sábado, 10 de novembro de 2012

O Menino que Comeu o Universo - Danny Marks



             O Menino olhou o semáforo ficar vermelho e ofereceu a gravura para o motorista escondido atrás do vidro. Dez, cinco, qualquer dinheiro servia.
O motorista falava no viva voz e não escutava o mundo lá fora. Tentou outro, tinham dito que ele pintava muito bem naquele dia em que fizera o retrato do que via toda noite. Fora naquele dia em que tinha participado do projeto de sei lá o que social.
Passara um dia legal, naquele. Tinham cortado o seu cabelo, dado um monte de tintas e passara a tarde toda brincando e pintando. Escondera aquele desenho porque tinha gostado muito dele. Nem haviam notado ele dobrado no bolso rasgado da calça.
Tinha sido legal, até comera alguma coisa. Mas fazia já algum tempo, quanto tempo? Não lembrava mais...
Começou a chover, as nuvens encobriam as estrelas e deformavam as tintas que escorriam, não ia dar mais para vender. Era "O Universo", tinham dito. Um universo pintado pelos olhos de quem dormia sob ele todo dia nas calcadas com marquises.
O papel amoleceu e a fome aumentou...
O menino pegou o universo e colocou na boca, mastigou bastante e engoliu.
A mulher que assistia no ponto do ônibus, atravessou a rua e deu-lhe uma nota de dez. Sem dizer nada, assim como veio foi embora, com o rosto molhado.
O menino nem sabia o que fazer. Já havia comido o universo.
Amanhã faria outro, com o papel onde se cobria e algum pedaço de carvão, a mulher deveria estar no ponto e ele iria poder dar para ela. Amanhã não precisaria comer o universo, talvez Jesus bastasse. Tinha vários Jesus que alguém lhe tinha dado.
Será que a mulher aceitaria ficar com Jesus pela nota de dez?


(in Garimpo de Palavras, Ed Guemanisse, Rio de Janeiro, 2007)
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