sábado, 5 de novembro de 2011

Semeadores (Parte II) - Danny Marks

(Anteriormente: http://osretratosdamente.blogspot.com.br/2011/12/semeadores-parte-i-danny-marks.html)



Houve um ser que desejou mais do que qualquer outra coisa saber porque o criador permitia que houvesse sofrimento no mundo, apesar de possuir o poder do Universo.
            E tanto desejou que lhe foi concedido .
            E tendo conhecido buscou os meios de destruir o sofrimento.
            Lembrou que já vivera antes e que tinha o poder e prudente que julgava ser ensinou e concedeu o poder aos que o seguiam.
             Crianças que eram, riram do que podiam fazer e brincaram com o poder que possuiam, mas as brincadeiras ficaram violentas e o ser teve que para-los antes que machucassem a si mesmos e aos outros de forma irreversível.

            Maltratado pelos que outrora o seguiam deu-lhes as costas levando consigo o poder, a dor e a solidão, pois compreendeu que não existia ninguém capaz de segui-lo em seu caminho.
                      Mas o tempo passou e novos juntaram-se a ele, buscando a luz que dele irradiava.
            Desta vez, julgando-se prudente, não quis que o seguissem e ordenou que fossem a frente dele, e os empurrou pelo caminho.
Percebendo-se a frente do mestre, cada qual pegou rumo diferente, ignorando as advertências daquele que tentava resgata-los para o caminho, mas por estar atrás deles, não o ouviram.
            O Ser chorou a nova perda, mas seguiu adiante como não podia deixar de ser. Passou a trabalhar na solidão, porém os seus atos e suas palavras atraiam mais e mais seguidores e passou a falar-lhes e quis ser um deles, e ao vê-los em perigo salvou-os, e decidiu por eles qual caminho seguir, e passou a viver uma vida que não era sua e nem de ninguém e eles o seguiram como cordeiros que tinham se tornado sob seu jugo.
Somente tarde demais percebeu o que tinha feito e desiludido e humilhado chamou seu criador e disse-lhe:
            — Perdoa-me, pois errei, liberta-me deste fardo. Não sou merecedor de carregá-lo, que a outro seja entregue.
            — Que assim seja, criança das Estrelas, mas o fardo deve ser carregado por alguém. Aponta-me quem desejas que o faça.
            — Pai, não o daria ao meu pior inimigo. Não existe outro meio?
            — Uma vez te ajudei e te abençoei. E veja que retomaste o mesmo caminho, arrancar-te do que escolheste te faria sofrer mais do que se  seguisses sempre em frente e alcançasses o que busca.
            — Sinto-me cansado, creio não estar preparado para o que me aguarda.
            — Cada ser no universo carrega o fardo que é capaz de suportar, levar menos do que isso deixaria o ser relapso, arrogante, irrefletido. Levar mais do que o necessário seria torná-lo inepto e atordoado.
            — Que devo fazer então?
            — O avaro carregaria um fardo de ouro com alegria, o sábio carregaria livros sem hesitar, o generoso recolheria o que pudesse do caminho para distribuir para aqueles que encontrasse aumentando e diminuindo constantemente o fardo que carrega, somente o humilde leva menos do que necessita e vive descansado, mas sempre sentindo falta de algo que não trouxe.
            — Devo ser humilde para descansar?
— A avareza leva um fardo pesado com alegria, a arrogância o carrega sem pestanejar, a sabedoria o leva por ser útil, a generosidade o faz por amor aos outros, e a humildade permite que descanses enquanto sonhas com o que não possuis.
            — Devo ser todos em um?
            — Acaso existe unidade e exclusividade nos sentimentos? Existe aquele que está sempre feliz, satisfeito, triste, paciente, furioso, arrogante ou generoso? Meu filho a sabedoria consiste em usar-se o que se tem de bom e de ruim de forma produtiva.
            Existiu há muito tempo dois semeadores a quem foram dados dois sacos de sementes para cada um. Um saco continha sementes de boa qualidade e no outro havia sementes apodrecidas. Um dos semeadores jogou as sementes podres fora e semeou apenas as boas.
            O outro enterrou as podres para que não causassem danos, vigiou-as e aguardou que se misturassem a terra. Por fim semeou as sementes boas no solo que havia trabalhado e suas plantas nasceram mais fortes que a de seu amigo. 
            — Então devo usar tudo o que possuo para seguir adiante?
            O amigo do semeador — continuou o criador ignorando a interrupção — ao ver como as plantas cresciam na horta do vizinho correu para pegar aquelas sementes que havia descartado e despejou-as sobre as raízes de sua horta.
            Fungos cresceram das sementes podres e insetos nocivos foram atraídos matando as plantas que germinavam. O semeador ficou sem nada.
            — Faltou-lhe a sabedoria para usar o que tinha.
        — Sobrou-lhe arrogância para pensar que já sabia tudo o que precisava e evitou aprender com o outro como fazer corretamente. Faltou-lhe paciência para aprender como fazer, faltou-lhe humildade para conformar-se com o que já possuía e não desejar o que não estava pronto para ter, sobrou-lhe o desespero de começar novamente, totalmente dependente da caridade do outro.
            — Compreendo mestre.
            — Então diga-me: Qual dos semeadores serás?
            — Nenhum, pois aprendi que cada um deve ser o que é, e tentar copiar os passos dos outros leva à queda fatal. Observarei e aprenderei com os outros, mas somente quando o conhecimento fizer parte de mim como um solo adubado plantarei as sementes que tenho guardado, e quando o fizer será a minha maneira.
            — E quanto ao teu fardo?
— Se o carrego é porque me será útil, arriá-lo agora poderá me fazer retornar no caminho mais tarde para buscar aquilo que só então descobri que preciso. Seguirei com passos mais curtos quando me sentir cansado, mas irei até o final da jornada com aquilo que me pertence.
            — Que a tua vontade seja feita, Irmão das Estrelas! Hoje aprendeste do caminho e o caminho aliviou o teu cansaço, não te esqueças disso.
— Obrigado, Pai. Que os frutos deste momento sejam doces a quem os buscar em suas necessidades.
— O que desejas, meu filho. Assim será...
           
          
           

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