sexta-feira, 18 de novembro de 2011

META ONDE III - Desperdício - Claude Ustt



-Tô te achando quieto, qual o  problema?
-Nada não, só cansaço. Ando  sonhando com a aposentadoria.
-Você nem é tão velho cara.Talvez seja  bom  procurar um médico.
-Tá falando igual a Zulmira: que ando parado demais, sem disposição, que preciso de ajuda médica  pra ver se tá faltando alguma vitamina....
-Ela tá certa,  tem um montão de remédio novo pra ajudar a gente.
-Mas eu num to doente. É cansaço dessa vida de trabalho. Sustentar quatro filhas não tem sido fácil. Ainda bem que as mais velhas já se formaram e começam a ajudar nas despesas.
-Então é hora de aproveitar a vida meu amigo. Hoje em dia tem remédio pra tudo, até o azulzinho milagroso pra reforçar o desempenho.
-Que isso home, eu lá preciso de reforço? Com oito anos de casado já tinha as quatro menina.Só parou porque a Zuzu feiz a operação,cada idéia meu, vê se me respeita!!!!
                                      ............
Em frente a tv aperta o botão do controle aleatoriamente.Nada o agrada, detesta ficar sozinho,mas a mulher resolveu fazer o tal curso de computação.Quase se arrepende de ter cedido tempos atrás. Começou com o artesanato, depois a pintura em tela, culinária, corte e costura e agora computação.
O pior é que não pode reclamar, ela dá conta.O que não entende é de onde vem essa energia toda.Cuida da casa, das meninas, não    sequer uma camisa  sem botão.Parece que o tempo passa diferente pra ela, continua encontrando prazer em tudo o que é novo. Talvez de fato precise procurar um médico.
-Oi Zé, a aula terminou mais cedo, você já jantou? Deixei sua comida no micro ondas.
-Comi pouco, tá tão quente que ando ruim de apetite.
-Então vou fazer um lanche pra nós. Porque não abre aquele vinho, hoje é sexta feira, amanhã a gente dorme  até mais tarde.
-Até  que é  uma boa idéia.
Agilmente  ela prepara uns petiscos. Arruma a mesa e avisa que vai tomar um banho rápido. Volta com uma camisola transparente, passa por ele  deixando um rastro de perfume  que parece ele não conhece.
-As meninas vão dormir na casa da tua irmã, pra ajudar nos preparativos do aniversário da Cristina.
-Olhe seu vinho Zuzu. Bom esse patê, comprou na padaria?
-Não, fui eu que fiz, lembra do curso de culinária?Então aprendi lá.Viu como é bom procurar novidade. Zé, vai começar uma turma na computação, porque você não aproveita?Vão ensinar um programa de criação.Você gosta  tanto de desenho.
-Gostava Zuzu, gostava de desenho no papel, com régua, compasso, lápis de ponta fina. Não tenho mais idade pra ficar colocando coisa nova na cachola. A natureza tem seu tempo:a gente nasce, cresce, vive e morre.
-Em qual fase a gente tá na sua opinião, e em qual pedaço da vida se  aprende?
-Aprendê é pra criança, adolescente, jovem. Eu  pelo menos to no final da tempo de viver. É hora de descansar, aproveitar o sofá e tá muito bom.
-Mas você não acha que enquanto se aprende, a vida fica melhor e mais longa?
-Num vô faze porcaria de curso nenhum.O que eu sei num foi suficiente pra cuidar da família? Num dei conta?
-Calma Zé,não precisa ficar nervoso, foi só uma idéia boba que passou pela minha cabeça.
-Boba mesmo, quer mais vinho?
-Quero mais um pouquinho.
                                    ..............
-Bom dia Zé,e aí,melhorou da canseira depois do fim de semana?
-Já falei que cansaço num  é doença. É coisa natural da vida. To bem e agradeço.
-Pelo rudeza da resposta melhorou coisa nenhuma, mas isso não é da minha conta. Olha as peça que pediu pra revisão.
                               ...............
Em frente a bancada se apressa em ajeitar os óculos, fingindo uma observação minuciosa.  
Quer mesmo é se enfiar no trabalho. Não falar com ninguém.
Em casa Zulmira  cantarola baixinho enquanto rega vasinhos de flor. Finaliza as tarefas de casa, para dedicar-se aos exercícios no computador da filha mais velha. Está feliz, há muito não se sentia   renovada por energias que não define de onde vêem. Quem sabe pelo  fato do marido,  sempre alheio a sua presença,  tê-la surpreendido   com uma noite de amor como há muito não acontecia. Sorrindo com malícia,  pensa que talvez seja  interessante providenciar outra garrafa de vinho para a próxima sexta feira.
No trabalho Ze não consegue se concentrar,  mergulhado num mar de dúvidas e inseguranças. Não esquece a  noite de sexta feira.Só pode ter sido efeito do vinho, ou alguma coisa que Zulmira anda aprendendo no curso de computação. Talvez conversas picantes com as amigas. Como ela pode estar tendo esse  desempenho na cama nessa  altura da vida?
Sempre soube  que mulher na menopausa não quer nem ouvir falar de sexo,porque justo a sua anda tão acesa. Depois do vinho, ele  até gostou da idéia de umas intimidades, mas jamais pensou que seria daquele jeito.
Não parecia sua  Zuzu calma e tranqüila,  com gemidos discretos,   cheios de pudor. Era uma fêmea faminta, ardente, ativa,  tomando as rédeas do jogo, que ele sabe,deveriam estar sempre em seu poder.
Agora sente-se  numa encruzilhada: toma o tal azulzinho do qual o amigo falou, desrespeitando o ciclo natural da vida, ou daqui pra frente, evita qualquer intimidade maior com a mulher?
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