quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Permanência - Danny Marks


O Ser peludo colocou delicadamente a pequena flauta feita de osso, que sempre o acompanhara, no oco da arvore que esculpira cuidadosamente para armazenar os seus tesouros. Sentiu a terra tremer mais violentamente e apressou-se. Colocou o couro onde havia desenhado por longo tempo e cortou com a faca de pedra um tufo comprido do próprio cabelo para colocar junto aos outros objetos antes de cobrir a entrada com uma grossa camada protetora de lama e folhas.
Sentiu a garganta arder e caiu cobrindo com o próprio corpo o artefato que criara. Quando o rio de rocha derretida e cinzas cobriu a paisagem já não estava mais em seu corpo.

(....)

A mulher ajeitou o dispositivo leitor na caixa metálica ao lado do sintetizador-modulador. As placas com as amostras de tecido cristalizado já estavam nos devidos receptáculos. Fechou o lacre à vácuo e já ia acionar o dispositivo que colocaria a caixa no centro protetor da coluna de concreto com enrijecimento nuclear, mas mudou de idéia. Rapidamente abriu a caixa e adicionou a pequena flauta de osso que mudara completamente a sua concepção sobre tantas coisas. O Alarme soou mais forte, ela apressou-se a concluir sua tarefa imbuída de uma certeza que poucos da sua espécie ainda conservavam.
Seu olhar recaiu com reverência sobre a estranha pedra oca cortada à laser, em que havia consumido boa parte da sua vida e que lhe trouxera tantas respostas e muito mais perguntas. O couro que havia dentro já se misturara em um amalgama com os pelos, apenas a flauta petrificada estranhamente havia sobrevivido. Ainda assim trouxera uma nova visão sobre muitas coisas, como um sinal de que...
Suas reflexões foram interrompidas pelos cogumelos atômicos que alcançaram as nuvens dissolvendo o ar com línguas de chamas vorazes.

(....)

O Ser estendeu os três dedos com ventosas e desativou o dispositivo eletromagnético que o protegia e observou que todos já estavam recolhidos no êxtase que tornaria os momentos finais uma transição pacífica. Voltou ao seu laboratório e abriu a cápsula em que havia trabalhado desde que suas observações haviam apontado o futuro. Decepou o dedo longo da sua mão esquerda com cuidado, e observou que seu corpo já iniciara a reconstrução da parte faltante, se tivesse tempo logo estaria novamente perfeito para os padrões implantados nas nanomáquinas que cuidavam da sua saúde. Sorriu ao pensar que haveria tempo suficiente, ou não haveria mais nada.
Cuidadosamente trabalhou no dedo amputado usando o cubo transfigurador e o sonorizador molecular reproduzindo o objeto que vira em uma visão ainda na infância e que não conseguira explicar, e que somente agora compreendia de alguma forma o seu objetivo. O objeto esculpido com precisão pelas maquinas era algo estranho aos seus olhos. Colocou-o na boca sem lábios e soprou com força produzindo um som agudo. Tentou novamente desta vez com menos força e deixando um dos furos superiores descobertos. O som foi incrivelmente perfeito, tocou-o como nada antes havia feito. Manipulou seguindo uma escala matemática o som e a sequência de furos abertos ou tampados pelos dedos e se emocionou com o resultado. Era isso que ouvira na sua infância e não lembrava. Não apenas o objeto, também o som lhe viera na visão, mas de alguma forma não lembrava.
Apressou-se em colocar o objeto ao lado do cubo transfigurador e do sonorizador molecular orgânico nos compartimentos necessários completando o equipamento. O novo dedo já dava sinais de regeneração, como um sinal de que as coisas deveriam ser feitas daquela forma, contrariando aqueles que já se recolhiam em êxtase. Acomodou os objetos na capsula e acionou a catapulta quântica.
Quando o halo Solar devorou o planeta, uma chuva de íons colidiu com a aura protetora da cápsula que tremeu ligeiramente abrindo uma microfissura na sua carcaça e desviando o seu ângulo de entrada no buraco de minhoca que fora criado pelo poderoso mecanismo da catapulta quântica que se desfez junto com tudo a volta assim que a capsula penetrou nele.

(....)

O objeto apareceu quase fora da influência gravitacional do terceiro planeta. Um pouco além e teria seguido viagem em direção ao sol onde seria consumido completamente. Mas o pequeno impulso que ainda conservava fez com que fosse capturado pelos campos gravitacionais e em pouco tempo estava sendo projetado como uma bola de fogo na superfície do planeta.
A fissura que tinha na carcaça se ampliou e pouco antes de colidir com o solo as peças que a capsula continha foram lançadas para fora espalhando-se ao longo do breve percurso antes que o poderoso impacto reduzisse o involucro a uma massa disforme de material alienígena.
O dispositivo foi acionado ao perceber os elementos químicos necessários no ar e fez uma varredura nas suas funções promovendo os reparos necessários para que concluísse a tarefa que lhe fora destinada. Procurou no entorno, dentro do limite de seu raio de ação, o objeto que lhe permitiria a matriz necessária para a reconstrução. Não encontrou a referência que necessitava, embora houvesse material genético suficiente para uma adaptação. Registrou automaticamente a posição das estrelas e calculou o seu percurso espaço-tempo percebendo que houvera um significativo desvio angular que o levara além do período objetivado. Recalculou as possibilidades de sucesso e recriou o planejamento necessário para a execução. Começou a trabalhar com as criaturas que se aproximavam implantando uma codificação genética que poderia atingir o necessário estágio evolutivo para que pudesse dar continuidade a sua programação.
Quando conseguira os progressos necessários para a primeira fase, colocou-se em estado de hibernação e protegeu-se com um campo protetor. A paisagem mudou e a cada ano que se passava afundava ainda mais no solo, distanciando-se da luz que lhe reabastecia as baterias.

(....)

O ser peludo se aproximou furtivamente do animal que pastava, estava quase pronto para abatê-lo quando seu pé foi espetado por um objeto pontudo fazendo-o urrar de dor. O animal que pastava fugiu e o ser peludo ficou furioso. Pôs-se a cavar para desenterrar a coisa que o fizera perder a comida e sentiu um estranhamento ao perceber que se tratava dos ossos de um dedo de alguma criatura. Limpou a coisa batendo a terra e soprando para tirar os restos que ficavam aderidos. Então ouviu um som como nunca ouvira antes. Soprou de novo e um novo som aconteceu. Notou que havia buracos que quando tampados mudavam o som que era produzido quando soprava no miolo oco. Esqueceu da fome e da dor, brincando com aquela coisa. Em pouco tempo já testara várias possibilidades de som, combinando assopros com furos tampados e abertos. Voltou para o acampamento com a certeza de que se tornara alguém importante, fora tocado por algo que mais ninguém conhecia ainda. No seu DNA uma sequência determinada de genes foi acionada pelo sutil vibrar do som daquele objeto, disparando uma corrida contra o tempo.


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