quarta-feira, 9 de março de 2011

Para ler como um Escritor - Danny Marks



O primeiro passo para ser um escritor é aprender a Ler, claro que não me refiro aqui a simples interpretação dos signos lingüísticos alcançada através do letramento, o conceito de “Ler” que estaremos usando é o de interpretação do mundo, seja ele interno (psiquismo pessoal), externo (psiquismo interpessoal) ou universal (dos ambientes gerais do mundo: sócio, políticos, econômicos, etc).
Todos os seres vivos nascem com uma determinada capacidade de ler o mundo que é necessária a sua sobrevivência  e ajustada às características de sua espécie.
No ser humano, essa ferramenta embora muito complexa desde o nascimento, precisa ser aprimorada ao longo de toda a vida devido às infinitas possibilidades geradas nas relações interpessoais que a humanidade cria a sua volta. É fundamental que isso ocorra para que o ser humano possa sobreviver e se comunicar, e desta forma evoluir gradativamente.
Como pode ser observado, o letramento é apenas uma das ramificações que o LER permite. Mesmo antes de obter o letramento, ainda no colo da mãe, o bebê já consegue ler o seu entorno e ir aos poucos construindo o seu espaço interior, onde sua mente e os seus sentimentos serão guardados e poderão acumular experiências e desenvolvimento que propiciarão a maturidade psíquica.
Uma das ferramentas que a mente utilizará para ampliar e construir a riqueza desse mundo interior é a imaginação. Através dela será possível captar o entorno, as projeções feitas pelo Outro (qualquer pessoa que não seja o próprio agente da apreensão) e as leituras do mundo dito real. Através da imaginação é possível extrapolar os conceitos absorvidos e devolve-los ao mundo com as próprias projeções, estabelecendo a comunicação.
Portanto para que haja uma comunicação é necessário que seja desenvolvida a capacidade de Ler o mundo, interiorizar essa leitura tornando-a parte do psiquismo pessoal que vai se desenvolvendo com o uso da imaginação e, por fim, devolver ao mundo a sua leitura daquilo que foi absorvido e interpretado para que possa ser lido e apreendido pelo Outro.
O conceito básico é bem simples: Só se pode dar o que se possui.  Portanto só podemos devolver ao mundo o que foi internalizado e processado de forma a fazer parte do que somos para então poder ser projetado de volta.
Todas as tecnologias advém desse processo de apropriação => processamento => ampliação do conceito => construção da realidade.
O homem observa a natureza e se apropria através dessa leitura de mundo de conhecimentos que lhe permitem desenvolver-se e projetar novos meios de interação com o ambiente. Quanto maior o conhecimento for absorvido e integrado, ou seja, amalgamado com o Ser, maiores serão as bases para o “Salto Criativo” que é uma extrapolação de um conceito para algo muito além dos vínculos diretos possíveis.
Esse salto criativo é dado pela imaginação que é capaz de vencer as linearidades do raciocínio lógico e criar novos raciocínios paralelos e perfeitamente compatíveis. A imaginação é a ponte que liga os conceitos e as possibilidades de extrapolação (ampliação não linear) dos mesmos.
Esse mecanismo é o que permite associar a queda de uma maçã de uma arvore ao conceito de atratividade dos planetas, ou seja a teoria da gravitação universal , ou o que permite a uma criança ler uma HQ e transpor conceitos de relações interpessoais para a sua própria vivência através do lúdico.  As brincadeiras dos leões com os seus irmãos, permite que ele aprenda a arte da caça. As brincadeiras das crianças em uma roda de amigos, permite que ela compreenda como se comportar em sociedade. Todos esses são exemplos de extrapolação de conceitos simples para conceitos mais amplos através do uso da imaginação aplicada a leitura de mundo e interiorização do entendimento das relações implícitas.
Como pode-se perceber, a extrapolação de conceitos não é um recurso usado apenas pelos grandes gênios da humanidade em casos extremos, é algo comum a todos e que permite que uma criança que nunca viu um prédio de apartamentos (casas empilhada umas sobre as outras) entender facilmente o que é visto porque um dia ela empilhou caixas ou outros objetos. O mesmo conceito com aplicabilidades diferentes e sem uma relação direta racional, e sim paralela. Uma relação direta permitiria a criação de arquivos com gavetas, mas não a construção de prédios. Por outro lado a compreensão de como é um prédio permite entender o conceito que a natureza utiliza para células e como são organizados os órgãos internos, e estes permitem que se compreenda a organização de uma sociedade.
Para que seja feita uma associação direta entre um prédio de apartamentos e um arquivo de gavetas, por exemplo, é necessário que haja uma característica imaginativa que transforme os conceitos em algo facilmente trabalhado pela imaginação, linkando-os através do uso metafórico. Este é o processo que os artistas usam para construir sua visão de mundo e tornar as suas leituras formas abstratas de arte, ligando diretamente o mundo interno e sua realidade ao mundo universal e sua concretude conceitual sem que haja perda de uma “leitura” passível de ser reapropriada pelo outro.
Os artistas possuem a capacidade desenvolvida de perceber essas ligações não tão explicitas e torna-las claras para todos através do que chamamos de arte, ressaltando através dos seus recursos justamente o que de outra forma passaria despercebido.
Portanto, para que se possa ser um escritor, é preciso antes de tudo:
- Ser capaz de fazer leituras do mundo cada vez mais intuitivas e perspicazes criando links entre as possibilidades lógicas e suas extrapolações.
- Desenvolver a imaginação de forma que ela possa dar esses Saltos Criativos e através deles fazer as pontes conceituais.
- Desenvolver a habilidade de transmitir as imagens e interpretações do seu mundo interior e traduzi-las de uma forma compreensível para o Outro de forma a ampliar as possibilidades de comunicação eficiente.
Propiciar elementos que permitam aos nossos leitores conquistarem essas habilidades e as desenvolverem de forma satisfatória para os diversos usos possíveis é a proposta deste espaço e das aulas que serão ministradas.
Que a viagem através desse universo interior possa ser agradável e instrutiva a todos e possamos com esses novos mecanismos construir realidades cada vez mais coerentes com o que somos e o que desejamos ser.
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