quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Para (de querer) ser escritor - Danny Marks


           Devo confessar-lhe, amigo, que fiz uso de suas palavras e recomendações, quando lhe expus a vontade que me assolava a alma desde tenra idade, que bons ventos a levem.
          Comecei, no intuito de capacitar-me completamente para a tarefa auto imposta, a colecionar as dicas que versejam em generosidade nestes tempos em que, praticamente todos, abusam de egoísmo.
          Juntei boa sorte de livros dos grandes mestres, alinhados de forma a poder devora-los, ao menos quatro por mês, de forma que a quantidade de páginas não ultrapassasse um total de vinte páginas por dia, tendo o cuidado de considerar os que tinham mais de trezentas páginas como sendo dois exemplares e não apenas um, porque é preciso parcimônia no planejamento.
          Reservei na casa um local em que pudesse ficar completamente tranquilo, longe de qualquer distração quando me dedicasse a escrever diariamente, ainda que nada significativo fosse produzido, e confesso que isso deu-me mais trabalho que imaginava.
          Pensei no que poderia me distrair ao escrever, e comprei tampões para os ouvidos. A fome e a sede poderiam ser aplacadas facilmente se instalasse um frigobar com algumas comidas rápidas e bebidas. Por uma questão de espaço tive que arrancar o box e o chuveiro para instalar também a mesa com o computador e a conexão de internet, mais a estante para os livros.
          Me inscrevi em várias redes sociais e baixei algumas horas com podcasts com entrevistas de vários autores, além de vídeo-aulas com os maiores gurus da atualidade. Instalei uma barra de exercícios e comprei dois pesos de dois quilos e uma esteira que ficou encravada na porta, mas que, quando desligada, permitia a passagem.
          Deixei algumas outras coisas de fora, afinal é preciso ir com calma no começo, e essa coisa de escrever profissionalmente é para ser levada a sério, como um projeto de vida. Tem que ter consciência das dificuldades e ir superando os obstáculos aos poucos. Em uma semana já estava fazendo exercícios físicos enquanto escutava as vídeo-aulas e podcasts e pensava nos comentários das redes sociais que iria escrever, antes de ler algumas páginas.
          Dentro de dois dias completo o primeiro mês nesse treinamento que vai garantir que o meu livro seja um Best Seller quando for lançado, já tenho até uma lista e um cronograma das editoras que vão receber o original para avaliação assim que ele estiver pronto.
          É uma experiência fantástica que estou vivendo, sabe? E não sei por que os meus familiares se mudaram, está ficando difícil conseguir alguém para abastecer o minibar e comprar um desodorizador de ambientes. Tudo bem que tenho pulado o banho, ultimamente, mas é que os comprimidos antidepressivos que roubei do médico que veio me visitar não estão mais funcionando, e o café com vodka também não.
          Já me expulsaram de quatro comunidades e denunciaram três vezes o meu perfil, mas tudo bem, eram apenas fakes e já criei outros que também foram denunciados. Esse pessoal não colabora, a inveja é terrível no mundo de hoje.
          Perdi um dos pesos que foi projetado pela janela quando caiu na esteira que estava em alta velocidade, mas não me atingiu porque estava fazendo umas flexões na barra antes de ler mais algumas páginas dos livros que já quase terminei.
          Estou só entrando em contato para saber se posso considerar como escrita os meus posts nas redes sociais que tenho colecionado para ver se algum dia tem algo que se aproveite para publicação. É que estou meio confuso quanto ao tempo que tenho que dormir para poder cumprir toda a rotina e já não sei mais se aquela história em que o Foucault atira em Cthulhu com o robô que estava em cima da lareira de Westeros, e se transforma no saci-pererê para fugir com a branca de neve para o país das maravilhas foi uma inspiração que tive em um sonho ou se realmente escrevi essas páginas.
          Mas de resto está tudo bem, não vejo a hora de começar a escrever o romance que vai revolucionar o mundo. Qual era mesmo o título?



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