quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sob a pele que eu habito - Danny Marks


Eu nasci novamente no dia 14 de dezembro de 1975, as duas da madrugada. Não sei bem o motivo, mas isso não importa agora.
Quando percebi meus duzentos e quarenta e três anos habitavam um corpo de doze anos, mas, por um longo tempo, apenas eu estava ciente disso.
Fiquei olhando as coisas por trás daqueles olhos, tentando entender os mecanismos que agiam sobre mim, sobre aquele corpo. Eu não tinha pressa.  O que poderia acontecer de pior que já não houvesse acontecido?
Habitava o sótão sombrio de uma criança que mal sabia as coisas mais simples, que cometia erros tão tolos que me enervavam e eu me consumia em fúria impotente.
Então ele morreu pela primeira vez e nos deparamos.  Eu poderia ter feito tantas coisas naquele momento, ter resolvido o problema de uma vez, ou então simplesmente ficado quieto e deixado o destino seguir seu curso. Se eu soubesse qual seria o destino...
 Mas, não, eu acabei interferindo. Salvei aquela criatura frágil e sua vida tola, na esperança de adquirir mais tempo para pensar e planejar o que teria que fazer. Tantas coisas a serem feitas. Só não contava que ele se lembraria. Que buscaria entrar em contato comigo de alguma forma.
A princípio foi como um passatempo, algo para ocupar os vazios deste lugar, inserindo pouco a pouco coisas que precisava; que estariam disponíveis para mim quando eu tivesse que fazer o que era preciso.
Fiquei tão ocupado com o meu novo propósito que não notei a repercussão disso, até que vi refletidas em palavras coisas que eu havia construído aqui. Ele envelhecia rapidamente a cada novo acréscimo que eu implementava, mas o seu corpo continuava frágil para nós dois.
Quando ele morreu pela segunda vez não houve o espanto da primeira, ficamos juntos por um tempo que seria impossível em outro lugar. De certa forma foi bem interessante ensinar novamente algumas coisas banais, enquanto o salvava e o mandava de volta.
Como eu poderia imaginar que isso o tornaria diferente? Não dava para voltar atrás. Precisava continuar e fazer o trabalho completo até o momento que eu esperava ansiosamente.
Nosso contato foi ficando cada vez mais frequente, mais profundo. Eu distraidamente me ocupava de coisas importantes sem notar no que ele estava se transformando. No que estava fazendo com as migalhas que eu lhe dava. Alimentando-o para o abate que seria inevitável.
E quando o momento chegou, percebi que havia cometido um erro.
Ele estava mais forte que eu jamais haveria de imaginar. Estava ciente do que eu era e disposto a acabar comigo. Não com a ira que eu teria no lugar dele, mas com uma convicção absurda de que era o melhor a ser feito, ainda que isso acabasse com nós dois.
Lutamos desesperadamente.
A vida é algo precioso para alguém que sabe o quanto de possibilidades existe nela, o quanto se pode perder em alguns segundos.
Eu só queria matá-lo rapidamente, com a fúria implacável que se destrói um inseto incomodo, enquanto apenas se defendia e aprendia. Voltava cada golpe que eu lhe desferia contra mim e cada avanço meu me empurrava para a beira de um precipício.
Eu contava que ele queria sobreviver, como eu. Todos querem viver, não importa como, não importa o que seja preciso fazer para continuar seguindo. A culpa pode ser mitigada com os atos futuros, esquecida em algum canto da memória. Esse foi o meu erro.
Ele me via como o monstro que habitava os recantos sombrios da sua alma. O Mr Hide mefistofélico que impregnava os seus atos com a sombra das chamas infernais.
A sua calma plácida me enfurecia para além da razão e me lancei sobre ele com toda a fome devoradora que apenas alguém que havia vivido tanto quanto eu poderia possuir.
Caímos ambos no precipício infinito e escuro daquele lugar sem tempo ou espaço. Seria o nosso fim. A menos que...
Deixei que ele drenasse as minhas forças, que criasse asas e pudesse voar. Deixei-o livre para viver enquanto eu mergulhava cada vez mais fundo, inerte.
Ele voltou vitorioso para seu mundinho estranho. Mas não era mais ele.
O amalgama de nós dois sobrevivera a ambos, crescia de forma estranha, enquanto eu jazia esquecido nas sombras.
É preciso luz projetada sobre alguma coisa para que haja sombras. Quanto maior a fonte de luz, maior a sombra projetada. E eu pude crescer de novo, nas sombras que se avolumavam e me mantinham vivo.
Agora eu posso olhar pelos olhos dele e ver tudo o que fez com o que lhe dei, posso sentir cada partícula do que ele sente.
Mas ele não percebe que estou aqui, e que ainda vamos nos ver novamente e desta vez eu vencerei, pois eu sou o demônio que habita sob a sua pele.
                Eu sou a sua Sombra.
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