domingo, 18 de setembro de 2016

A Terceira Idade de Adão – Danny Marks


(Pré-História)

Minha infância? Ah, o melhor tempo da minha vida, um paraíso. Aquilo sim era vida boa.
Todo dia, quando acordava, ia colher frutas e raízes. De vez em quando dava para pegar algum bicho para o almoço. Carne malpassada, cortada no dente ou na pedra. Naquele tempo era tudo na base do “pau, pau; pedra, pedra”, não tinha essas frescuras de hoje. Quando acabava as frutas ou vinha o frio, a gente se mudava. Ia para outro lugar melhor. Verdade! Sempre tinha um lugar melhor para ir.

(Extinção dos Neanderthais)

Fogo? Isso foi depois, sabe? Nem sei quem veio com essa novidade assim de repente. Teve um que disse que era coisa do céu, sei lá. Mas logo já era coisa nossa, até que gerou discussão. Tinha uns vizinhos que a gente não se dava bem, sabe? Uma gente meio rude, não que nós não tivéssemos boa vontade, mas sabe como é. Gente rude é fogo, se deixar se espalha e já era. Tivemos que dar um jeito neles, para pararem de incomodar, entende?

(Antiguidade)

Com o fogo deu para ficar mais tempo parado, comer melhor. Aí veio o metal, as plantações. Facilitou bastante as coisas, não precisava sair para conseguir comida boa. A mulherada deu para fazer roupa e fofoca, civilização é assim. Foi nessa época que inventei a escrita. Tinha que ir para a escola aprender, nada dessa coisa de pintar caverna o dia todo e tudo bem. Nem a caverna dava mais para acomodar tanta gente. E como tinha gente, meu pai! Tinha uns que trabalhavam e outros que ficavam pensando sobre as coisas, e sempre tinham coisa para pensar.

(Império Romano)

Então veio aquela turma que queria expandir os horizontes e mostrar que o nosso jeito de levar a vida era o melhor, quer dizer, o único que deveria haver, assim não dava problemas. Época boa essa, disciplina do exército que molda o caráter. De vez em quando a gente invadia um pais aqui e ali e colocava ordem na casa. Promovia a paz, nem que fosse na marra, sabe? Aqueles povos ignorantes que não sabiam o que era a paz, a gente ia lá e mostrava para eles. E as coisas ficavam em paz, de um jeito ou de outro. Depois era só cobrar uns impostos para manter as coisas certas.

(Povos Bárbaros, Cruzadas)

Teve um tempo que foi muito louco, sabe? Bateu aquela vontade de quebrar as regras. Tinha regra para tudo quanto é lado e ninguém aguentava mais. Pegamos os metais de novo e as coisas ficaram bem punk. Foi um tempo bárbaro, entende?
Briga? Ah, teve umas brigas danadas com uns caras que eram meio que esquisitos e moravam lá longe, onde não morava ninguém. Vizinhos, sabe? Sempre dá problema. Mas aqui entre nós, a gente já tinha aprendido a dar um jeito nos vizinhos. Ô se tinha...

(Idade Média)

Lembra daquela turma que gostava de ficar pensando? Então, teve uns que, sei lá, pensaram demais e começaram a escrever livro sobre isso. E resolveram ir além e escrever sobre coisa que ninguém viu. Cada ideia muito louca, mas sempre que tinha alguém que queria aparecer mais que os outros. Aí a gente faziam um churrasco, queimavam uma carne aqui e outra ali e no fim dava tudo certo. Mas com o tempo o mundo ficou meio que maluco. Uns queriam inovar tudo, outros queriam voltar tudo ao que era antes, outros nem sabiam o que queriam mas inventavam um monte de coisa diferente só pra encher o saco. Ficou tudo muito obscuro nesse tempo, mas na Média até que a gente se superou. A gente sempre se supera e faz história, entende?

(Idade Moderna, Reforma Protestante, Iluminismo, Rev. Francesa, Rev. Industrial).

Aí veio a coisa da modernidade, você nem imagina. Foi muito forte isso. Sabe o que é máquina? Então, era máquina sendo criada para fazer e desfazer coisa de gente. Era um tal de reforma para lá e reforma para cá, umas coisas de renascimento, de iluminar tudo, como se já não tivesse fogo suficiente. Só sei que teve muita gente que perdeu a cabeça nesse tempo, ô se teve. Eu não! Segui firme e forte, macaco velho não deita em galho podre, só vai no balanço, percebe?

(Independência das Américas)

Quando as coisas ficaram muito chatas pras bandas de lá, resolvi que o melhor era mudar de ares de novo. Sempre tive essa coisa de nômade, de querer ser livre. Aquela turma só pensava em castelos e além. Saudade da caverna? Não dá, né? Chega um momento que a gente tem que crescer, cuidar da família, arrumar um lugar para ficar, essas coisas. Terra tinha, nova, lá do outro lado do mundo. Mas é só ter uma boa ideia e logo junta gente querendo fazer igual, chamar aquele chão de seu. Sem falar que tinha uma gente rude por lá que, sabe como é, né? Ainda bem que as coisas que se aprende, não se esquece nunca mais.

(Primeira e Segunda Guerra Mundial, Guerra Fria, Movimento Hippie, Conquista do Espaço)

Foi uma guerra sabe? Por aí dizem até que foram duas, que quase viraram três, mas deram uma gelada na turma e a coisa sossegou. Não adianta nada você arrumar mais espaço se não pode fazer nada com ele porque está brigando com vizinho. O jeito foi fazer um acordo e dividir o que sobrou. Até parecia que ia funcionar, que ia dar para relaxar e aproveitar os bons tempos, curtir as flores, plantar o amor e o que mais desse. Curtir aquele som na paz e na alegria. Que nada. Foi só dar um tapa na pantera e já apareceu aquela gente rude enquadrando o universo. Tivemos que subir o tom.

(Internet)

Tem algo que acaba incomodando, cutucando a gente quando menos espera. O negócio é ficar de olho no que o vizinho esta fazendo. Veio aquela coisa de rede social, coisa inventada para pegar gente, e pegava mesmo. Tô falando. Quando você dava uma distraída, já estava lá discutindo qual vida é melhor ser vivida e quem deve ter direito a ela e como, o que as pessoas devem fazer, como devem falar, com quem devem falar, essas coisas. O vizinho entrava na sua casa e você na dele e ninguém estava onde devia, não podia dar certo essa coisa, não é?
Não deu mesmo. As coisas foram ficando cada vez mais feias. E cada vez tinha mais gente no seu quintal, e mais sol na sua cabeça. Então não teve jeito, tinha que dar um basta nessa gente rude.

(Utopia)

Acabei mudando pra Marte.
Isso sim que é vida boa.
Aqui tem pouca gente, e dá até para plantar e cuidar do almoço. Tem umas coisas diferentes que a gente precisa aprender a lidar ainda, mas não há problema. O negócio é seguir sempre em frente, colher o que planta e regar a vida. Isto aqui é o paraíso, sabe?

(Distopia)

Só tem um problema, aquele vizinho ali: a Terra. Vai por mim, gente muito rude aquela. Qualquer dia desses vou ter que dar um jeito neles. Ô se vou...


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