terça-feira, 26 de julho de 2011

Vizinhança - Danny Marks

  Todos sabem que a primeira coisa que se deve olhar em um imóvel é a vizinhança. Qualquer coisa serve, quando se tem os vizinhos certos, mas ninguém diz como se pode descobrir quem são os vizinhos sem ter que perguntar para os mesmos. E como falar mal de si mesmo é coisa que ninguém em sã consciência faz, então a questão fica mais para a sorte. Ou para o azar.
            Obviamente que se pode usar os serviços de um profissional da investigação. E foi isso que o José Carlos Tenório, vulgarmente chamado de Zé Mecânico, resolveu fazer quando soube da excelente proposta do Nelson Ned da Silva, vulgarmente conhecido como Nenê Grande, a respeito do apartamento que estava a vender.
            Detetive bom é aquele que sabe onde encontrar os seus clientes, mesmo que estes nunca o tenham chamado, por isso mesmo o Zé não se espantou quando o sujeito bem vestido, dirigindo uma BMW, apareceu na sua porta, se dizendo como um profissional do ramo investigativo.
            Coisa do destino, diriam alguns, mas não o Zé. Este logo viu a oportunidade de juntar o útil ao agradável ao saber que o dono do carro era um famoso detetive, dito pelo mesmo com cartão de visita e tudo para comprovar.
            O que levou o distinto empresário dos segredos alheios até a oficina do Zé foi apenas a necessidade de verificar qualquer problema no veículo, ainda em fase de test driver e com a garantia de Paraguay de LaTerra (La garantia soi jô), nascido Pedro Alvares Cabra, um nordestino que acreditava que Buenos Aires era um bairro baiano e que espanhol era tudo igual; mas que absorvera o melhor sotaque e as experiências dos clientes da Casa Bode Cheiroso no período que trabalhou como segurança pessoal de dona Lucrécia, esta sim uma legítima hispânica de além-fronteira.
            E no embalo dos beiços largos do negão de 2,15 m de altura e uma protuberância abdominal de fazer inveja a hipopótamo de animação, o nosso amigo Detetive descobriu duas coisas importantes que mudariam o seu destino.
            A primeira e mais marcante foi a habilidade prestidigitatória do mecânico que bastou olhar para o veículo para descobriu que precisava trocar a bomba de gasolina. A segunda, não menos importante, de que o profissional núbio necessitava dos serviços de um investigador.
            É que o Zuca, como preferia ser chamado pelos amigos, íntimos que já estavam se tornando ele e o Detetive, estava querendo comprar um imóvel para poder se casar. Contava já dois meses que se correspondia com uma distinta e rica senhora e já faziam planos para um enlace matrimonial onde poderiam juntar os seus pertences e carinhos de forma definitiva, mas estava com receio de que a mesma não se habituasse a morar no porão do motel Ping Pong, alugado de João Cafetão, empresário do órgão genital alheio e corretor de imóveis.
O Zuca confessou ao seu mais novo amigo que estava cansado de ter a mulherada dando em cima dele todo o tempo, queria encontrar alguém para se firmar de vez e passar o resto de seus dias.
           Não que a coisa andasse devagar nos negócios, confessou ao Detetive, mas talvez este aceitasse o trabalho em troca de uma máquina de escrever usada com pequeno defeito, com a qual dedilhava as suas cartas românticas. A mesma não faria falta, pois dentro em breve acertaria os detalhes das núpcias com o Pastor Alemão, recém chegado de sua terra natal e que encontrava-se enrabichado com Fogosa, irmã do mecânico.
          O Detetive não hesitou, na verdade estava realmente precisando de algum trabalho, pois o seu ultimo havia resultado um pouco inesperado.
Um caso simples de um cão raptado pela sogra ingrata de um cliente, em represália a um anuncio colocado no jornal, onde o nobre cliente se oferecia para trocar uma jararaca inconveniente por qualquer outro exemplar ofídico, que lhe possibilitaria obter alguns trocados em venenos mais utilizáveis.
Encontrar o cão não foi problema, um alegre Pitbull que havia gostado muito da raptora, tanto que já lhe devorara uma das mãos e uma perna. O problema é que por conta do incidente o cão acabou sendo vendido para pagar as próteses necessárias. O problema foi que o cliente ficou aborrecido pela rapidez do serviço, alegando que o investigador poderia ter aguardado ao menos uma semana para que o canino degustador tivesse completado a refeição. Por conta disso recusou-se a lhe pagar os créditos devidos e ameaçou denunciar o detetive à sociedade protetora dos animaus de quem o pitbull devia ser sócio emérito.
Por conta disso o detetive foi logo acertando os detalhes do trabalho, e em vista do veiculo ser reprovado no test drive, solicitou emprestado o chevette, artisticamente decorado com durepox, que esperava retorno do além do dono, na oficina, para visitar a vizinhança do imóvel pretendido e verificar a viabilidade do negócio oferecido por João Cafetão ao seu novo amigo.
Qualquer pessoa poderia dizer que o próprio Zé, ou Zuca, ou Bomba de Gasolina, ou sabe-se lá quantos nomes mais o distinto cidadão utilizava-se em seus empreendimentos, poderia fazer o serviço sem desfazer-se de seu precioso bem, mas as mesmas pessoas não teriam dúvidas dos motivos de se enviar um representante, acaso desconfiassem da localização efetiva se encontrava o pretenso ninho de amor.
O fato é que tão logo o Detetive adentrou as cercanias residenciais dos futuros pombinhos, foi literalmente recepcionado por uma salva, e a coisa só não ficou pior porque a imensa ladeira ajudou na fuga. Os buracos da rua, não das balas, acabaram fazendo com que a máquina de escrever fosse projetada do porta malas onde se encontrava alojada, o que serviu de distração e possibilitou um retorno seguro. O motorista sequer percebeu que o veiculo possante não tinha, entre outras coisas, freio que o fizesse reduzir a velocidade, como se houvesse interesses de o fazer, dadas as circunstâncias.
Verificada a periculosidade do local e agradecido aos céus pela imensa sorte de ainda poder escolher outra profissão menos problemática, o Detetive até recusou novo pagamento, e ainda deixou para o nubente núbio uma caixa de preservativos de ótima qualidade que havia, e isto fica entre nós, encontrado no veiculo anterior a título de pagamento pelo carro emprestado que ficara em algum lugar no caminho.
Contam as lendas urbanas que a irmã do Zuca acabou por abdicar de trocar o Pastor Alemão por outro que fizesse melhor uso de sua língua, mas se predispôs a trocar os preservativos que ganhou do irmão por roupas de bebê.
O mecânico, no entanto, não teve os seus intentos nupciais realizados pois soube por foto autografada encontrada no veículo a ser devolvido depois do test driver insatisfatório, que a sua pretendente era na verdade a velha conhecida de Paraguay, conhecida pelo nome de Lucrécia, famosa empresária daquelas bandas. Não desistiu de casar, no entanto, e tratou de investir em uma nova paixão colocando anúncio em um site de encontros, desta vez com a exigência de foto. E como paixão de mecânico é carro, foi justamente deste que solicitou a estampa à próxima pretendente.
Já o amigo detetive, tendo solicitado ao Zuca a devolução da BMW e decidido mudar de profissão, acabou se especializando em digitar documentos com rapidez e baixo custo, embora nunca tenha feito qualquer curso de digitação, o que lhe garantiu um lugar para morar. Um condomínio fechado, com regras tão rígidas que até para ser visitado havia dia certo, mas com uma ótima segurança, tendo até um tal de Juiz Noel, Nicolau, ou Lalau, como preferir, como vizinho.
É por isso que sempre digo: Vizinhança é tudo!
 
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