sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Pagina em Branco - Danny Marks



Hoje eu sentei em frente ao computador e fiquei olhando para aquela página em branco do processador de texto. Há muito tempo não escrevo e a intimidade que desenvolvera com as palavras parece ter desaparecido. Eu ri quando lembrei do tempo em que sentava em frente a uma página de caderno com o coração pulsando de sentimentos que o cérebro não conseguia traduzir em palavras, somente após muitas tentativas fracassadas eu conseguia algo razoável aos meus olhos.
Os amigos incentivavam, mas não foi somente por eles que eu continuei, foi por uma razão mais egoísta, uma necessidade de fixar de forma indelével meus sentimentos, focar os sentidos no mundo que se escondia por tras das formas, dos rostos, da ilusão do cotidiano.
A necessidade de ver o que as pessoas eram, fez-me continuar. Escrevi poesia e vi rostos cansados ganharem vigor, descrevi cenas do cotidiano e vi corações pulsarem descompassados, escrevi sobre filosofia e observei olhos se iluminarem... até que, um dia, parei.
Nenhum motivo, medo talvez. Mas algo me chamava e hoje eu cedi ao pedido e encaro a folha em branco. Aonde estão minhas musas? Cadê a minha criatividade? O que quero dizer que mereça ser lido, falado, ouvido, comentado?
Foi somente quando comecei que percebi o que queria transmitir para a página em branco: Eu mesmo.
Somente hoje percebi que busquei ver a mim mesmo em cada palavra que escrevia para ser lida por outros. Fiz dos outros o meu espelho de forma a ver meus sentimentos nos sentimentos transmitidos pelas palavras, tornando cada leitor um ator, um artista, um interprete da vida. Pelos olhos deles eu via a mim mesmo e o interior deles, conseguia perceber que não era o único a sentir. A musica refletia nos corações e fazia o meu pulsar diferente, a cada reinterpretação das minhas palavras aprendia o que tinha ensinado.
Ao olhar para a página em branco percebi que o futuro é assim, uma página em branco que pode permanecer aguardando eternamente, mas que pode ser preenchida por algo muito importante, eu mesmo.
Ao me colocar nas páginas em branco que a vida me oferece, posso me perceber em cada rosto, porque todos somos semelhantes em nossas diferenças. Você que olha para mim através destas palavras, percebe a si mesmo, esquece que estamos distantes no espaço e passo a habitar a sua mente, eu sou você amanhã, o inicio, o fim e o meio, aquele que surpreenderá a todos não por ser exótico, mas por ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio, afinal, fruto do mundo somos os homens, sonhador que acredita estar acordado.
A sua frente está uma página em branco, e você a preenche sem perceber, sem dar-lhe importância. Nela você escreve o que é, e alguém a lê.
Cada livro, cada foto, cada paisagem, cada rosto que você vê, é você. Seu passado, seus valores, seus desejos, seus atos, estão em suas interpretações do mundo, e assumem o colorido que você lhes dá. O mundo é o que você quer que ele seja, não importa quem falou o que você agora pensa, foi você que sem perceber escreveu em uma página em branco e alguém leu e ao escutar-se na voz dos outros percebeu-se...
Amanhã, depois de amanhã uma nova página em branco espera que você a preencha, o que vai estar escrito nela?
Eu sei que vai estar escrito... Lá estará escrito: VOCÊ.

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