sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O Vizinho - Danny Marks

 A casa velha, como todos a chamavam, foi reformada. Apenas uma pintura comum para esconder as manchas, uma limpeza rápida e algumas telhas trocadas.
Foi o suficiente para que todos na rua aguçassem os olhos atrás de cortinas ou disfarçados em caminhadas com cães, que outrora andavam soltos na rua.
Demorou alguns dias antes que, no entardecer, o caminhão despejasse moveis e outros pertences na casa.
— Você viu aquela mobília? Coisa fina. — Disse a dona do 264 para a do 370. Mas logo o ultimo capítulo da novela assumiu a devida importância.
 Até que o carro importado apareceu na garagem da casa velha.
Mais estranho que isso foi quando o mesmo desapareceu, trocado por um modelo mais simples de vidros escuros e alguns arranhões na lateral.
O Jonas do bar da esquina discutiu com alguns clientes fiéis, entre uma rodada e outra de cerveja, as possibilidades do que estava acontecendo:
— Deve ser alugada. O dono veio para conferir e agora está o inquilino morando.
— Será?  Não vi a cara do cidadão. Se for corintiano...
— Você acha que todo mundo é corintiano, Zé.  Quem além de você torceria por uma merda de time desses?
— Não foi isso que você falou no campeonato de...
A conversa logo mudou para os valores nacionais e internacionais da democracia futebolística.
E as coisas foram acontecendo. Nada que assustasse muito, mas o fato que o morador da casa velha era um total estranho não passou despercebido. Alguns até já haviam conseguido vê-lo, quando entrava ou saia com o seu carro velho, logo de manhã cedo ou tarde da noite.
Nos finais de semana, uma total ausência. Não demorou muito para que surgissem as especulações.
— Deve ser funcionário público. Tem um jeito esquisitão de quem manda no mundo. Todo funcionário público se acha o tal.
— E desde quando funcionário público trabalha tanto?
— Mas quem disse que trabalha? Sei não. O cara sai logo cedo e volta tarde... mas trabalhar? Não vi nada que dissesse que ele trabalha, ou onde.
— Isso porque você faz questão de mostrar para todos. É só olhar o seu carro que eu sei de tudo. “Camping Astro Rei”, “Familia Monstro”, dois gatos, um cachorro, três filhos...
— E o colante dos engenheiros? Coisa ridícula aquilo.
— Não vem não que aquela coruja que colocou no seu é coisa de boiola...
— Eu só tenho o emblema do timão.
E a conversa novamente tomou outro rumo. Mas o incômodo permanecia, logo abaixo dos olhares furtivos, como um caroço sob a pele social, algo que precisava ser estudado, porem não assumira uma importância de ir ao médico.
Até que, não se sabe quem, vaticinou: É traficante!
Os risos nervosos só serviram para demonstrar o que todos estavam pensando, mas não tinham coragem de falar. A coisa era muito séria.
Um deles alegou ter visto o estranho ajeitando uma arma sob a roupa, discretamente.
Não que fosse alguém ruim. Até cumprimentava um ou outro quando encontrava pela rua, mas não falava mais do que uma ou duas palavras entre o ir e vir.
Puro disfarce, provavelmente. Esses caras tem sangue de barata, frio como o inverno.
A verdade é que todos temiam o estranho da casa velha. Seus hábitos incompreensíveis. Seu carro velho sempre limpo.
A casa era arrumada por uma empregada que não era dali.
Claro que deram um jeito de interrogar a moça, saber mais fatos.
A mobília? Coisa fina, da boa, mas ocupa mais espaço que deve, sabe, coisa de gente metida a besta que gasta muito só para ostentar. Paga direitinho, mas sempre fica por perto, como se temendo que roube alguma coisa. Sou pobre, mas sou honesta! Imagina, pegar alguma coisa que é dos outros?! Traficante? Sério? Deve ser mesmo.  Bem que desconfiei, tem cara de bandido. Nem fala muito, mas tem aquele jeito insinuante que nem sei. Arma? Nunca vi. Deve levar com ele, com medo da polícia dar batida, sabe? Acho melhor arrumar outro emprego. As coisas estão difíceis, mas não quero nenhuma treta com essa gente. Imagina ser presa?  A policia logo vai achando que a gente é cúmplice só porque é pobre. Eu sou honesta.
Em pouco tempo era consenso. O cara era perigoso e precisavam dar um jeito nisso. Se livrar daquele incomodo de forma cirúrgica. Deixar claro que na comunidade não admitiam esse tipo de coisa.
Mas e se ele resolvesse revidar? Dar um tiro em um ou, sei lá, sumir com alguém na calada da noite? Esses caras são casca grossa, levam tudo para o lado pessoal e resolvem na bala.
Melhor isolar o estranho,  manter distância. Cumprimentar? Nem pensar! Vai que alguém ta vigiando o cara e pensa que sou cúmplice? E se for algum rival? Eu não!
Todos esses eventos transcorreram ao longo de um ano e alguns dias. A casa velha e seu morador esquisito foram esquecidos no Natal e no Ano Novo, quando todos da rua se reuniam para as festanças. Como se não tivesse ninguém lá. E não tinha. A garagem vazia deixava claro.
Ficou vários dias vazia. Ninguém sabia o motivo.
 Será que mataram o cara? Ainda bem. Bandido bom é bandido morto. Um canalha a menos no mundo.
                Estava vazia ainda quando a casa do seu Tonho da esquina foi invadida e roubaram a coleção de moedas que ele tinha. Ninguém viu quem foi, mas todos tinham uma só certeza, o estranho estava envolvido. Deve ter dado o serviço. Só pode. Como iam saber que o Tonho estava fora com a família, na casa da sogra?
                Isso não podia ficar assim. Não naquela rua. Gente honesta e trabalhadora.
Foram tirar satisfação com o estranho, quando ele pretendia fugir, logo cedo.
                Dois homens seguraram o cara e arrancaram a chave da casa da mão dele. As mulheres invadiram e saíram revirando tudo. Iam achar a prova e dar um fim naquela coisa toda.
 Alguém chamou a polícia para levar o criminoso, já com as testemunhas arroladas no processo condenatório. Melhor assim que linchar o bandido. Gente pobre, mas de bem.
                Quando o policial chegou reconheceu o suspeito.
                — O senhor não é aquele do condomínio Santo Amaro?
                Todos ficaram horrorizados, então o cara já tinha uma extensa ficha de assaltos em condomínio de luxo! Bem que haviam desconfiado.
                — Sim, sou eu mesmo, policial.
                — Assaltaram a sua casa de novo?  Que azar, heim. Desta vez vamos pegar os pilantras.
                — Na verdade eu não fui assaltado. Não desta vez. Mudei pra cá para não pagar uma fortuna e ficar preso dentro de casa, com os bandidos do lado de fora. Não tem jeito, quando os bandidos querem, entram e levam tudo, até a dignidade. Tive que vender o carro para pagar algumas dívidas.  Queria um lugar mais tranqüilo, ir conhecendo as pessoas aos poucos... As pessoas andam muito assustadas. Eu mesmo morro de medo...
            Então o cara não era um bandido, era mais uma vitima. Esse mundo violento!!!
Os invasores foram se afastando, com medo de serem presos pelo arrombamento. Mas não foi dada queixa nenhuma.
Dias depois a casa velha estava a venda. Vazia de novo.
            Os moradores ficaram aliviados em suas culpas.
Mas que o cara era estranho ninguém pode negar.  Se ao menos ele tivesse se mostrado mais receptivo...
            Então alguém levantou o assunto que tinham medo de comentar.
           — Mas... se não foi ele quem assaltou a casa do Tonho, quem foi?
           Aquela rua nunca mais foi a mesma...
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