas”. Portanto, tudo o que não colabora para a conservação do bem para toda a humanidade, poderíamos dizer que é verdade?
          Mas as coisas complicam de verdade, com o perdão do trocadilho, quando a tecnologia recria a realidade em uma forma diferente, seja pela ampliação dos sentidos, seja pela virtualização do que é real, criando uma realidade alternativa sensível à nossa interferência e interação, ampliando e torcendo todos os conceitos de realidade e de verdade que se poderia imaginar ou intuir. Como então buscar uma base razoavelmente sólida e confiável, verificável em seus efeitos sob todos os aspectos práticos, passível de ser reproduzida e que mantenha uma coerência com as revelações que forem produzidas a partir dela ou nela em si mesma? Surge então a perspectiva de que os fatos não mentem, e levantados os fatos e alinhados de forma correta e coerente teremos, por fim, a revelação da verdade de forma incontestável. Só que não é bem assim. Platão também foi o precursor da análise discursiva que investiga os fatos através de técnicas de desconstrução dialética que revelam as suas estruturas elementares e as intencionalidades por trás dos discursos. Ou seja, os discursos são capazes de alinhar os fatos de forma lógica e coerente, revelando uma verdade particular, mas também podem ser usados para selecionar e alinhar fatos de forma a produzir uma verdade alternativa que apenas se parece com a realidade, embora seja consistente de alguma forma com as intencionalidades que lhe foram impressas e sustentada pela verificação dos fatos de forma individualizada e parcial.
          Uma verdade alternativa não é uma mentira, como não é uma mentira um mundo virtual, ou o que é dito em uma rede social, ou a alucinação de um psicótico, porque produz um efeito significativo e concreto naqueles que acreditam nas revelações que traz gerando, por consequência, outras verdades irrefutáveis e não alternativas. Quando a tecnologia permitiu que diversas realidades, concretas ou construídas, inundasse o paradigmático mundo da virtualidade recriando e manipulando narrativas através de um realinhamento de fatos comprováveis que justificariam, de certa forma, as conclusões apresentadas pelas verdades alternativas e flexíveis, criou-se uma crise conceitual do que seria, afinal, uma verdade. Na atualidade vemos os efeitos significativos dessas verdades alternativas construídas com base em fatos fornecidos de forma espontânea ou não, haja vista a ação direcionada de hackers que invadem as privacidades em busca de fatos ocultos para compor as narrativas que lhes servem, temos cada vez menos confiança na verdade como uma coisa libertadora, como até então era vista, grosso modo.
          A verdade líquida dos tempos tecnológicos, nos obriga a repensar as bases sólidas em que se apoiava a concepção de verdade e nos cobra muito mais atenção e flexibilidade na forma de lidar com os conceitos fundamentais da realidade. A realidade, bem como a verdade, tornou-se relativa e é preciso aprender a lidar com essa relatividade de forma eficiente, usando os conceitos padrões e estabelecidos como ponto de partida, não como um fim em si mesmo. A busca pela verdade começa quando buscamos o ponto de partida para iniciar a jornada, demolindo padrões e limitações anteriormente dados como verdadeiros. Embora seja um terreno pantanoso devido à nossa inexperiência em lidar com ele, pode se tornar um terreno fértil para a construção de uma sociedade melhor, mais líquida em seus conceitos. Podemos repensar a sexualidade, os papeis sociais, as responsabilidades individuais, a ética, a moral, etc, incluindo a pluralidade como parte da verdade e não como uma aberração que foge ao que havíamos definido como normalidade.
          Mas é claro que para que o pântano se torne fértil, é preciso também levar em consideração os seus perigos e armadilhas, sua função transformadora que recolhe e transforma o lixo, digerindo-o e tornando-o uma reserva vital importante para a existência. Assim também a verdade líquida deve ser capaz de absorver todo o lixo produzido pelo radicalismo e separatismo e recicla-lo em conceitos mais eficientes e vivos, que preservem o que há de bom e decomponham o que há de ruim, obrigando a todos nós, que navegamos por sua diversidade estranha e sombria, a lidar com o inusitado para encontrar as belezas que produz, evitando as armadilhas pelo conhecimento dos seus mecanismos necessários. Não é negando a verdade líquida dos tempos de revolução tecnológica que poderemos aprender a lidar com ela, e sim mergulhando em seus mistérios e descobrindo os seus tesouros e possibilidades de forma tão real quanto descobrimos suas armadilhas e perigos. Só assim poderemos sobreviver como uma sociedade e construir um futuro cheio de narrativas, reais ou imaginárias, que nos atenda em nossos mais íntimos desejos e nos torne melhores.

          E então, posso lhe contar uma história?

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