quarta-feira, 20 de abril de 2011

Análise de "Mas eu, em cuja alma se refletem" - Alvaro de Campos (por Danny Marks)

Mas eu, em cuja alma se refletem
Alvaro de Campos
Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem -
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o propalado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto,
Eu sofro ser eu através disso tudo como ter sede sem ser de água.


Poemas de Álvaro de Campos
Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)
Engenheiro naval "franzino e civilizado", o mais fecundo e versátil heterónimo de Fernando Pessoa, é também o mais nervoso e emotivo, que por vezes vai até à histeria. Com algumas composições iniciais que algo devem ao Decadentismo, Álvaro de Campos é, sobretudo, o futurista da exaltação da energia , da velocidade e da força da civilização mecânica do futuro, patentes na "Ode Triunfal". É o sensacionalista que pretende "sentir tudo de todas as maneiras", ultrapassar a fragmentaridade numa "histeria de sensações". (in Edições Sebenta)

Acessado em 19/04/2011
Análise – Danny Marks

            Álvaro de Campos é, provavelmente, o heteronômio de Fernando Pessoa que mais tenta rebelar-se contra a decadência, seja da alma humana, seja das realizações desta. Embora tenha trilhado por uma fase decandentista nos seus primeiros textos, revela um desejo de ter esperança na fase Futurista/Sensacionista. Desejo este que acaba por ser vencido por seu traço mais interno, a depressão. O seu desacordo entre o mundo interior e o exterior vence a batalha pela busca de um sentido maior para a existência e a auto repressão o leva a buscar uma fuga na infância e na dispersão, entrando na fase do Pessimismo com todas as forças negativizadas, até então mantidas afastadas, rompendo os limites do Si Mesmo e afogando-o na auto declarada incapacidade de realizações tornando-o um marginal incompreendido da/na vida.

Poeta mecanicista, o que sugere a sua “formação” como engenheiro, busca conciliar os antagonismos da razão e das sensações/sentimentos em um amalgama que o libertaria de suas próprias contradições internas através da intelectualização dos sentido (Sensacionista).
Essas forças, tremendas, universais e opositoras em si mesmas aparecem logo no início do poema quando ele diz:

“Mas eu, em cuja alma se refletem / As forças todas do universo”
A busca pela universalidade do que sente se dá em dois momentos, quando fala em “alma” que tanto pode se referir ao substrato metafísico no qual residiria a essência humana, quanto pode se referir ao sentido mais profundo na compreensão de algo, o âmago do que se busca compreender e cujo signo revela o todo pela parte. Na segunda parte, mais explícita fala em “Forças todas do Universo”, demonstrando que há uma multiplicidade de tensões que em um panorama macro (Universo) conseguem se equilibrar de forma dinâmica e produtiva, que seria a busca do poeta em relação aos próprios conflitos que o assolam de forma incontrolável e irrefutável.
Essa vertente do conflito interno fica explicita quando o poeta diz:

“Em cuja reflexão emotiva e sacudida”
Lembrando que, tudo o que reflete verte sobre si mesmo, ou seja dobra-se em busca de um confronto consigo em busca de uma interação que o amplie na auto fecundidade; O que o trecho sugere é justamente a necessidade de equilibrar a reflexão, no sentido de uma busca pela compreensão do que foi internalizado pelo uso da capacidade racional, com a emoção, por si mesma irracional e sensacionista, ou seja, que tem uma lógica implícita no seu exercício que ultrapassa os limites do que pode ser apreendido racionalmente; Este confronto, ou reflexão, não é dado de forma fácil, daí o uso de “sacudida”, demonstrando ao mesmo tempo que, embora haja uma racionalidade implícita (reflexão emotiva) nas emoções, a sua reflexão sobre a racionalidade pura, abala as estruturas internas com um tremor incontrolável devido à sua força.
Outra tentativa de emparelhar o mecanicismo do engenheiro com o emocional do poeta se dá no trecho em que cita:

“Minuto a minuto, emoção a emoção”
O advento da máquina, gerou a cultura mecanicista e obrigou a humanidade a trocar o ritmo nostálgico e flexível do tempo agrícola por um outro ritmo mais preciso, caracterizado pelo relógio, como é declarado no trecho “minuto a minuto” um sucedendo o outro em uma escala inexorável e necessária, rítmica e previsível. Racional.
Porém, contrapõe-se a este “tempo objetivo” um outro ritmo mais subjetivo e também seqüencial, o ritmo da “emoção a emoção” que embora imprevisível em sua essência é tão necessário e fatídico quanto o outro, haja vista que não pode o ser deixar de sentir, e mesmo as emoções se alternam e se sucedem constantemente. O ritmo da vida então fica estabelecido pelo binômio “minuto/emoção” onde o material e o sensível estão presentes de forma mais ou menos harmônica e inexorável, ambos sem possibilidade de controle ou direcionamento humano, como fica demonstrado pelo trecho que segue:

“Coisas antagônicas e absurdas se sucedem”

O absurdo é dado justamente pela contrariedade das coisas que são antagônicas, porém o poeta vai além ao construir a frase dando um duplo sentido subliminar que pode ser encarado como simultaneidade: As coisas antagônicas se sucedem absurdamente, uma após a outra mas sempre aos pares. Ou na razão de alternância: As coisas antagônicas se sucedem alternando-se de forma absurda.

Constata, então, o poeta que é, por si mesmo e sua existência real, um paradoxo que representa o universo antagônico previsto no primeiro momento, como se demonstra no trecho:
“Eu o foco inútil de todas as realidades”
O absurdo paradoxal da realidade antagônica o faz pensar sobre a inutilidade do foco dado, racional, que justificaria apenas em parte o que não pode ser compreendido pela parte, mas se justifica no todo e no além, em todas as possibilidades de realidade que não são únicas de um ser, mas que abrangem a todos em maior ou menor grau.
Passa então o poeta a tentar definir-se em contraposição a Universalidade do ser, em busca do Si Mesmo, longe da dicotomia complexa da amplitude de possibilidades reais

“Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o propalado no écran”

Nestes trechos é importante destacar a própria dicotomia da auto descrição: Fantasma, aquele que sobrevive além da vida, morto; se contrapõe a nascido e a sensações. Na cultura popular o fantasma não é nascido, embora seja libertado pela morte do corpo físico em que residem as sensações, portanto a dicotomia persiste entre o que é o Ser e no Não-Ser. Sentimento e sentido presentes também na busca pela generalização do Si Mesmo ao se colocar como abstrato, disperso, propalado no écran. Cabe aqui um aparte ao definir écran como uma tela (mecânica) e também como a “tela” onde o universo se expressa (realidade macro).

"Eu a mulher legítima e triste do Conjunto"

Neste trecho aparece a voz feminina de Alvaro de Campos, uma voz que o mesmo sempre busca reprimir por medo, conforme referências biográficas. Surge, porém, como perda de algo que lhe era de direito (mulher legítima e triste). A legitimidade da mulher pode ser interpretada como a sociedade matriarcal anterior a sociedade patriarcal; pode ser lida como uma referência a questão do discurso religioso Cristão onde a mulher ocupava lugar legítimo no paraíso mas o perdeu devido a busca pelas sensações; também pode remeter a questão platônica do ser perfeito que era um duplo homem/mulher e que foi separado por inveja dos Deuses. Enfim, várias possibilidades que se integram com a palavra “Conjunto” dizendo que houve uma ruptura de algo anterior que era completo e perfeito em si e foi tristemente perdido.

Eu sofro ser eu através disso tudo como ter sede sem ser de água.

A constatação final da incapacidade de conciliação entre os antagonismos das razões emocionais e racionais expressa-se na necessidade do poeta de ter que seguir “através disso tudo” buscando algo inalcançável, uma “Sede sem ser de água” que por não poder ser nominada, identificada, apreendida por completo, segue insaciável.
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