quarta-feira, 9 de março de 2011

Resenha Portal Fahrenheit - por Breno J. Portugal (recebida e encaminhada por email por Nelson Oliveira)






Recebi esta resenha escrita pelo Breno J. Portugal, aluno de Letras da USP sobre o Portal Fahrenheit e encaminhada pelo Nelson de Oliveira, organizador do projeto do qual participei com o conto Mesozóide (vide resenha no corpo do texto) e, como o projeto prevê, estou colaborando na divulgação da mesma.
 
Um excelente texto, vale a pena ler.

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Caro Nelson, saudações.

Não sei se você vai se lembrar de mim… Conversamos rapidamente durante o lançamento do Portal Fahrenheit, na biblioteca Viriato Corrêa, e você até me presenteou com um exemplar da revista. Fui ao evento levado por alguns amigos, e apesar de não ser fã de carteirinha de ficção científica, li com muito interesse os contos publicados por vocês. Atendendo ao seu pedido, envio-lhe minha resenha do Portal Fahrenheit. Atualmente estou cursando Letras na Usp, e planejo mostrar a revista e minha avaliação também aos meus colegas de faculdade. Acho importante abrir as janelas da sala de aula e deixar entrar o contemporâneo. Talvez eu apresente o texto também como trabalho final, em uma das disciplinas.

O projeto de uma revista com cara de livro (os europeus fazem muito isso), mas sem finalidade comercial, me causou certo espanto. Como assim? A revista não será vendida? Esse pessoal da ficção científica está sempre inventando moda, pensei. Mas no final gostei da proposta. É uma forma pouco comum de cortar a corrente que liga a literatura ao comércio. Como se vocês dissessem: a grande arte não pode ter preço.

Durante a leitura fui dividindo os contos em três categorias: os de linguagem simples e enredo complexo, os de linguagem complexa e enredo complexo e os de linguagem complexa e enredo simples. Como você sabe muito bem (você me disse que fez pós-graduação na FFLCH, certo?), nós, da academia, estamos sempre de olho na intensidade e na personalidade da linguagem literária. Mas isso não significa que uma categoria seja intrinsecamente melhor do que a outra. São apenas diferentes.

Linguagem simples e enredo complexo

O mundo dos seus sonhos, de Mustafá Ali Kanso. Achei interessante o autor trazer o amor para a cena, usando-o como base num conto de ficção científica. Kanso narra, com sentimento, o incômodo na rotina de um casal em que o homem ama mais e daí “a dor e a humilhação de não ser correspondido… A espera de migalhas”. Na busca desesperada por uma saída, o homem recorre a um livro que ensina como conseguir a lucidez onírica por meio de técnicas trazidas da Antiguidade clássica. Então ele consegue esse sonho perfeito e nele se realiza. Encantado, ele vai cada vez mais fundo com as técnicas, desenvolve um aparelho e a partir daí a história se desenrola. A trama é bem construída, começa muito bem e vai num crescendo que envolve tecnologia futurista e tudo o mais. No entanto, se o conto provoca reflexão sobre os perigos da acomodação e dos descuidos no casamento, o final deixa a desejar, porque Kanso adiciona açúcar demais na mistura do encerramento, não permitindo ao leitor que viaje no desenvolvimento dessa receita.

Em O bunker cretáceo, de Ataíde Tartari, um prestigiado professor de Geofísica é chamado até a Antártida para ajudar a solucionar o seguinte mistério: a descoberta de uma enorme edificação de concreto que data de 65 milhões de anos. Como assim, concreto naquele período? Aprofundadas as escavações, os cientistas descobrem que a edificação, mesmo tendo permanecido debaixo da terra todo esse longo período, é habitada por uma raça excepcionalmente mais evoluída que a humana. Com bom domínio do texto, esse escritor nos traz uma história bem construída, bem contada e com final aberto, sobre como o passado remoto e escondido pode voltar para assombrar o futuro. E o humor é o grande diferencial dessa narrativa, pois Tartari, de forma hábil e mão leve, aplica uma fina camada de ironia sobre os conflitos naturais entre duas raças: a dos geofísicos e a dos paleontólogos, ambas disputando espaço em suas áreas de pesquisa. Uma leitura prazerosa.

Em Tempestade solar, de Roberto de Souza Causo, encontrei uma viagem interplanetária, um asteróide laranja e uma adolescente transformada na mais perfeita arma humana. Pronto, com esse ponto de partida, Causo, tarimbado ficcionista e ensaísta, nos fala de um futuro em que um importante laboratório de pesquisas médicas patrocina pesquisas de engenharia genética ilegal para a criação de trans-humanos. Com todos os artifícios e a terminologia própria do gênero, o autor soa confortável ao narrar a aventura de Shiroma, a garota que perde a mãe aos 5 anos e, desde então, vem sendo manipulada para dar conta de ações quase suicidas. Mas esse conto tem uma virada e a garota manipula seu destino. E aí está o ponto-chave nessa ficção deliciosa de ler, que abre a imaginação do leitor. Enredo e personagens tão bons, que pedem continuidade, e certamente atrairão cineastas e o pessoal dos quadrinhos. Eles que não bobeiem.

A trama de Réquiem, de Petê Rissatti, se passa num futuro não explicitado, onde o ato de sonhar é terminantemente proibido por lei, “sob pena de multa e até de execução”. Para evitar que as pessoas sonhem, o Governo Mundial distribui um medicamento específico (o Réquiem: Repressor Químico para Ecmnésia Mensurada, daí o título) e elas o tomam por medo de infligir as regras. Mas o conformado Ivan certa noite esquece de tomar a tal pílula e o inevitável acontece. A partir daí ele passa a ser perseguido, rebela-se, ingressa num grupo revolucionário e assim transcorre toda essa aventura. Um texto bem criado e bem conduzido por esse jovem autor, que descreve com detalhes consistentes a sociedade futurista por ele imaginada, até com pitadas de bom humor. O final cumpre a promessa estética do conto, pois surpreende, abrindo espaço para mais história na cabeça do leitor.

Deus é brasileiro?, de Sid Castro. O título não faz jus à diversão que encontrei nessa narrativa. A partir da imagem de um Cristo removido do corcovado, o autor instaura o movimento da Revolução de Deus nos Campos de Fé do Brasil. Dividido em três pequenos capítulos, a introdução apresenta com profundo sucesso o universo da guerra entre o Apostolado dos Trezentos Pastores e os pecaminosos Darwinistas, Coelhistas e Xavieristas. A Igreja Internacional Deus é Brasileiro salta das páginas a qualquer leitor que já tropeçou em um dos programas evangélicos que são transmitidos madrugada adentro. Há cenas dignas de um Tropa de Elite do Senhor, e é no final apoteótico dentro da Catedral de Brasília onde se desdobra o verdadeiro significado de um Apocalipse para a FC brasileira. As raízes culturais, a ironia levada a sério e o ritmo alucinante da narrativa tornaram esse conto um de meus favoritos.

Aspieville, de Laura Fuentes. Aqui a autora navega no tempo e por diferentes locais e países, e mergulha no Mal de Asperger (doença que vem ganhando bastante visibilidade) para criar uma ficção sobre uma época em que a ciência será capaz de criar seres portadores dessa doença, com o intuito de aproveitar a extrema concentração de seus portadores. Em prosa poética, Laura nos leva a conhecer melhor o cotidiano de crianças especiais, o seu desenvolvimento, e apóia sua narrativa no perigo das corporações utilizarem esse tipo de trabalhador em prol do incremento da produtividade e do lucro. A leitura é prazerosa e ao mesmo tempo assustadora, pois o futuro que a autora imagina está aí, na virada da esquina, uma vez que recentemente foi divulgada a notícia de que já conseguiram localizar o cromossomo responsável por essa doença. Fica a questão: será que esse conto deveria estar nesta antologia dedicada à sci-fi?

O apanhador do tempo, de Márcia Olivieri. A autora, em uma narrativa na primeira pessoa do singular, nos revela o testemunho de um réu estranho e misterioso, mas perde uma boa oportunidade de correlação com outro clássico Apanhador. Dono de uma longevidade alquímica, o protagonista segue justificando ao leitor muitos crimes inexplicados no decorrer do conto. A narrativa apressada não aprofunda muito bem o personagem ou o enredo, e me incomoda no que tange à verossimilhança de um relato perante um júri. Por fim, a história questiona o leitor, com um desenlace aberto que melhora o texto em certo aspecto, mas ainda assim me parece deslocado dentro de si mesmo.

Adorei o miniconto de Ricardo Delfin, Minhas férias. Uma vez vi alguém falando na televisão que tecnologia é tudo aquilo que foi inventado depois de nós nascermos. Achei engraçada a ideia das crianças circulando e tratando de temas comuns da ficção científica de forma bastante despachada, sem o menor respeito, sem a menor noção de perigo. Isso me fez pensar se não vivemos, nós, adultos, uma situação parecida, indiferentes ao alto preço que as próximas gerações irão pagar por tudo que andamos fazendo com o mundo. Essa é minha modesta interpretação… Mas a verdade é que se pode ler e rir muito com esse conto.

Linguagem complexa e enredo complexo

Meu amigo que acompanha o Projeto Portal comentou que o conto de Mayrant Gallo, Invasores, segue uma linha oposta daquele publicado no Portal 2001. Nesta nova narrativa não estamos em um Brasil superpotência, mas sim em uma realidade pós-apocalíptica na qual sofremos uma invasão alienígena que acabou por provocar uma regressão da civilização. A atmosfera acaba sendo a de um faroeste futurista, onde o Estado desapareceu e as comunidades precisaram se reorganizar um pouco por si mesmas. A maior força de Invasores está no crescente relacionamento entre os humanos e os invasores, mas eu penso que seria preciso mudar o foco da trama para o rapto em si, para que a ideia seja melhor aproveitada.

Mesozóide, de Danny Marks, é uma mistura breve e súbita de conceitos de FC — ciborgues, pós-humanismo, física atômica, viagens estelares e temporais —, em que o ficcionista nos apresenta sua versão de um exterminador do futuro mais possível, mais familiarizado com o universo da FC, que veio tentar evitar o que o autor batizou de Grande Erro. Ao final, a narrativa nos deixa a pergunta: será que ele teria sido bem-sucedido ou ainda virá a ser? Curto e dinâmico. Agradou bastante.

Pesquisando no Google descobri que (Ficção especulativa), conto de Brontops Baruq, usa uma referência antiga: o conto Ondulações no mar de Dirac, publicado há anos na revista Isaac Asimov Magazine, sobre uma máquina do tempo diferente. Ela só podia retornar ao passado, mas as ações realizadas lá não interferiam nos acontecimentos no momento presente. Ondulações, de Geoffrey Landis, usa essa ideia para tratar da vida estranha do protagonista, capaz de viver grandes peripécias, mas todas elas inúteis, sem resultado. A máquina de Brontops, apesar de usar o mesmo princípio, é usada para a investigação e a vigilância dos cidadãos, e vemos a história sob o ponto de vista de uma dupla de policiais. Desconfio que existem vários pontos para discutir neste conto, mas, para mim, sobressai a questão do poder da autoridade.

O conto do Abílio Godoy, COMum, como o de Kanso, parece ter recebido influência do filme A origem. Afinal ambos tratam da capacidade de se adentrar no mundo dos sonhos… Ou algo parecido com isso. Mas o resultado é bastante distinto e bem menos pirotécnico, e a linguagem do conto é tratada com bastante cuidado… Talvez seja o mais relevante, nesse sentido. Porém, não sei se por isso mesmo, me deu a impressão de muita frieza ou melancolia. É a história da desilusão de um cientista que participou do planejamento e da criação de um sistema para navegação coletiva em sonhos… Mas ele foi expulso da jogada porque o projeto foi encampado por corporações interessadas em lucrar com o aparelho. Foi desenvolvido então uma espécie de jogo (o COMum) no qual o melhor ilusionista ganha a competição. Eu não gosto de dar explicações alegóricas, mas entendi essa narrativa como uma crítica ao sistema artístico e como este acaba se curvando às necessidades econômicas. Eu poderia resumir assim a mensagem final: quando o sonho deixa de ser sonho, vira realidade.

O conto Devoção, de Izilda Bichara, é uma deliciosa narrativa nonsense protagonizada por duas figuras do universo on-line: o Homem Google e a Mulher Antivírus. Quem aprecia as criativas e irreverentes ficções de autores como José Agrippino de Paula e Paulo Leminski, vai se divertir muito com as peripécias dessa dupla de cores e formatos estranhos. A autora certamente é apreciadora da arte e da literatura surrealista, pois Devoção mistura sonho e realidade, dialogando de modo muito criativo com o trabalho de Salvador Dalí e Luis Buñuel, dois criadores que sempre me agradaram muito.

A Senhora do Lago, de Georgette Silen, única autora que eu conhecia nessa revista. Conheci a narrativa cadenciada de Georgette no conto O caçador de Deus, da coleção Paradigmas, e já li uma entrevista da autora no site Criando Testrálios. Fã declarada de As brumas de Avalon, nesse conto a autora cria uma versão middlepunk de um relacionamento às avessas entre Galahad e Arthur. Nela, Merlin possui um implante de canhão no lugar de um braço e os cavaleiros da Távola redonda cavalgam bestas metálicas articuladas com engrenagens de estanho. No universo da autora, Morgana de Avalon faz um papel alienígena junto aos seus, “os Celtas, o povo que veio das estrelas”. Diante de uma Excalibur prismática, menestréis testemunham espadas com fio a laser cerzindo juramentos de lealdade tirados das novelas de cavalaria. Uma boa surpresa num livro de FC, para quem, assim como eu, se declara um fã da saga pendragoniana. Não vejo a hora de buscar Lazarus, o mais recente lançamento da autora.

Os olhos do gato, de Luiz Bras, é sem dúvida um dos meus favoritos na coletânea. Fiquei fascinado com a maneira que o contista combina forma e conteúdo dentro da literatura de gênero. Nesse conto, acompanhamos uma versão moderna do mito das amazonas, onde mulheres, homens e gatos de estimação compõem uma fábula breve sobre os horrores, as maravilhas e as verdades de se tornar um adulto. A fórmula estrutural simula uma sucessão de flashbacks entremeada por cortes como os de um filme, facilitando muito a imaginação do leitor ao longo da narrativa. A coisa que mais chama a atenção são as nuances emocionais da protagonista, que vão da doçura à frieza calculista bem feminina. O trecho mais marcante na minha leitura foi: “Crescer é se perguntar todos os dias: de quantas maneiras uma pessoa pode se ferir?”

O banho de Diana (sonata tripla em pi menor), de Bruno Cobbi, protagonizado apenas por mulheres guerreiras, investe na releitura paródica de certa história da mitologia grega. Diana, grávida, acorda num vagão de metrô deserto, numa estação vazia. Sua solidão é física e metafísica, e o suspense começa a tomar conta da trama. Cobbi foi muito competente ao criar um enredo de mistério e solidão, com final cíclico surpreendente. É curiosa a atitude do autor em explorar conceitos de matemática, geometria e mitologia grega na FC, algo que me parecia inédito até então. O conto é repleto de pequenas referências e vale uma segunda leitura com olhos bem atentos ao título.

Novembro / 3001, de Marco Antônio de Araújo Bueno, traz uma linguagem contaminada pelo vocabulário acadêmico, o que torna seu narrador metódico e irônico. Reconheci em seu labirinto narrativo certas imagens de autores célebres como Machado de Assis e Euclides da Cunha. O conto, apesar de curto, é um vasto mosaico distópico e bizarro, no qual cabe quase tudo: pós-humanos, contrabandistas de órgãos, milícias tribais, mortos-vivos, criaturas andróginas, programas de reabilitação etc. O comentário de meu amigo especialista em FC foi: “Esse conto não chega a pertencer à estética cyberpunk, tampouco à new weird, mas está confortavelmente instalado entre ambas.”

Linguagem complexa e enredo simples

On, de Cláudio Brites, investe na forma modernista, com toques de surrealismo e expressionismo, ao apresentar um misterioso diálogo inserido num único fluxo discursivo. Não há travessões nem aspas, o diálogo ocorre separado apenas por vírgulas, num parágrafo longo e solitário. Esse parágrafo monolítico e a trama bizarra sobre uma cabeça sofrendo uma pane mental instauram o mais puro horror. O jovem contista talvez tenha alguma ligação com o teatro, pois On, na minha opinião, é uma narrativa curta que também ficaria muito bem no palco, como certos esquetes de humo negro, de Beckett e Ionesco.

A palavra tundra remete a um ambiente congelado, com pouca vida. Não é o que acontece no conto Tundra, de Tiago Araújo. Aqui tudo é bastante expressivo e vivo. A linguagem das ruas é empregada em um ambiente estranho (ou seria um ambiente cotidiano tornado estranho por essa linguagem?). Apesar das cores fortes, expressionistas, a história não me soou muito clara: boa parte dela descreve policiais e enfermeiras em uma padaria… Tem-se a impressão de a cena ser parte de um universo maior (a referência ao tal Coletivo-dos-Anjos) e de um mundo no qual pode-se morrer e arrumar um novo corpo em seguida. Talvez a tundra esteja na frieza com a qual morre-se bestamente e na indiferença dos “canas rasgando o cu do mendigo”.

Maria Helena Bandeira (descobri agora há pouco que ela é sobrinha do poeta Manuel Bandeira, meu predileto) comparece com quatro narrativas curtas, todas excelentes. Confesso que sua ficção poética e melancólica, em que o estranho aparece casado com o maravilhoso, me encantou fortemente. Penso ter divisado em seus contos (principalmente em Por uma flor e a boca vermelha e Em um dia de verão marciano, amor), em que a água parece ser um elemento transformador, algo de Borges e de Ray Bradbury. Ou seja, um modo de tocar fundo na inteligência emocional do leitor, mais do que em sua inteligência racional.

Finalizo esta mensagem dando os parabéns ao organizador e ao grupo de contistas. Não li os cinco números anteriores da revista, mas se apresentaram a mesma qualidade deste Portal Fahrenheit, e acredito que apresentaram, não resta dúvida de que o conjunto conseguiu atingir o objetivo proposto: fazer circular, fora do gueto, a boa ficção científica brasileira.

Um abraço do

Breno J. Portugal
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