quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Sol de Amanhã - Danny Marks


 Então, um dia, você descobre a solidão.

Antes ela se escondia atrás da porta do seu quarto, embaixo da cama, no armário.
Às vezes estava bem ali na terceira gaveta, por entre as folhas mal escritas, no livro debaixo das roupas mais intimas.
Mas um dia você descobre a solidão e ela se gruda em você como uma cola pegajosa e mole que se estica quando tenta escapar, mas que a puxa de volta como um elástico, de volta ao seu abraço nefasto.
E você passa a temer os abraços, de qualquer tipo.
E em cada trovão há uma tempestade devastadora; em cada nuvem e sombra, um monstro de fumaça tóxica que vai dissolver os seus ossos mantendo o restante intacto, de forma que você não possa mais se levantar, não possa mais se defender, não possa mais gritar ou mesmo correr.
De forma que você não possa mais.
E os dias se seguem, um após o outro, e algo duro se forma lá dentro.
Uma camada de gelo que recobre os seus sentimentos e entorpece, com o frio, os sentidos que antes eram tão vívidos.
Então um dia você descobre que a solidão também te protege de suas lágrimas, da sua dor, dos efeitos incertos do seu sorriso. Ela te protege do futuro que você não sabe mais qual será ou mesmo se vai chegar algum dia.
E como uma couraça que reveste o seu corpo, um exoesqueleto que a sustenta e a põe a andar sem ser tocada por nada, por ninguém, ela avança com e sobre você.
E tudo isso seria evitado se alguém, qualquer mãe ou pai, tivesse lhe dito que estava tudo bem.
Que você poderia sentir medo, e que realmente há um monstro nas sombras do seu quarto, escondido no seu armário ou embaixo de sua cama.
Que não há problemas em você sentir-se paralisada de vez em quando, e que sempre podem ocorrer tempestades que arrasem o seu mais belo jardim.
Alguém que lhe diga que não há problemas em temer o futuro de vez em quando.
Mas, que lhe diga, depois de tudo isso, que vai ficar tudo bem, e que a envolva em um abraço de liberdade, e lhe ilumine com um sorriso de sol.
Alguém que um dia lhe dirá que, sim, há verdadeiros monstros a solta no mundo e que isso é muito ruim, mas que você não deve achar isso normal, que deve combater com coragem a dor que possa surgir, e que jamais deve se tornar um monstro também porque há sempre melhores opções.
Nesse dia você lembrará de alguém, como eu, que lhe disse que não há problema em ter medo, e que a coragem é simplesmente a força que adquirimos enfrentando os nossos mais terríveis medos para fazer o que é certo, o que acreditamos.
E essa força, essa crença que alimentará você, levará para longe qualquer dor que possa sentir, e lhe demonstrará que não é por estar sozinha que você está só.
Que a solidão pode habitar dentro de nós e nos isolar de todos, ou de ninguém.
Então um dia você descobre a solidão e avança sobre ela e lhe tira a máscara sombria e a abraça como ela sempre desejou ser abraçada, e lhe dirá que está tudo bem, que tudo ficará bem, e que você jamais vai deixa-la sozinha de novo.
E nesse dia, vocês duas vão ver que sempre haverá um sol amanhã.


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