quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

CARTAS DE NATAL - Lariel Frota



 Querida mãe
   Sei que em tempos de festas você está triste: estamos distantes.Seria impossível não sermos invadidos por essa saudade incontrolável que invade nossos corações,empalidecendo nossos sorrisos.
   No entanto preciso lhe contar algumas coisas. Lembra quando falava sobre o futuro?Quando me incentivava a estudar, pesquisar, ir na direção dos meus sonhos, sem temer adversidades?
   Acredita que deu certo?Tirando a saudade que sinto de você, do papai, de toda a turma enfim, estou muito bem por aqui.No começo estranhei bastante, nem poderia ser diferente. Aos poucos tudo foi se encaixando: o ar é  ótimo,estou respirando com uma facilidade que nunca tive antes,  a natureza me presenteia com paisagens fantásticas, tão lindas que não consigo descrever. Fiz  amizades  e tenho aprendido muito com alguns mestres das mais diversas áreas que estão à nossa disposição. Aliás, falando em mestres, que os daí,  onde fiz a pós graduação não nos ouçam: o que acontece por essas bandas  é aprendizado de verdade.
   Mãe na noite de natal estaremos em comunhão de pensamentos acredite.Saia e fixe seu olhar numa estrela, será nosso ponto de encontro,combinado?
   Seja feliz por aí, abrace todo mundo e sorria, estou entre parceiros formidáveis,  estou muito bem,Feliz Natal querida, até breve!!!!


Querido filho
   Tudo está preparado para mais um natal?  Espero que não esqueça o que   ensinei:   essa é uma ocasião em que tudo deve continuar acontecendo como toda  família sempre apreciou. Tenho certeza que a  vovó já colocou uma meia velha perto da janela, pro presente do papai Noel não é verdade?
   Incrível como a velhice se encontra com a infância, deve estar cada dia mais confusa. Lembro das peripécias senis que me faziam hora chorar,  hora das gargalhadas.
   Querido sei que pelo seu modo de encarar as lutas diárias tem procurado dar conta de tudo. O papai não esquece de você um minuto. Ele é meio turrão você sabe, por causa dele fui obrigada a vir pra cá, mas fique tranqüilo ambos estamos bem.Existem várias oficinas de trabalho, no começo ele se recusou a aprender  ou participar de qualquer atividade, aos poucos no entanto esta se interessando por algumas modalidades. Eu estou sentindo um prazer imenso nesse aprendizado.Agora sei que,embora formada em  pedagogia, o quanto me faltava de conhecimento verdadeiro.Filho,  não quero que chore nesse natal. Vamos combinar um encontro? Saia um pouco antes da ceia,vá degustando uvas verdes,  olhe para o céu,para uma estrela bem brilhante.Será nosso encontro secreto,combinado???
Amo você querido, amamos todos vocês. Feliz Natal, não esqueça o aniversariante!!!

                                  (...)
    Um vento morno agita  a folhagem, fazendo rolar sobre a grama verdinha,folhas secas das azaléias floridas. Algumas tocam de leve os pés da senhora de cabelos branquinhos, que num sobressalto parece acordar de um breve cochilo.
-Desculpe achar graça, a senhora se assustou?
-Acho que dei uma  cochilada.Está tudo tão quieto por aqui,com a correria toda por conta do natal, essa calmaria acabou tomando conta de mim.
-Posso contar um segredo? De mim também, tirei uma boa pestana  antas de recomeçar a correria.  Estou me preparando para as comemorações que estão por acontecer. A senhora acredita que até sonhei com a minha mãe fazendo recomendações?
-Acredita que eu também tive um sonho breve? Mas falando em recomendações,preciso pegar o assado na padaria, é o prato predileto do meu menino.
-Nossa, ainda bem que falou nisso. Estou atrasado, o rapaz das frutas frescas vai fazer a entrega lá casa. Recomendações da minha mãe:nunca esquecer as frutas frescas do meu pai.Até logo senhora, feliz natal!
-Pra você também, até logo!

                               (...)

  Ambos se afastam rapidamente deixando pra traz os confortáveis  bancos de madeira, onde tiveram instantes de recolhimento,  no silêncio da pracinha florida, em frente ao cemitério municipal.
   Saem com o olhos vermelhos, não pelo cochilo,mas pelas lágrimas derramadas há pouco. Ele em frente ao túmulo dos pais,mortos em trágico acidente de carro três  anos atrás. Ela diante do túmulo do filho único vítima de uma grave doença no sistema respiratório.
   A algazarra dos pássaros procurando abrigo nas árvores ao cair da noite, vai ficando longe. Enquanto mergulham no mar de buzinas intermitentes e o cintilar das luzinhas de natal, aqueles dois vultos se misturam a multidão, cada um com o coração leve, pela lembrança boa do sonho rápido que tiveram: uma carta de natal!!!!

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