sexta-feira, 1 de abril de 2011

Imagens Acústicas - Análise de Musica por Danny Marks



Na infância sempre que minha mãe se referia da minha pessoa para outros dizia: Esse menino só faz arte.
Obviamente não me convencia disso, afinal mãe é mãe, e quando perguntava para os amigos o que eles achavam, eles apenas riam muito.
Comecei a desconfiar que estava destinado a ser um comediante, ainda mais quando as meninas começaram a me chamar de palhaço, em tom sério.
            Então era verdade! Eu era um artista. 
            Porém quis o destino que eu fosse ver uma apresentação circence do Orlando, o Feio. Orlando era o nome dele e feio uma característica, além de ser um palhaço.
            Não achei muito atrativo levar tortas na cara ou ter as calças explodidas, e a impressão negativa foi maior quando vi outros palhaços na televisão.O Bozzo me assusta até hoje.
            Achei melhor mudar de carreira e me dedicar a outra forma de arte e, depois de 40 anos de insistência, acabei me tornando escritor com um relativo sucesso. Vendi alguns exemplares do meu livro aos amigos e sou famoso na minha rua. Minha mãe é minha maior fã e insiste: Esse menino só faz arte.
            Mas o objetivo aqui não é falar na minha bem sucedida carreira, e sim demonstrar que o que ouvimos pode influenciar a percepção que temos das coisas, nossa visão de mundo. Para isso apresento uma música quase tão conhecida quanto eu: Menina Veneno do Richie
O cantor Ritchie nasceu na Inglaterra, filho de militar, morou em vários lugares do mundo. Em 1972, conheceu em Londres um grupo de músicos brasileiros, entre eles o baixista e produtor musical Liminha, que o convenceram a vir para o país. Naquela década, formou com Lobão, Lulu Santos, Luiz Simas e Fernando Gama a banda Vímana, que chegou a gravar um compacto para depois se desfazer e lançar seus integrantes em vitoriosas carreiras-solo.
"Menina Veneno" chegou às rádios brasileiras em 14 de fevereiro de 1983. A faixa, produzida por Liminha, que também toca o baixo e a guitarra, se transformou num extraordinário sucesso, apresentando ao pop-rock nacional uma nova estética e deflagrando a improvável popularidade deste talentoso gringo.
            A música, considerada um ícone romântico, foi regravada por várias bandas e cantores, entre eles o grupo Roupa Nova e mais recentemente o grupo Restart.
            Trabalhada em um ritmo sensual e tem uma letra simples de fácil assimilação:

Menina Veneno – Richie
Meia-noite no meu quarto, ela vai subir
ouço passos na escada, vejo a porta abrir
um abajur cor de carne, um lençol azul
cortinas de seda, o seu corpo nu

menina veneno o mundo é pequeno demais para nós dois
em toda cama que eu durmo
só dá você (3x)

seus olhos verdes no espelho,
brilham para mim
seu corpo inteiro é um prazer
do princípio ao fim

sozinho no meu quarto
eu acordo sem você
fico falando pras paredes
até anoitecer

menina veneno,
você tem um jeito sereno de ser
em toda noite no meu quarto
vem me entorpecer
me entorpecer (2x)

Menina veneno,
o mundo é pequeno demais
pra nós dois.
Em toda cama que eu durmo
só dá você (3x)

Meia-noite no meu quarto
ela vai surgir
eu ouço passos na escada
eu vejo a porta abrir

você vem não sei de onde
eu sei, vem me amar
eu nem sei qual seu nome
mas nem preciso chamar

menina veneno
você tem um jeito sereno de ser,
em toda noite no meu quarto
vem me entorpecer
me entorpecer (2x)


http://www.vagalume.com.br/ritchie/menina-veneno.html#ixzz1HRl1Ue3K

            A questão é: Será que Menina Veneno é realmente uma música sensual/romântica?
            Trata-se de uma narrativa descritiva, utilizando-se dos recursos de apresentar de forma visual um encontro inusitado.
            Logo na primeira estrofe já temos a hora e o local. Meia-Noite no meu quarto, ela vai subir. Ouço passos na escada, vejo a porta abrir.
            Iniciar uma narrativa com “Meia-Noite” é um recurso clássico das histórias de horror/terror, que o diga José Mogica Marins, o “Zé do Caixão”,  que usa muito esse recurso em suas apresentações mundo afora. Essa imagem é reforçada por ouço passos na escadas, vejo a porta abrir. Note que não há alguém executando a ação até o momento, gerando um clima de mistério.
            Então segue uma descrição que assustaria qualquer decorador com bom gosto Um abajur cor de carne, um lençol azul, e para fechar o quadro cortinas de seda.
            Uma combinação no mínimo incomum de palavras e imagens que remetem ainda mais a uma cena de terror. Carne servindo como anteparo para quebrar a luz de um abajur, lençol azul que lembra o céu, e seda nas cortinas tentando dar uma suavidade etérea em toda a cena.
            Finalmente aparece o personagem da ação dos passos na escada e da porta que se abre, um corpo nú de olhos verdes brilhantes que se refletem no espelho e o aterrorizado espectador fica então conhecendo a forma adotada pela aparição: ...o seu corpo nú. Seus olhos verdes no espelho, brilham para mim seu corpo inteiro é um prazer do princípio ao sim.
            Pode-se questionar o misterioso personagem como sendo uma mulher que vaga à noite com insônia, mas o próprio texto nos revela algo a mais: Sozinho no meu quarto eu acordo sem você. Fico falando pras paredes até anoitecer.
Logo mais adiante revela que não conhece a visitante noturna: Você vem não sei de onde. E só no ultimo verso ele revela constrangido as intenções da estranha aparição: Meia-noite no meu quarto ela vai surgir eu ouço passos na escada eu vejo a porta abrir. Você vem não sei de onde, eu sei, vem me amar. Eu nem sei qual seu nome, mas nem preciso chamar.
            O infeliz atormentado já se encontra completamente possuído pela figura como revela: Menina veneno, você tem um jeito sereno de ser em toda noite no meu quarto vem me entorpecer, me entorpecer, me entorpecer.
            O uso das palavras “Menina” e “Veneno” para descrever a personagem é significativo para revelar que trata-se de uma entidade feminina e letal.  Mas o ponto mais crucial é quando ele fala abertamente que o mundo é pequeno demais pra nós dois. Embora a frase “Este mundo é pequeno demais para nós dois” seja mais apropriada para filmes de Giuliano Gema e pistoleiros afins, o que fica implícito na frase é uma ameaça explicita. Porém, a sedução da aparição já se consumou como o próprio texto confirma em dois momentos: Você vem não sei de onde, eu sei, vem me amar.Eu nem sei qual seu nome mas nem preciso chamar e Em toda cama que eu durmo só dá você, só dá você. Só dá você.
            A insistência com que esta ultima frase é dita revela uma obsessão pelo fato. Neste ponto faz-se necessária uma intertextualidade para descobrir de que tipo seria essa aparição sedutora. Trata-se de um Súcubo, do latim Succubu “o que se deita por debaixo de outro”, como nos diz o Aurélio, e ainda acrescenta: “Demônio feminino que, segundo crença popular, vem copular com um homem perturbando-lhe o sono e causando-lhe pesadelos.” Em alguns manuais de demonologia Súcubo é uma a entidade demoníaca feminina, cujo oposto masculino é o Incubo, e alimenta-se da energia vital da vítima através de ato sexual com características sádico/oníricas. Uma espécie de sereia de terra firme.
            Então fica explicado o motivo do título ser “Menina Veneno”, trata-se de uma canção que fala sobre uma possessão demoníaca em que a pobre vítima é assediada sexualmente até a loucura que o consome em uma dependência da relação que terminará com a sua morte, como a própria vitima descreve no texto: Seu corpo inteiro é um prazer do princípio ao fim.
            Teria o autor ficado louco ao apresentar esta letra como sendo uma música sensual/romântica ou os acordes que acompanham teriam induzido essa interpretação pelos inúmeros fãs que ainda hoje cantam sem ater-se exatamente ao conteúdo?
Aparentemente a idéia do autor é apresentar um texto metafórico sobre uma relação doentia entre parceiros sexuais/românticos, em que há um prejuízo não perceptível. Uma forma de alertar sobre os riscos dos “amores eventuais” em voga na época. Essa tese pode ser comprovada com o verso:
          Seu corpo inteiro é um prazer do princípio ao FIM.
           Este verso remete ao discurso religioso "do principio e FIM dos tempos" de cobrança das culpas. Uma união baseada apenas em um sentimento físico é condenável, algo “satânico”. Para manter uma relação duradoura, sacramentada pelo divino, seria necessário muito mais do que simples tesão momentâneo, teria que haver algo mais profundo: Amor. Portanto a relação apresentada é condenável, deixando como frutos apenas as cicatrizes de um encontro onírico que se torna um pesadelo.
            Obviamente essa é apenas uma leitura possível e não quero dizer que seja a mais correta.
O objetivo deste trabalho é deixar claro como as imagens acústicas podem servir de indutoras subliminares que tendencionam o olhar sobre o texto que acompanham, recurso utilizado por muitos autores, principalmente poetas, onde somente uma leitura aprofundada pode apresentar claramente os conteúdos escondidos.
Fique atento para não levar sustos.
Postar um comentário

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...