sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Membraniversos - Danny Marks



                Eles estão de olho em você, mas não há como perceber.
                Comigo aconteceu assim, uma vida normal, nada que me diferenciasse de tantos outros. Os estudos de aprimoramento que serviam de ponto de encontro com  pessoas que jamais conheceria de outra forma. O trabalho rotineiro sem grandes percalços ou expectativas.
                A vida sempre foi fácil para individuos assim, sem preocupações maiores do que a de descobrir onde estaria mais tarde, na noite. Quem sabe nos braços de alguma mulher que jamais veria de novo, ou veria, nos braços do próximo. A fila anda.
                Fazer parte da fila garante que a sua vez chega, em algum momento que não escolheu, mas que não precisa se preocupar em fazer acontecer.
                Seguir a vibe, surfar na net, trocar perfil e curtir isso ou aquilo.
                Tic tac, o som das horas que não são mais, digitais nem percebem.
                Você se acostuma com a paz do vazio preenchido de superfícies, laminas justapostas.
                Um cara, tempos atrás, disse que havia universos em superfícies branas, membraniversos que se entrelaçavam em cordas vibrantes. Alguém deveria ter feito um som maneiro com isso tudo, um Shiva em uma rave cósmica que varava madrugadas até que...
                Acorda.
                Karma diz que tudo volta e é assustador quando as coisas começam a dar voltas e mais voltas a ponto de não se saber mais onde se está. Olhos fechado a girar e girar e girar.
                Nauseantes voltas que expõem seu intimo material, visceral. E de repente...
                Nada.
                Não sente mais nada além da percepção de que não sente nada.
                O pensamento vai crescendo dentro de você como um câncer a reocupar todas as coisas que estavam nos seus lugares certos. Os pensamentos podem ser sombrios durante o dia.  Fontes de luz geram sombras quando projetadas sobre objetos sólidos que a bloqueiem.
                Blocos de informações desconexas que formam ilhas estruturais de coerência, raciocínios, metáforas, insights, inspirações, sopro forçado, UFA!
                Respire.
                O seu mundo já era e ainda permanece ali, exatamente igual, diferente de tudo.
                Não dá para disfarçar, nem precisa.
                Quase ninguém nota a diferença se continuar fazendo as mesmas coisas que agora são estranhas. Entranhas se apertando em medo de ser detectado por...
                Alguém.
                Não deu pra ver quem era, sumiu. Está lá em algum lugar e você sabe. Eles sabem.
                As ruas, os metrôs, as construções habitadas por milhões e milhões que se preocupam em inserir mais e mais milhões em contas e nos espaços que aparecerem, desaparecendo.
                Não há lugar seguro, qualquer um pode ser vitima do próximo assaltassinato, esquecido novamente e definitivamente por uma estatística.
                Não há como fazer as coisas mais fáceis se tornarem fáceis de serem feitas quando se sabe que são fáceis demais para serem feitas de forma demorada.  Não há naturalidade.
                Olhe em volta.
                As coisas não acontecem apenas por acaso, há intencionalidades ocultas. Descaradamente ocultas de quem não as pode ver, não quer. Estão ali, está vendo?
                Um plano. Uma superfície. Uma brana.
                Corre.
                O sangue corre mais rápido nas veias quando se está com medo de algo que se sabe que está por perto, sempre esteve, mas não se sabia que estava, olhando.
                Sobrevivência.
                Sempre é uma questão de sobrevivência, sobre a vida de todos, alguns sobre.
                Alguém tem que estar dirigindo esta coisa toda, mesmo que não se saiba para onde se vai, ainda assim se vai. Não dá para fugir, no máximo não sentir, não ver, não pensar.
                Pensa.
                De que outra forma as coisas estariam equilibradas, a manutenção do Status Quo de algo que perdeu o sentido de ser quando quem dirigia se foi. E não havia ninguém para ficar no lugar desgovernado, manipulando, moldado para ser assim ad eternum.
                O que você faria?
                Se um dia acordasse pensando novamente? Assim, do nada. Por um surto qualquer de alguma coisa que estala e clica, tic tac, tic tac...
                Desespero.
                 Sempre se quer ser igual a muitos, mesmo quando se destaca. Sozinho não dá. Não há nada o que fazer. Mas quando aparece um devem aparecer outros em algum tempo ou lugar, é preciso olhar, atento.
                Tic tac...
                Então eles te descobrem porque você pensa, não dá para esconder isso. Quem pensa faz as coisas diferentes, com conteúdo, mesmo quando se quer esconder.
                Eles vão atrás de você.
                Aconteceu comigo. Eles vieram e então eu soube que não adiantava fugir. O mundo gira, mas é pequeno para quem pensa. Não há onde se esconder no vazio.
                Não há o que fazer. Alguém precisa dirigir este mundo para que ele não se acabe definitivamente, alguém tem que fazer alguma coisa e para isso é preciso planejar.
                E quando você começar a pensar, eles vão encontrar você e mostrar que estamos todos juntos nisso, esperando que todos acordem, esperando que alguém consiga acordar a todos e nos diga para onde
devemos ir.
                Por isso estamos de olho em você...



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