terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Lapidando Textos:


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Todo autor sabe que parte do seu inconsciente se projeta na sua obra, mesclando-se ao produto criado, tornando-o único.
Um texto tem por objetivo levar uma mensagem ao leitor. O conteúdo dessa mensagem varia de acordo com a vontade e o momento de quem a produz e se completa naquele que lê.
Essa característica permite a identificação com o autor, cria uma ressonância entre as partes envolvidas e produz a mágica da leitura. Quanto melhor for a mensagem, melhor será a sintonia e mais apreciado será o texto, atingindo o fim para o qual foi produzido.
Porém na escrita, como em outras formas de arte, o inconsciente se manifesta mesmo contra a vontade do autor e pode colocar conteúdos que não fazem parte da mensagem ou até, em alguns casos, suprimir o que deveria estar lá.
Essa falha nem sempre é visualizada pelo autor, pode escapar de várias revisões e criar um ruído na mensagem original prejudicando a sintonia.
Para evitar isso, existem algumas técnicas simples de ser adotadas. Em primeiro lugar, para evitar que a inspiração se perca, deve-se colocar tudo o que vem a mente no papel (ou na tela do editor de textos) sem maiores preocupações, deixando fluir as imagens da forma como elas vem à mente e na seqüência que aparecerem.
Depois de concluída essa fase que eu chamo de Bloco Granítico, passa-se a produção efetiva, que nada mais é do que esculpir a imagem que se tem, nesse bloco inacessível a qualquer outro além daquele que o criou.
Deve-se dar os contornos, criar os traços básicos, o que no texto significa colocar em ordem as seqüências das cenas de forma coerente e que não comprometam o objetivo.
Agora o trabalho parece estar pronto. Já se pode ver a mensagem que desejamos transmitir e é muito comum que o autor visualize sua obra prima nesse esboço.
A mensagem, porém, precisa estar visível a todos, então faz-se necessário o acabamento.
Com cuidado, deve-se ler cada palavra e ver a sua localização na frase de forma a verificar a sonoridade que ela produz. Um texto bem elaborado deve ser uma música para os ouvidos, ter harmonia e ritmo. Um bom artifício é ler em voz alta o que está escrito, ouvir o efeito que se produz. Mesmo em uma leitura silenciosa o leitor ouvirá a sua voz interna, que difere da voz do autor.
Ler em voz alta produz um efeito semelhante ao de outra pessoa lendo. Se houver repetições de som ou dificuldade na leitura a harmonia do texto precisa ser trabalhada.
Outra ponto importante é a repetição de palavras.
É necessário dizer ao leitor quem está falando ou a quem o personagem se dirige em um dialogo, porem deve-se fazê-lo de forma subjetiva, evitando-se os mesmos termos em um espaço pequeno. A repetição cria a sensação de que já leu aquele trecho e a tendência natural é não prestar muita atenção, provocando uma ruptura no fluxo de leitura.
A sequência de apresentação dos argumentos também é importante, deve haver uma descoberta constante, um acréscimo de informações de forma coerente.Por exemplo:
“Amaro Morreu!” No encontro comemorativo será feita leitura do texto, aproveitando que os convidados estarão presentes para prestar suas homenagens ao Julio Antunes, o autor deste famoso livro.
Uma seqüência melhor seria: Haverá um encontro em homenagem ao escritor Julio Antunes com a leitura de um texto do livro “Amaro Morreu!”, para os convidados.
Observe que várias palavras foram suprimidas e a mensagem foi reordenada tornando-se clara.
Um fato a ser destacado é a redundância subjetiva, muitas vezes não percebida claramente. Se o evento é em homenagem a alguém, pressupõe-se homenagens, não sendo necessário reforçar no texto.
É comum que os escritores busquem formas poéticas em seus textos, como:
As lágrimas escorreram dos olhos; O sol surgiu iluminando tudo; Bateu violentamente o punho sobre a mesa; Abriu os olhos e viu o que acontecia.
Lágrimas só podem escorrer dos olhos, o sol sempre ilumina, é impossível bater gentilmente e só com os olhos abertos é que se pode ver.
Ou seja, pode parecer poético, mas é de extremo mau gosto e desnecessário, enfraquecendo a frase.
Outra forma que corrompe o objetivo, sobrepondo camadas desnecessárias, são os adjetivos que em excesso tornam-se um problema:
A rosa de pétalas macias, perfumada com o mais doce odor dos campos, com sua cor vermelha, sensual, era o símbolo perfeitamente talhado desse amor.
Poderia ser dito apenas: A rosa vermelha era o símbolo desse amor. Tudo o mais já implícito na frase, se torna cansativo ao ser lido.
O leitor é carente de novidades, de acréscimos ao seu conhecimento, esse é o motivo de ler a mensagem, e quando há muitas voltas para atingir esse objetivo perde o interesse.
O autor cria para os outros, sua obra tem que se completar naquele que vai ler, e para isso precisa limpar os excessos e criar o efeito desejado. Se esse não for o objetivo, então a obra não é para ser apresentada ao público, devendo ficar restrita a mente de quem a criou, preservada em sua intimidade.
Quando apresentada, a obra deixa de pertencer unicamente ao autor, passando a fazer parte da vida de quem a vê e a interpreta, se for bem elaborada, permanecerá integra; senão, será vista de formas diferentes com efeitos imprevisíveis.
A busca da mensagem perfeita e incorruptível é o objetivo de todo artista e estes são apenas alguns passos nessa jornada sem fim, mas nunca é tarde para se iniciar algo que nos fará melhores.

(Danny Marks)
Figura: O Beijo - Rodhin
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