segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Você não é tão especial assim - Danny Marks


           O sistema solar é composto de uma estrela central, chamada de Sol, e diversos corpos celestes sob sua influência gravitacional. Os quatro planetas mais próximos do Sol são Mercúrio, Vênus, Terra e Marte; mais afastados tem os quatro gigantes gasosos, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno; além desses existem os cinco planetas anões, Ceres, Plutão, Haumea, Makemake e Éris; sem falar em inúmeros corpos menores que permeiam praticamente toda a extensão do sistema solar.
          Apenas na Terra existem Ipês Amarelos, uma das 298 mil espécies de plantas que encantam os humanos. Humanos são uma das 7, 77 milhões de espécies animais que, ainda este ano, ultrapassou o número de 7 bilhões de indivíduos. A grande maioria desses indivíduos acredita que algum ser divino criou tudo, dos Ipês e ao sistema solar e o universo, só para que o indivíduo possa ter uma boa vida. Nenhum problema quanto a isso, crenças são úteis para nos conduzirem em algum determinado caminho quando tudo o mais falha e necessitamos de algum conforto extra.
          A Zenilda, por exemplo, acreditava que o Ambrósio existia para pagar as contas dela e fazer-lhe as vontades. O Ambrósio não era um gênio da lâmpada, apenas um humano que tinha conseguido juntar uma grande quantidade de bens e valores que a humanidade chama de forma genérica de fortuna. Ambrósio, portanto, era rico; por consequência, Zenilda e os filhos que teve com Ambrósio também se sentiam ricos, afinal eram casados; a Zenilda com Ambrósio e os filhos com uma qualquer, nas palavras da progenitora.
          Há os que vão dizer que Ambrósio era um gênio de fazer dinheiro, mas os fatos demonstram que não era, por dois motivos justos. O primeiro é que o Ambrósio foi a falência, embora a fortuna tenha durado um bom tempo antes de acabar; e o segundo é que tinha coração e não suportou o baque. Não morreu por ter falido, nem mesmo dos gritos da Zenilda quando soube que não poderia mais gastar nada da fortuna que não existia mais. Ambrósio sofreu um mal que os gregos antigos atribuíam a uma vingança divina, teve um infarto fulminante e caiu completamente duro no chão, o que lhe valeu apenas o ganho de um traumatismo craniano que, conforme relato de Zenilda, estragou um ótimo tapete que estava na entrada da casa.
          Segundo a vontade escrita de Ambrósio, o melhor seria cremar e espalhar as cinzas em um belo lugar. Dele, não do tapete, que um dos filhos disse que daria uma limpada para poder vender para um amigo turco. Como conhecido da família, fui convidado para a cerimônia fúnebre, até porque precisavam de alguma ajuda com os tramites necessários, afinal era o Ambrósio era quem em vida fazia tudo. Não deixava a Zenilda nem ir no banco para ver o saldo da conta bancária, o que provavelmente foi um dos fatores que o levou a falência.
          Providenciei a cerimônia de despedida e a cremação do Ambrósio. Poderia ter cremado o tapete também, tem coisas que é melhor deixar ir, mas escolheram permanecer com o tapete que com uma maquiagem certa até parecia perfeitamente bem. Como o Ambrósio que estava com o terno que tinha usado no casamento de um amigo, há seis meses, em que tínhamos nos encontrado pela última vez. Foi nesse evento que soube da falência pelo próprio e dos seus planos para lidar com ela. A Zenilda que estava usando as mesmas joias do casamento, porque como revelou a todos “há coisas que se relutam em esconder, mesmo nos piores momentos”, mudara o vestido para um verde escuro, já que “Fico horrível de preto. Jamais!”. Por sorte alguém deve ter-lhe dito que o vermelho decotado que pretendia usar também não causaria boa impressão naquele momento triste e resolveu guarda-lo para a missa de sétimo dia, na esperança de atrair olhares mais bondosos.
          Os filhos do Ambrósio deram uma passada rápida no velório, mas tiveram que sair logo por conta de compromissos inadiáveis de extrema importância. Deram um beijo na pobre viúva que se recusava a chorar porque não podia manchar a maquiagem que não era a prova d’água, culpa da falência de Ambrósio, e saíram com alguma moça qualquer que não as esposas, porque já estavam se separando novamente. Como leal amigo de Ambrósio, olhei para uma delas quando já entrava em um taxi e observei que o vestido branco lhe caia bem no corpo de modelo. A vida seguia seu curso e o taxi também, para longe do cemitério.
          Com poucos presentes à cerimônia, percebi que a situação exigia que vencesse as reservas que pudesse ter e me aproximasse da viúva inconsolável e, naquele momento sozinha, para prestar-lhe solidariedade e conforto. Amigos, mesmo que não sejam gênios ou que estejam falidos ou falecidos, merecem a nossa consideração até a despedida final e, segundo um código não escrito, isso se estende aos que lhe eram caros. Por duvidar que alguém fosse mais cara para o Ambrósio que a Zenilda, obriguei-me a oferecer-lhe um ombro amigo, ao que ela aceitou imediatamente, já incluindo por sua conta todo o restante que não fazia parte do pacote.       Agarrada em um abraço, Zenilda desabafou o que devia ter segurado muito, até aquele momento propício e deu-me sua versão dos fatos. Teria dado mais se houvesse interesse de minha parte, mas consegui conter os excessos com subterfúgios.
          — Não sei como o Ambrósio pode fazer uma coisa dessas. Imagina nos deixar em uma situação assim? E agora, o que vamos fazer? Nem ir ao banco eu sei, e os meninos? Nunca trabalharam na vida, isso é coisa para pobre! Ele não poderia ter feito uma coisa dessas, não poderia. Estou inconsolável!
          Realmente, que coisa feia, não é Ambrósio? Como pode simplesmente ter sofrido um infarto sem antes ter resolvido a questão da falência? Um verdadeiro descaso com a família, que agora se via diante dessa situação de ter que trabalhar, como um pobre, verdadeiro absurdo. Essa gente horrível que só pensa em si mesma, e agora a coitada da Zenilda, desamparada, agarrada ao meu lenço de seda que usou para secar lágrimas tão diáfanas quanto. Há situações que nos colocam a prova, exigindo o máximo de nossa capacidade de aceitação, mas sempre há algo divino na intervenção do destino e quando alguém disse que iam fechar o caixão, aproveitei para me afastar e corri para o primeiro taxi da fila que esperava pelos clientes vivos. Quando nos deparamos com algo tão trágico, perdemos qualquer senso, por isso tive que pedir para alguém buscar o carro que havia deixado no estacionamento do cemitério, ao qual pretendo não retornar tão cedo.  
Procurei não pensar mais no assunto e seguir a vida como deve, quando recebi uma ligação do crematório para saber se os familiares não iriam comparecer para resgatar a urna funerária ou se preferiam que se usasse o procedimento normal para quando os familiares demoram mais que trinta dias para retornar, que seria jogar as cinzas nas arvores que enfeitam a paisagem. Lembro-me de ter visto belos Ipês Amarelos com suas belas flores a cobrir o terreno acinzentado. Respondi que, se fosse o caso, que seguissem o protocolo, já que não havia uma vontade expressa de Ambrósio para o depois e creio que onde estiver não deve ter se importado por um detalhe insignificante desses.
O próprio sempre dizia que o principal é saber que a nossa importância está naquilo que deixamos para as pessoas que são caras enquanto vivas, não depois que viramos poeira em um planeta que nem é tão importante assim em relação a todo o Universo. De certa forma, creio que o Ipê seria mais generoso ao cobrir o Ambrósio com flores que qualquer outro com quem tenha feito alguma transação, e não pude deixar de sorrir ao pensar que em nenhum outro negócio o mesmo se entregou tão completamente quanto naquele. Deve haver alguma justiça no universo, afinal.
O que aconteceu com a Zenilda? Realmente não sei, não soube dela, deve ter queimado a agenda de contatos, ou buscado outros mais promissores para lhe fornecer o conforto que necessitavam e que a minha atitude havia demonstrado que não estava disposto a proporcionar. Os filhos e netos que possa ter, creio que nem ela sabe o que fizeram e onde estão. Quanto a mim, quando abraço os meus familiares, lembro-me do Ambrósio, que apesar de não ser nenhum gênio e estar falido, deu-me a melhor lição sobre valores. Aqueles que nunca nos levam à falência, e nos quais todos os dias faço grandes investimentos e tenho um excelente retorno. Grande Ambrósio, que os Ipês amarelos o tenham eternamente sob sua sombra generosa e o cubram de flores. Amém.
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