domingo, 23 de agosto de 2009

Charlotte - Danny Marks


Uma cidade pequena, onde os habitantes conhecem as histórias de todos, não é muito hospitaleira para novos moradores, pior para crianças.
Isso Charlotte já sabia. Sua cabeleira ruiva de doze anos emoldurava uma mente ágil e determinada e poucas coisas a assustavam.
Ficou encantada quando os filhos dos vizinhos a convidaram para uma brincadeira lá no final da rua 13. Seria o seu primeiro contato formal com aquele grupo de crianças, alguns já davam demonstrações de hostilidade, mas acreditou que poderia reverter isso com um pouco de boa vontade. O pai sempre lhe dizia: Não desperte a ira dos vizinhos, é preciso saber manter a harmonia...
Ela se arrumou para a brincadeira, já esperava algum tipo de trote ou ritual de iniciação, essas cidades são todas iguais.
Achou engraçado que o teste fosse em uma casa mal assombrada, como diziam as crianças, precisaria provar que tinha coragem de entrar lá e recolher alguma relíquia que fosse mortal ao fantasma que habitava a casa.
— Você vai ver, é uma menina loirinha, muito bonita, mas é malvada. — disse o Jonathas, líder das crianças, com seus primeiros pelos a aparecer na cara e a voz mudando de tom, era mais assustador para Charlotte do que qualquer fantasma.
— Mas o que ela fez? Porque se tornou um fantasma?
Jonathas assumindo um ar de quem conhecia tudo sobre o assunto explicou:
— Ela era uma menina muito mimada, fazia tudo o que tinha vontade, até que um dia foi pega invocando fantasmas com aquela coisa dos copos...
— A Owija... É um oráculo rudimentar — disse Charlotte
— Sim, eu sei — retrucou Jonathas, não queria ficar abaixo da novata — Mas ela era aprendiz de bruxa, tinha feito pacto com o demônio para ficar sempre jovem...
— Ela não era uma criança? Porque se preocupar com a juventude?
— Escuta aqui, você quer ou não saber o que acontece na casa antes de entrar lá?
— Desculpe, pode falar então, mas não adianta querer me colocar medo...
— Isso é porque você ainda não sabe do cão demoníaco — disse a Soraya, que tinha feito um papelão quando fora a sua vez de entrar na casa — É um monstro horrível de seis pernas que sempre antecede a menina fantasma, é o animal de estimação da bruxa.
— Sim e está ao lado dela no quadro que garante que eles nunca vão morrer, esse foi o pacto — disse o garoto sardento atrás de Soraya.
— Então está bem, eu entro lá, pego o quadro e trago aqui fora e queimamos ele, assim o demônio vai embora e não vai mais incomodar ninguém.
Todos se olharam desconfiados da coragem daquela garotinha. Ela riu e se dirigiu a casa. Em outras cidades havia sido mais difícil conquistar a confiança dos locais, seu pai ficaria orgulhoso quando soubesse o que estava fazendo.
Na ultima cidade inventaram que ele era colecionador de borboletas raras, dera certo por algum tempo, mas desta vez seria muito mais fácil.
Parou na porta da casa e olhou para as crianças na rua que tremiam mais do que ela que estava para entrar no covil do monstro, ao longe já dava para ver o delicioso tom vermelho do fim de tarde encobrir a cidade.
Em breve seria uma cidade fantasma, como as outras que visitaram, era uma pena, talvez pudessem se demorar mais tempo desta vez, comer com calma.
Acenou para as crianças sorrindo e entrou na casa, os caninos ligeiramente saltados pela antecipação, mas antes tinha que enfrentar um fantasma.
Como se isso fosse problema para uma vampira como ela.


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