segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Bate, bate, bate, na porta do Céu - Danny Marks


                As coisas não foram planejadas, sabe? Não era a minha intenção que acontecessem assim. Foi a sua? Ouvi dizer que sempre é feita a “Vossa Vontade”, não é?
                Antes fosse eu o único a duvidar disso, ou, sei lá, questionar.
                Questionar é o que me trouxe aqui, buscar respostas em alguém que tivesse respostas. Que acreditasse por tempo suficiente,  para  me responder.
                O cara lá na porta pensava que podia responder tudo. Tenho certeza que sim.
Eu conheci muitas pessoas que acreditam, que são assim, que sabem todas as respostas. Ficam com um ar altivo, de quem sabe tudo. Eu nunca soube de muita coisa, nunca consegui ter um ar altivo. Orgulhoso sim, mas só isso. Pessoas como eu tem que se agarrar em alguma coisa e o orgulho às vezes serve para isso.
                Mas em outras eu deixo isso de lado e vou perguntando mesmo, para esses caras que pensam que sabem tudo. Não por desafio, só por respostas.
                Eu falei com vários dos seus funcionários antes...  que eles começassem a me evitar, dar desculpas para não me responder.
                Teve aquele cara de preto que eu perguntei se preto também ia pro céu, por ser preto, entende? Será que havia alguma vantagem em pertencer a uma raça torturada ao longo de tanto tempo, por tanta gente. Coisa que acontece com santo, né não? Lutam contra o preconceito, sofrem por um monte de coisa e viram santos.  Sabe o que ele me disse?
— É preciso ser uma pessoa boa de coração, não apenas sofrer. Continuar bom mesmo com o sofrimento.
— Mas eu sou uma pessoa boa e já sofri bastante também. Sou santo?
Ele riu, disse que as coisas não eram assim tão simples, que havia os escolhidos que acabavam sendo testados e santificados. Isso me deixou triste. Mais uma vez eu me senti excluído.
                Então eu pensei que a coisa toda não podia ser muito justa. Quem é escolhido e por quê? E se já foi escolhido, para quê ficar torturando o cara? Só pra provar que a escolha foi certa? Mas,  e se foi escolhido errado? Que culpa tem o coitado? Melhor seria ser excluído, que pelo menos ainda tinha uma chance de não sofrer tanto, né mesmo?
                Um outro me disse que era uma questão de fé. Que era preciso acreditar. E eu nem acreditei no que ele dizia. Não podia, entende? Como eu vou acreditar em alguma coisa que não me disseram? Não me mostraram de alguma forma.  E quem acabou acreditando em outra coisa porque foi ensinado a acreditar nisso? Essa é a justiça? Se é justo seguir o que se acredita, até quem não acredita em alguma coisa porque não teve oportunidade de aprender deveria ter espaço: Aquele que acredita em não acreditar no que não sabe.
                Me falaram que o principal era saber amar incondicionalmente; amar o desconhecido, o estranho. Mas amor não aproxima? Não faz a gente tentar entender o que ainda não sabe?  Como eu posso amar alguém que nunca vi; que nem sei que existe, em algum lugar, e que só conheço por um número estatístico?  Não era uma boa resposta. Talvez não fosse uma boa pergunta.  Agradar a alguém que eu nunca vi, que nem sei do que gosta, que é tão genérico nos desejos e tão específico nas escolhas, e eu nem sei se realmente está gostando do que estou fazendo.
                Humildade é uma das coisas que todos concordam que tem que ter. Mas então, pobre tem lugar garantido? Me disseram que não.  A menos que não se cometa pecados; ou que, no mínimo, se arrependa a tempo.
                Se eu não souber que pequei ou não me lembrar de que pequei? Se eu não souber que era pecado quando cometi , será que conta? Me conta? Eu não sei, é sério.
                Nunca soube se havia realmente alguma coisa depois, e a lei que eu seguia, da sobrevivência, não fui eu quem criei. Alias, me falaram que se eu não desejasse sobreviver era um pecado também. Um beco sem saída, não acha?
                Eu tentei fazer o certo, mas isso era tão diferente para cada um dos seus representantes .  Contraditório. Acho que os seus escolhidos precisam de mais orientação para poder orientar. Não é uma critica, é uma constatação. Me falaram que era meu amigo, que gostava de mim. Amigos ajudam uns aos outros. Estou tentando ajudar, só não sei como...
                Nem o cara lá na porta soube. Eu perguntei, tudo isso, de novo. Não tive escolha.
Animais podem entrar? Eles não tem escolha, não sabem acreditar. São inocentes que matam inocentes na lei da sobrevivência que não escolheram seguir, mas que, como eu, não podiam recusar.
                Foi isso que eu fiz... o cara lá da porta...
 Ele me deixou entrar, só por um pouquinho, pra poder vir aqui perguntar aquilo que ele não sabia responder. Eu não queria deixar mais alguém duvidando... mas se eu não pergunto, não dá pra entender, não é mesmo?
                Então...  Senhor, pode me responder?

Postar um comentário

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...