domingo, 16 de setembro de 2012

Olhos de Nuvem – Danny Marks





                 Ali, naquela casa quase de esquina, onde antes havia um pé de manga e goiabeiras nos fundos. Aquela casa que já foi amarela e branca. Ali morava um menino de traço torto e olhos de nuvens.
                Era um menino simples, como todos os outros de sua época. De pé no chão de areia batida, de joelho esfolado nas brincadeiras de rua, de fôlego enorme nas corridas de pernas ao vento.
                Também era um menino de magias que tornavam latas velhas em carros potentes, pedaços de madeira em cavalos alados e pneus velhos em maquinas poderosas de velocidades além da luz, além do som.
                Silêncio!
                O silêncio muitas vezes era o seu companheiro.
Um silêncio povoado de vozes que contavam histórias de outros lugares.
                Lugares macabros com seus monstros que surgiam à noite para enfrentar heróis destemidos, munidos apenas de sua inteligência contra as forças do além.
                Além das estrelas em mundos fantásticos ou na próxima quadra em tocas de mato e tiros de estilingue nas garrafas.
                Também havia os silêncios da dor, das lágrimas surdas que confessavam ao ar suas mágoas úmidas de amor, de vazios a serem preenchidos ou apenas respeitados em seus sagrados e eternos receptáculos de segredos.
                E o menino conhecia segredos secretos, inconfessáveis, compartilhados apenas na alma que viajava através de paredes e símbolos, invisível para os indivisíveis, próxima dos distantes.
                Ali, naquela casa onde o menino dormira nos galhos ramificados em braços a embalar e sonhara com outros tempos e outras vidas resgatando suas sabedorias ancestrais em palavras rabiscadas nas folhas soltas que iam sem jamais voltar, preciosidades a serem dadas e esquecidas ao segundo olhar.
                Foi lá que o menino conheceu a fonte das fontes e bebeu dela os seus sabores, e respirou o ar fresco daquele lugar que o contaminou por toda a vida com um sorriso triste e de traço torto.
                O menino acreditava e isso era todo o seu tesouro.
                E hoje quando eu passo por aquela casa, quase na esquina, e não vejo mais as goiabeiras e o pé de manga. Hoje eu fico pensando, onde estará aquele menino de pernas rápidas e alma ligeira?
                Aquela casa que não é mais amarela e nem mesmo branca, não há mais um menino com nuvens nos olhos, mas ainda é uma casa. Envelhecida, desgastada e com rachaduras; reformada e reformulada, mas ainda é uma casa.
                Talvez, em algum lugar, ainda haja um galho de esperança em que o menino possa dormir os seus sonhos embalados ao vento.  E pode ser que ele ainda recolha a sabedoria simples desse lugar pouco visitado e traga com seu novo traço de máquina as coisas mágicas que encontrar por lá.
                É nisso que eu preciso acreditar.
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