quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A Verdade em Camadas - Danny Marks

 

          “Nunca antes na história...” e “O Diabo está nos detalhes”, são clichês que insistem em continuar vivos, e o motivo é bem simples, ou não.
          Pense em um lago grande e profundo. Na superfície você pode ver as aguas calmas, algumas pessoas velejando, ou pescando, ou até mesmo andando de pedalinho; por baixo pode estar havendo nesse exato momento uma luta de vida ou morte entre os predadores e as presas. Pode até haver um cadáver semidevorado, encravado entre outros restos lançados de forma criminosa, armas descartadas de algum crime insuspeito, ainda.
          Ou, pode ocorrer exatamente o contrário. A superfície agitada por uma terrível tempestade, que não consegue causar nenhum dano ao mundo subaquático que segue o seu curso natural, tranquilo e calmo como uma ostra fazendo a pérola que, talvez, acabe em algum colar famoso.
          Foco é o que determina o quanto da verdade vamos perceber ou não, e isso pode ser manipulado de forma bastante hábil, pelos que entendem como fazer as coisas parecerem o que se deseja que elas sejam. Nada de novo até aqui.
          Realmente não há nada de novo em toda a história, as velhas formulas são aperfeiçoadas, mas não alteradas. São raras as criações originais de fato, como o Diabo, que até a idade média, sequer existia, mas que a partir de então, possui ação retroativa até o início dos tempos.
          Contra fatos não há argumentos, eles estão lá e resistem de forma científica incontestável a qualquer análise. Mas, fatos podem ser apresentados ou permanecer ocultos, e o pior, podem ser interpretados fora de um contexto que transforma as “verdades” que apresentam de forma completamente diferente do que o fariam em outros modelos. São peças menores da verdade, detalhes que abrigam o tal diabo e suas tramas.
          Há aqueles que dirão que quanto mais informações, mais detalhes forem levantados sobre qualquer coisa, mais se conhecerá a verdade. Mas isso não é uma realidade constante. É possível apresentar tantas informações que a simples exposição faz com que todo o quadro se torne confuso, criando a dúvida e desenvolvendo teorias interpretativas que podem até ocultar ainda mais a verdade que pretendiam revelar, de forma maliciosa ou não.
          É nesse momento que o foco assume o papel de indutor da verdade, criando seletivamente um conjunto de detalhes que corrobore, confirme, a narrativa que se deseja apresentar e que, normalmente, acaba sendo a mais convincente até que se prove o contrário, por interesse que possa haver, quando for capaz de se contrapor ao que já foi determinado.
          A narrativa é o que provoca o “efeito borboleta” onde o bater de asas de uma borboleta em um lado do mundo acaba provocando uma série de consequências interligadas que culminam com um furacão do outro lado do mundo, cientificamente comprovado pela mecânica quântica dos argumentadores que elaboram as engrenagens desse complexo mecanismo.
           Dessa forma, até mesmo os livros de história podem ser revistos e novos fatos acrescentados, alterando completamente uma narrativa que já estava estabelecida, mas que diante de “novas descobertas” torna-se obsoleta, sendo necessária sua reavaliação dentro de um novo cenário interpretativo que estabelecerá uma outra verdade incontestável até que algum detalhe faça o diabo novamente e o processo se reinicie.
          Então, fica cada vez mais difícil acreditar em qualquer coisa, mas é preciso ter crenças para poder seguir vivendo. E a vida não é justa, isso é verdade. Afinal justiça é uma construção moral humana, e a vida é muito mais do que humana, a menos que consideremos que tudo o que se julga vivo seja qualquer outra coisa e se crie uma narrativa em que a única coisa que realmente vive, somos nós, os humanos.
          Isso poderia explicar porque estamos destruindo sistematicamente tudo aquilo que não nos pareça humano, até mesmo outras pessoas. Mas essa conversa fica para outro momento, quando houver detalhes que justifiquem esse diabo de narrativa.

Até lá...
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