quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Século XXI - Danny Marks


Quem tem mais de cinquenta, como eu, provavelmente deve estar com a mesma decepção em relação a esse futuro que nos alcançou depois de longas batalhas para o realizar. Porque o futuro não chega sem muita luta, fica resistindo ferrenhamente e precisa ser arrancado à fórceps dos sonhos para finalmente gritar, para nossa alegria, quando nasce cheio das melhores expectativas.
Os primeiros momentos são de todos, um pedaço de cada um. Aquele olhar de esperança é dos avós, não notou? E aquelas ideias na cabeça, tão ralinhas, uma pendendo para um lado, outra para o outro, não é a cara do pai? Mas a força com que reclamou ao nascer, os berros que todos ouviram, isso não há dúvidas que é da mãe. Há sempre um vínculo com o passado, que lhe serve de base, em cada novo século que nasce.
Talvez por isso todo século quando nasce é feio. Enrugado de estar mergulhado em ideais por tanto tempo, só curtindo a vida nos sonhos que nem precisam se realizar, chamam-se apenas de futuro. Ninguém espera de fato que as expectativas se realizem, são mais para se ter algo em que pensar quando se namora, juntinho de conchinha, agarradinhos embaixo de um cobertor quentinho enquanto o frio fica do lado de fora, entre um amor e outro, até que haja um sexo gostoso que faz esquecer de tudo.
Talvez tenha sido esse o problema, o sexo. Desde que liberaram geral no século passado, com a queima dos sutiãs e o amor livre regado a muito rock´n´roll e rebeldia, as coisas ficaram mais soltas. Depois veio a ressaca, os peitos cansados da gravidade voltando para sutiãs de bojo a fim de parecerem mais firmes, volumosos, as ressacas homéricas que levaram a batidas ferozes, distorções, desconexões, em rituais sexuais estilizados. A rebeldia ainda tentou se manter firme, rebelde até mesmo na decadência. Importante era se revoltar contra qualquer coisa, e haviam tantas.
Ficou tudo tão disperso que os laços ficaram frágeis, esgarçados como lençóis amarrotados depois uma noite de amor intenso, a louça do café da manhã se juntando com a do jantar e esperando que alguém tivesse a dignidade de lavar os pratos antes dessa pirâmide desabar sobre a própria base. O homem foi para a lua a pretexto de trazer o universo para a amante, mas esqueceu o que tinha ido fazer lá, voltou de pedras nas mãos. Pedras que substituíram flores, muros quebrados que se tornaram mais pedras, e quando haviam tantas pedras no caminho, a poesia perdeu espaço e ficou concreta, armada. Começaram a atirar nos outros restos de sonho que acabou.
A esperança estava logo ali depois da curva, na virada do século que prometia ganhar novamente espaço, ciberespaço, que juntaria lugares mais distantes que o olhar diferente. Criar pontes e achar novos caminhos que nem se sabia que existir. O amor estava no ar e o sexo nas veias eletrônicas de uma nova realidade, mais forte, bondosa para com os desprotegidos de além na esperança que outros cuidassem dos daqui. Resgatar a natureza depredada, compartilhar riscos e ideias, juntando grupos de semelhantes em uma aldeia global que faria a roda do progresso girar e trazer soluções para todas as doenças do corpo e do caráter. Faríamos contato com outras inteligências de outros mundos que nos abraçariam em irmandade para salvar o planeta e a nós mesmos, no futuro.
Quando o século XXI nasceu, a contragosto, veio marrento em sua arrogância imatura, fruto de lar desfeito em valores penhorados. Criança birrenta, egoísta, que constrói castelos com pedras atiradas para olhar de cima das muralhas com ar reprovador das diferenças, na certeza individual de que é rei e o universo deve se curvar à sua vontade e sua inquestionável expertise superior. O olhar obeso acima do outro, a crítica chovendo acida em solo infértil, de rios contaminados e mar alagado.
Contatos com outras civilizações? Só se for para sexo voraz, descartável na saciedade individual, a posse sem retorno, que sinta o privilégio de me ter e esqueça essa coisa de ter sua vontade. Deixa de frescura que a vida é dura e vai penetrar onde houver espaços, caminhos fálicos, gente de armadura.
Solitário para não se ferir, cresce gigante o medo do desconhecido, espelho escurecido, revelado em fotos de nudes que deixa vazar nas redes, tentativa de ser capturado para não fazer tantas escolhas difíceis.
O que aconteceu de errado? Entramos com velocidade excessiva na curva e derrapamos em direção ao abismo? Ou apenas descobrimos que o mundo não é do jeito que pensávamos, com a nossa cara? Nosso jeito pode não ser o melhor, mas para que aprender se já acostumamos a ser? É preciso fazer a criança crescer de forma correta, perceber os erros dos pais e dos avós e não ter que os repetir, velhas lições só se forem estruturais. Não reinventar a roda, aprender a usa-la, descobrir coisas novas sem medo de ser velhos demais para aceita-las e nos permitir renovar.
É preciso olhar para o passado, não em busca de velhas respostas para os mesmos problemas que não foram solucionados. Olhar para frente e evitar saudosismos inúteis, reinventados pela lembrança adocicada da memória, buscando a sabedoria que nos fez chegar aqui. Tentar criar novas sabedorias que conduzam ao próximo século, sem gosto amargo de decepção e olhar crítico de quem já viu coisas demais, porém não reconhece as mesmas perguntas, os mesmos erros que insistem em se manter firmes, enquanto não os resolva definitivamente.

Então poderemos verdadeiramente conquistar o espaço, abraçar novas civilizações, que descobrimos não estarem no mundo da lua onde as fomos buscar, mas aqui ao lado, na casa do vizinho que, inadvertidamente, nos deixou entrar e que agora não sabe mais o que fazer com a nossa presença constante e vigilante. Descobrimos ter uma coisa em comum com esse vizinho, o medo. Mas podemos descobrir que há outras, tanto melhores em comum, como o desejo de ser feliz, de ter o seu espaço respeitado, de ter oportunidade de fazer escolhas diferentes e descobrir onde nos levam e que podemos aprender, ou nos decepcionar, com o que for encontrado. É preciso que isso seja feito, ou as próximas gerações não terão o privilégio que tivemos de ultrapassar limites do desconhecido, só para descobrir um espelho que nos revela como somos de fato, não como imaginamos, e que nos cobra a parte da responsabilidade de lidar com um sonho, que acabou virando a realidade em que vivemos. E que a poesia tenha esperança em nós.
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