quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Nada de Novo no Paraiso? - Danny Marks




            Quando o Sr Silva deu por si estava em uma espécie de salão onde não se viam paredes, teto e nem mesmo o chão parecia real...
            — Sr Silva?! Acompanhe-me, por favor.
            Silva olhou para aquela entidade trajando um belo terno branco muito bem cortado. Assemelhava-se a um daqueles seguranças de cassino que o Silva..
            — Estou recebendo sua ficha Sr Silva. Bem extensa por certo. Vejamos, pequenos furtos na infância e na juventude, uso e venda de drogas, promiscuidade, violência. Ah, aqui está, virou líder comunitário para aumentar o seu poder de atuação, entrou para política, ficou milionário por meios escusos, uma carreira e tanto Sr Silva...
            Silva retesou-se todo, encarando o seu interlocutor que parecia estar em contato com alguém por algum tipo de mecanismo que ele não percebia qual era.
            — Quem é você? Recuso-me a falar sem a presença de meu advogado.
            — Calma, Sr Silva! Aqui não vai precisar de advogados. Eu sou o seu anfitrião, enquanto aguardarmos o resultado da analise do Setor Jurídico. Alias, eles já entraram em contato com o setor financeiro para verificar o seu debito conosco e determinar como será feita a cobrança.
            — Mas... mas... o que está acontecendo por aqui?
            — Ora, Sr Silva, o senhor veio para o lado de cá e é hora de acertar as contas, mas não se preocupe com isso, por enquanto, deixe que eu lhe mostre as dependências...
            O Anfitrião colocou a mão sobre o ombro do Sr Silva e logo estavam em outra lugar muito semelhante ao anterior, mas este era cheio de boxes com equipamentos de telecomunicação operados por uma infinidade de homens e mulheres, todos vestidos de branco.
            Silva estava tão estarrecido que nem conseguia raciocinar direito. Sentia-se como se estivesse em algum tipo estranho de pesadelo ou alucinando.
            — Que é isso? Telemarketing?
            — Este é o nosso Setor de Mensagens Divinas, daqui mandamos e recebemos mensagens para todo o universo. O nosso Patrão acredita em gestão por resultados. Você acredita que antigamente tudo isso era feito por um único mensageiro? Não admira que houvesse muita confusão. Quando o patrão viu esse sistema do outro lado aderiu e adaptou para o nosso uso. Agora podemos fazer muito mais...
            — Mensagem Divina? Então essas pessoas falam com os fiéis a partir daqui?
            — Não Sr Silva — riu-se o anfitrião — Que fiéis? Nós nos comunicamos com qualquer um que deseje entrar em contato e falar conosco à partir do outro lado.
            A mente fria de Silva lhe dizia para se agarrar a qualquer detalhe, descobrir o que estava acontecendo. Deviam ter-lhe dado alguma droga e estavam tentando arrancar-lhe os segredos. Melhor entrar no jogo e ver o que poderia descobrir sobre essa organização.
            — Então é uma espécie de atendimento ao cliente?
            — É, quase isso, só que a musica de espera é celestial, e os atendentes realmente desejam ajudar quem entra em contato conosco.
            — Inacreditável..
            — Foi o que o Patrão disse do sistema de vocês, mas vamos...
            Novo toque e logo estavam em um outro lugar, onde milhares de pessoas se sentavam em frente a terminais de computador, todas muito ocupadas com seu trabalho.
            O Anfitrião deixou escapar um tom de orgulho na voz.
            — Este é o nosso Setor Contábil, aqui são computados os débitos e os créditos de todos do outro lado. Não queremos que ninguém saia com menos do que merece.
            — Isso ai nas mesas? São computadores?
            — Digamos que esta é a versão celestial daquilo que vocês têm do outro lado. Estes são rápidos, eficientes, não travam nunca e realmente facilitam o trabalho. Mas vamos, deixe-me mostrar o Setor de Planejamento.
            Logo estavam em outra sala. No centro havia uma imensa mesa onde inúmeras pessoas trocavam papeis, faziam anotações e discutiam entre si.
            — Esta é a melhor parte! Aqui todos se dedicam a criar estratégias para melhorar o universo.
            — Eles parecem muito ocupados, mas quem decide qual a melhor estratégia?
            — Ora, o Patrão decide tudo sozinho. Na verdade nunca adota as sugestões que esses fazem, mas não lhes diga isso.
            — Mas, então, por que eles estão aqui?
            — Porque querem! Alguns até acreditam que estão conseguindo mudar alguma coisa, e no fim ninguém se machuca. “Deixe-os se divertirem”, é o que o Patrão diz.
            Outro toque, outro lugar, agora cheio de pessoas que se banqueteavam com inúmeras iguarias servidas em fartas bandejas.
            — Aqui é o nosso refeitório, tudo o que imaginar e até o que jamais imaginou em termos de delícias gastronômicas está aqui, é só se servir até ficar satisfeito.
            O Sr Silva ia aceitar a sugestão, mas percebeu que já estava em outro lugar, nem sentiu o toque desta vez.
            Imensos ambientes com todos os tipos de jogos e brincadeiras atendiam a um numero sem fim de pessoas.
            — Este é o nosso Salão de Jogos, o Patrão adora jogos! Soube que ele vive jogando com o Pai. Alias acho que herdou essa característica dele..
            — E eu que pensei que seria proibido jogar no paraíso.
            — Proibido? Paraíso? Senhor Silva, onde acha que está? No Paraíso ninguém trabalha. Lá a festa e diversão ocorrem o tempo todo. Sempre tem muita musica, muita alegria e...
            — Mas, você disse que estamos do outro lado e se isto não é o Paraíso, o que é?
            — Ora Sr Silva, aqui é onde se trabalha! Alguém precisa manter o Paraíso funcionando. Mas até que não é tão mal assim, ainda mais que, quando alguém se cansa, pode tirar umas férias lá, por conta da casa.
            — Mas o paraíso não é abastecido pela “Graça Divina de Deus”?
            — O Pai? Onde você andou pelos últimos milênios, Sr Silva? Acredita realmente que nada mudou no Paraíso durante esse tempo? Entenda, o Pai está cuidando de um projeto particular dele, enquanto isso o irmão Gabriel cuida do Paraíso e o outro irmão cuida daqui. Mas aqui entre nós, não chame ele de irmão que ele não gosta. Nós o chamamos de Patrão. Para ser sincero a ideia veio de vocês, do outro lado.
            — Então o seu Patrão é o ... Caído?
            — Ah, senhor Silva, não fale assim. Ele até que esta bem em forma apesar da idade.. — e o anfitrião riu da própria piada, mas logo ficou sério, concentrado — Um minuto, já levantaram a sua ficha. Ok! Vamos embora...
            O Sr Silva se viu em um imenso terminal de passageiros onde pessoas apressadas se encaminhavam para seus destinos.
            — Sr Silva, chegamos ao fim de sua jornada..
            — Mas onde estamos?
            — Na estação de embarque, queria lhe mostrar tudo, mas o pessoal do jurídico está cada vez mais rápido e eficiente. Já foi dada a sua sentença.
            — Como assim, e o julgamento, meu advogado?
            — Eu já lhe disse, Senhor Silva, não precisamos de advogados por aqui, embora os tenhamos aos milhões. O sistema é muito eficiente e justo, acredite.
            — E o que vai acontecer comigo?
            — Mas não é obvio? O senhor tem muitas dividas e precisa pagá-las todas. O Patrão é muito rigoroso nesse ponto, nada de perdoar as dividas. Se pelo menos a sua ficha fosse um pouco melhor poderíamos entrar com um pedido de apelação junto a Gabriel — e riu-se de novo —  mas no seu caso...
            — Espere, pelo que entendi o seu “Patrão” é o diabo e aqui é o Inferno. É aqui que tenho que ficar pela eternidade. Foi isso que me disseram do outro lado, você não pode me mandar embora...
            — Pois é, Senhor Silva, aquilo que já te falei dos mensageiros. — O anfitrião ficou com uma cara consternada — Deixe explicar, as coisas por aqui mudaram nos últimos milênios, o Patrão conseguiu um acordo com o Pai e passamos a prestar serviços para o Universo e ainda cuidamos da manutenção do Paraíso.
            — Mas e os castigos eternos? E a danação eterna? Sem falar da redenção dos justos? Onde fica tudo isso agora? Eu tenho que ficar aqui no inferno pra sempre! Vocês não podem simplesmente me por para fora assim, eu pertenço a este lugar!!!!
            — Isso é passado, Sr Silva — respondeu o Anfitrião sério, um tanto irritado — Ninguém tem paciência de ficar fazendo a mesma coisa pela eternidade. Aqui o pessoal que foi autorizado a ficar vai se revezando nos trabalhos e no lazer e todo mundo fica satisfeito, sem encrenca. Tudo muito justo.
            — Deus! Então o inferno não existe mais? Isso não é possível...
            — Esse é o problema. Por aqui só podem ficar aqueles que tem condições de justificar a permanência ou pelo menos uma temporada, o resto a gente manda para lá.
            — Para o inferno?
            O anfitrião voltou a sorrir de uma forma estranha.
            — O senhor é divertido, Sr Silva. Gostaria de que ficasse um pouco mais, mas temos que manda-lo para o seu lugar e este não fica do lado de cá, fica do outro lado. Melhor sorte da próxima vez, Sr Silva, aproveite a estadia, aqui está o seu bilhete. Adeus...
            O Sr Silva ainda teve tempo de ver o que estava escrito no seu bilhete de embarque:
 
Expresso Inferno: Classe Econômica.
Destino: Terceiro Planeta do Sistema Solar – Terra.

E todos sorriram na maternidade São Tomé quando ouviram o choro daquele que acabava de nascer...
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