segunda-feira, 25 de abril de 2011

Profissional - Danny Marks


Vejo a morte todos os dias.
 No rosto da menina estuprada, abandonada em um matagal, seu corpo tão dilacerado quanto as roupas que deveriam protegê-la desse frio implacável.
                Às vezes eu a vejo no sorriso perfeito da modelo que nunca existiu. Maquiada. Maquinada. Tão diferente da que apareceu esparramada do décimo quinto andar. Subiu na vida para encontrar no amor o fim.
                Vejo, nas flores fabricadas geneticamente,  tatuagem de bicho em gente, nome gravado em epitáfio de rosto sóbrio. Nunca um sorriso, uma lembrança boa que se deixe? Na dor somos todos iguais, mortuários, mostruários, monstros diários.
                Ainda ontem eu a vi assumir seu novo posto de comando. Assinar papéis de execução, lenta, faminta, indigna.  Está vendo logo ali? Os dentes perfilados como corpos encontrados nos destroços daquele outro dia. Um silêncio profundo de um minuto que não cala na lágrima.
                Eu vejo a morte desfilando na avenida, paramentada. Eu a vejo na estrada. No ponto de ônibus. Trafego. Tráfico. No acerto de contas erradas.
                Vejo o resultado no cortejo que fazemos funebre. Do momento em que os pulmões abrem em um grito desesperado por estar vivo, até aquele outro, resignado. O sim exalado, a paz mal compreendida, o termino inusitado. Alguém, ultima vez, visitado.
                Não importa quantas vezes eu a veja, ainda que ela olhe para mim do outro lado. Sou inconsolado. Nesse mundo ginecológicamente assado. Frango de padaria. Trespassado pela verdade sombria.
            Quem fica dói.
Continuo olhando a morte todos os dias. Na revista, no jornal que você segura, por um preço.
Você me paga!
Eu...vendo.
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