segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

UMA CARTA DE NATAL - Lariel Frota



 (Texto concorrente do Concurso Os Retratos da Mente)
   Querida mãe

   Sei que em tempos de festas você está triste. Seria  mesmo impossível não sermos invadidos por essa saudade incontrolável  que invade corações, empalidecendo nossos sorrisos.
   Gostaria de  lhe contar algumas coisas. Lembra quando me falava sobre o futuro? Quando me incentivava a estudar, pesquisar, ir na direção dos meus sonhos sem temer adversidades?
   Acredita que deu certo? Tirando a saudade que sinto de você, do papai, de toda a turma enfim, estou muito bem por aqui.No começo estranhei bastante, nem poderia ser diferente. Aos poucos tudo foi se encaixando: o ar é  ótimo, estou respirando com uma facilidade que nunca tive antes,  a natureza me presenteia com paisagens fantásticas, tão lindas que não consigo descrever. Fiz  amizades  e tenho aprendido muito com alguns mestres das mais diversas áreas que estão à nossa disposição. Aliás, falando em mestres, que os daí   onde fiz a pós graduação não nos ouçam: o que acontece por essas bandas  é aprendizado de verdade.
   Mãe na noite de natal estaremos em comunhão de pensamentos acredite. Saia e fixe seu olhar numa estrela, será nosso ponto de encontro,combinado?
   Seja feliz por aí! Deguste uma boa fatia de peito de peru com salada de alface  que sempre nos deliciou nos natais passados.  Abrace todo mundo e sorria, estou muito bem  entre parceiros formidáveis. Feliz Natal querida, até breve!!!!


Querido filho

   Tudo está preparado para mais um natal?  Espero que não esqueça o que   ensinei:   essa é uma ocasião em que tudo deve continuar acontecendo como toda  família sempre apreciou. Tenho certeza que a  vovó já colocou uma meia velha perto da janela, pro presente do papai Noel não é verdade?
   Incrível como a velhice se encontra com a infância, deve estar cada dia mais confusa e esquecida. Lembro das suas peripécias senis que me faziam hora chorar,  hora dar boas  gargalhadas.
   Querido sei que pelo seu modo de encarar as lutas diárias tem procurado dar conta de tudo. O papai não esquece de você um minuto. Ele é meio turrão você sabe, por causa dele fui obrigada a vir pra cá, mas fique tranquilo estamos bem. Existem várias oficinas de trabalho, no começo ele se recusou a aprender  ou participar de qualquer atividade, aos poucos no entanto esta se interessando por algumas modalidades. Eu estou sentindo um prazer imenso nesse aprendizado. Agora sei que, embora formada em  pedagogia, o quanto me faltava de conhecimento verdadeiro. Filho,  não quero que chore nesse natal. Vamos combinar um encontro? Saia um pouco antes da ceia, vá degustando uvas verdes, aquelas sem sementes, as nossas preferidas.  Olhe para o céu, procure  uma estrela bem brilhante. Será nosso encontro  combinado???
Amo você querido, amamos todos vocês. Feliz Natal, não esqueça o aniversariante!!!

                                  (...)

   Um vento morno agita  a folhagem, fazendo rolar sobre a grama verdinha folhas secas das azaléias floridas. Algumas tocam de leve os pés da senhora de cabelos branquinhos, que num sobressalto parece acordar de um breve cochilo.
-Desculpe achar graça, a senhora se assustou?
-Acho que dei uma  cochilada. Está tudo tão quieto por aqui, com a correria toda por conta do natal, essa calmaria acabou tomando conta de mim.
-Posso contar um segredo? De mim também, tirei uma pestana  antes de recomeçar a correria.  Estou me preparando para as comemorações que estão por acontecer. A senhora acredita que até sonhei com a minha mãe fazendo recomendações?
-Que coincidência,   também tive um sonho breve,  mas falando em recomendações preciso pegar o assado na padaria, é o prato predileto do  pessoal de casa. Meu menino mesmo estando distante não  gostaria que faltasse na mesa.
-Nossa, ainda bem que a senhora  falou nisso. Preciso me apressar,  o rapaz do mercado vai  fazer entrega lá casa. Recomendações da minha mãe: nunca esquecer as frutas frescas do meu pai e as uvas verdes sem sementes, nossas prediletas. Até logo senhora, feliz natal!
-Pra você também meu jovem, até logo!

                               (...)

  Ambos se afastam rapidamente deixando pra traz os confortáveis  bancos de madeira, onde tiveram instantes de recolhimento  no silêncio da pracinha florida,  em frente ao cemitério municipal.
   Saem com o olhos  ainda vermelhos pelas lágrimas derramadas há pouco. Ele em frente ao túmulo dos pais mortos em trágico acidente de carro três  anos atrás. Ela diante do túmulo do filho único vítima de uma grave doença no sistema respiratório.
   A algazarra dos pássaros procurando abrigo nas árvores ao cair da noite  vai ficando distante. Enquanto mergulham no mar de buzinas intermitentes e o cintilar das centenas de  luzinhas de natal,  os  dois vultos se misturam a multidão, cada um com o coração leve  pela lembrança boa do  breve sonho que tiveram sobre   uma carta de natal!!!!
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