sexta-feira, 3 de agosto de 2012

SESSENTA ANOS - Rogério Camargo


E hoje é o dia do meu aniversário. Estou fazendo isso pela 60º vez. Qualquer hora dessas canso e não faço mais... Entrando definitivamente na idade do condor: com dor aqui, com dor ali... Algumas é possível combater. Dor nas costas de ficar sentado muito tempo, por exemplo. É aumentar o número diário dos agachamentos, aquele exercício super útil de sentar nos calcanhares, levantar, sentar de novo. Uma série de dez, duas séries de dez, uma porção de séries de dez e a dor nas costas toma o rumo norte, desaparece. Outras dores, como as progressivas que venho sentindo nos dedos da mão esquerda, só a paciência para administrar. Há anos que venho sentindo que vou terminar artrítico. Mas como isso é coisa pra depois, vivamos o agora, quando ainda posso digitar feito um possesso e realmente me entrego a isso, por mais erros que cometa – em forma e conteúdo.

Sessenta anos. Pelo menos posso dizer que não posso dizer como Drummond, que abriu um poema assim: “Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer proposto”. Ah, não. Eu já tenho vários problemas resolvidos. Só me faltam respostas para a origem da vida e o tamanho do universo, como diria aquele cientista bobalhão. Só me falta a aplicação total, absoluta da única coisa que peço para mim: Que eu tenha calma e discernimento para lidar comigo mesmo. Com isso tenho tudo. Porque não interessa o que me façam – as pessoas, as coisas ou o mundo. O que interessa é o que eu faço com o que me fazem. O que interessa é a minha reação e não ficar discutindo com o estímulo. O inferno são os outros? Não. O inferno é o que fazemos com o inferno que os outros são. Os outros: as coisas, as pessoas, o mundo e, muitas vezes, até nós próprios, como agentes desencadeadores. Porque existe o estímulo externo e o estímulo interno... 

Sessenta anos e vários problemas resolvidos. Não, com certeza, o principal deles, que é não ter calma nem discernimento absolutos ao lidar comigo mesmo. Me descentro e descentrado me perco. Tudo bem que é possível voltar com cada vez mais facilidade. É possível reconhecer a queda e levantar com crescentes rapidez e segurança. Isto se chama parar em pé. Poder contar consigo mesmo. Ser forte diante da fraqueza. Como é pra frente que se anda, não adianta nada o problema resolvido diante do que ainda não tem solução prevista. Aliás, “solução prevista” é pura fantasia. Só se pode “prever” diante do que se tem no momento e quando o que se tem no momento é insuficiente, a “previsão” só pode ser um engano. Admitir que somos uma fábrica de enganos e ir em frente, pois. Um passo de cada vez. Um dia de cada vez. Tenha ele 24 horas ou 60 anos... 

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