terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A Verdade Líquida em tempos de Revolução Tecnológica – Danny Marks

  
          Posso lhe contar uma história? Será algo criado especialmente para você e lhe fará refletir de uma forma muito simples e direcionada sobre questões complexas que todos estão discutindo no momento. Como vou fazer isso? Na verdade, de uma forma bem simples, usando todas as informações que forneceu voluntariamente através das suas redes sociais, compiladas através de um algoritmo que me fornece um mapa do seu perfil psicológico e os pontos em que posso atuar influenciando as suas opiniões e comportamentos, mas relaxe, você não vai nem perceber. Mais provavelmente vai acreditar que todas as suas constatações são apenas suas e que está muito bem fundamentado na sua opinião a respeito de um assunto que, anteriormente, não estaria tão atento assim, mas para o qual foi despertado pelo insight que teve de sua importância, tornando-se um militante da temática apresentada.
          Parece coisa de ficção científica, não é mesmo? Aquelas coisas inventadas por escritores com imaginação fértil que servem para nos assustar de uma forma agradável e nos fazer sair da nossa realidade e dar uma relaxada em um mundo alternativo que, por pior que possa ser, não vai nos afetar de verdade. Afinal a verdade é algo concreto e sólido, consistente e facilmente verificável, que sempre dará um jeito de emergir das sombras da mentira e iluminar a todos com seu poder de diluir os conflitos e nos conduzir no rumo do Bem Maior, com a ajuda de Deus e o apoio dos Homens e da Ciência. Tem sido assim desde os primórdios da nossa civilização, quando os pensadores e filósofos se debruçaram sobre as questões universais, entre elas a busca da verdade e de como alcança-la. E essa busca tem se mantido até hoje, com resultados diversos.
          A Filosofia, mãe de todas as ciências, chegou a ter cinco formas de descrever a verdade. A verdade como correspondência, originária em Platão, diz que a verdade é o que garante a realidade, ou seja, o objeto falado (discurso) é apresentado como ele é. Já o empirismo, a metafísica e a teologia apresentam a verdade como uma concepção de revelação, ou seja, algo que se revelou ao homem por meio das sensações ou pela intervenção de um Ser Supremo que evidência a essência das coisas. Platão e Santo Agostinho retornam com uma outra perspectiva em que a verdade deve se apresentar no sentido da conformidade e adequar-se a uma regra ou conceito, para ser verdadeira. Já no movimento idealista inglês, por volta da metade do século XIX, o filósofo Bradley alega que “o princípio de que o que é contraditório, não pode ser real”, portanto “a verdade é a coerência perfeita”, e assim apresenta-se a verdade como Coerência. Mas há aqueles mais pragmáticos, como Nietzche, que acreditam que a verdade deve ser funcional, ter uma utilidade. Para ele “Verdadeiro não significa em geral senão o que é apto à conservação da humanidade. O que me deixa sem vida quando acredito nele não é a verdade para mim, é uma relação arbitrária e ilegítima do meu ser com as coisas externas”. Portanto, tudo o que não colabora para a conservação do bem para toda a humanidade, poderíamos dizer que é verdade?
          Mas as coisas complicam de verdade, com o perdão do trocadilho, quando a tecnologia recria a realidade em uma forma diferente, seja pela ampliação dos sentidos, seja pela virtualização do que é real, criando uma realidade alternativa sensível à nossa interferência e interação, ampliando e torcendo todos os conceitos de realidade e de verdade que se poderia imaginar ou intuir. Como então buscar uma base razoavelmente sólida e confiável, verificável em seus efeitos sob todos os aspectos práticos, passível de ser reproduzida e que mantenha uma coerência com as revelações que forem produzidas a partir dela ou nela em si mesma? Surge então a perspectiva de que os fatos não mentem, e levantados os fatos e alinhados de forma correta e coerente teremos, por fim, a revelação da verdade de forma incontestável. Só que não é bem assim. Platão também foi o precursor da análise discursiva que investiga os fatos através de técnicas de desconstrução dialética que revelam as suas estruturas elementares e as intencionalidades por trás dos discursos. Ou seja, os discursos são capazes de alinhar os fatos de forma lógica e coerente, revelando uma verdade particular, mas também podem ser usados para selecionar e alinhar fatos de forma a produzir uma verdade alternativa que apenas se parece com a realidade, embora seja consistente de alguma forma com as intencionalidades que lhe foram impressas e sustentada pela verificação dos fatos de forma individualizada e parcial.
          Uma verdade alternativa não é uma mentira, como não é uma mentira um mundo virtual, ou o que é dito em uma rede social, ou a alucinação de um psicótico, porque produz um efeito significativo e concreto naqueles que acreditam nas revelações que traz gerando, por consequência, outras verdades irrefutáveis e não alternativas. Quando a tecnologia permitiu que diversas realidades, concretas ou construídas, inundasse o paradigmático mundo da virtualidade recriando e manipulando narrativas através de um realinhamento de fatos comprováveis que justificariam, de certa forma, as conclusões apresentadas pelas verdades alternativas e flexíveis, criou-se uma crise conceitual do que seria, afinal, uma verdade. Na atualidade vemos os efeitos significativos dessas verdades alternativas construídas com base em fatos fornecidos de forma espontânea ou não, haja vista a ação direcionada de hackers que invadem as privacidades em busca de fatos ocultos para compor as narrativas que lhes servem, temos cada vez menos confiança na verdade como uma coisa libertadora, como até então era vista, grosso modo.
          A verdade líquida dos tempos tecnológicos, nos obriga a repensar as bases sólidas em que se apoiava a concepção de verdade e nos cobra muito mais atenção e flexibilidade na forma de lidar com os conceitos fundamentais da realidade. A realidade, bem como a verdade, tornou-se relativa e é preciso aprender a lidar com essa relatividade de forma eficiente, usando os conceitos padrões e estabelecidos como ponto de partida, não como um fim em si mesmo. A busca pela verdade começa quando buscamos o ponto de partida para iniciar a jornada, demolindo padrões e limitações anteriormente dados como verdadeiros. Embora seja um terreno pantanoso devido à nossa inexperiência em lidar com ele, pode se tornar um terreno fértil para a construção de uma sociedade melhor, mais líquida em seus conceitos. Podemos repensar a sexualidade, os papeis sociais, as responsabilidades individuais, a ética, a moral, etc, incluindo a pluralidade como parte da verdade e não como uma aberração que foge ao que havíamos definido como normalidade.
          Mas é claro que para que o pântano se torne fértil, é preciso também levar em consideração os seus perigos e armadilhas, sua função transformadora que recolhe e transforma o lixo, digerindo-o e tornando-o uma reserva vital importante para a existência. Assim também a verdade líquida deve ser capaz de absorver todo o lixo produzido pelo radicalismo e separatismo e recicla-lo em conceitos mais eficientes e vivos, que preservem o que há de bom e decomponham o que há de ruim, obrigando a todos nós, que navegamos por sua diversidade estranha e sombria, a lidar com o inusitado para encontrar as belezas que produz, evitando as armadilhas pelo conhecimento dos seus mecanismos necessários. Não é negando a verdade líquida dos tempos de revolução tecnológica que poderemos aprender a lidar com ela, e sim mergulhando em seus mistérios e descobrindo os seus tesouros e possibilidades de forma tão real quanto descobrimos suas armadilhas e perigos. Só assim poderemos sobreviver como uma sociedade e construir um futuro cheio de narrativas, reais ou imaginárias, que nos atenda em nossos mais íntimos desejos e nos torne melhores.

          E então, posso lhe contar uma história?
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