quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Homem que Queria Destruir o Natal - Danny Marks


 
(Publicado no E-book Natal Fantástico da Ed Infinitum - Organização Ademir Pascale e Gian Danton. 


                  O mensageiro aproximou-se do homem que bebia a cerveja distraidamente e puxou-lhe a manga da camisa estendendo o cartão. O homem nem olhou, fez que não com a cabeça, a mão aberta recusando qualquer coisa.
                O outro repetiu o movimento insistentemente, pouco ultrapassava o ombro do homem sentado que finalmente pegou o cartão sem ver quem o entregava e leu contrariado “Nelson, precisamos conversar. Nicolau”.  O Homem virou-se para perguntar ao mensageiro o que era aquilo, mas este havia desaparecido.
                Nelson rasgou o bilhete, pagou a conta e saiu do bar. Pouco depois esperava o semáforo liberar a travessia quando sentiu puxarem sua camisa novamente, outro cartão lhe era oferecido pelo mensageiro.
 “Nelson, precisa me ajudar. Nicolau”.
                — Mas que... — parou ao ver que o mensageiro havia desaparecido novamente. Alguém daquele tamanho poderia se misturar facilmente na multidão, mas não com aquelas roupas. Nelson riu consigo mesmo, alguém deveria estar querendo lhe pregar uma peça.
                — Alguém deveria atender meus pedidos, para variar. — resmungou para si mesmo.  
                Odiava essa época do ano, deixava-o de mau humor.
                Jogou o papel na lixeira mais próxima. Não conhecia nenhum Nicolau.
                Ouviu um resfolegar ao seu lado e assustou-se.  Um maluco havia resolvido se fantasiar de Papai Noel e sair com um trenó puxado a renas em plena cidade. Dois anões abriram as portas do trenó e colocaram uma escada enquanto o velho gordo sorria-lhe por entre a longa barba branca.
                — Nelson, entre, não temos muito tempo.
                Atordoado não pensou no que fazia, simplesmente sentou-se ao lado do velho gordo, seguido pelos anões. As pessoas pareciam não dar importância ao espalhafatoso veículo, mas o que mais o assustou foi quando alçaram voo, liberando o transito.
                Pouco depois, não sabia como, estava pousando em frente a uma modesta casinha encravada no alto de uma encosta rodeada de arvores. Anões brotaram de vários lugares e cuidaram do trenó e das renas.
                Nelson não sentia frio, embora usasse uma roupa leve.  Comeu dos biscoitos que lhe eram oferecidos por uma idosa senhora e sentou-se em uma das cadeiras de encosto alto que cercavam a mesa de madeira.  Sentia-se completamente à vontade no que, parecia-lhe, ser um sonho.
                — Noel, por que demorou tantos anos para aparecer? — Não havia mal algum em ser grosseiro em um sonho alcoólico qualquer.
                — É uma longa história, Nelson, mas vou ajuda-lo a realizar seu desejo, se você me ajudar com o meu.
                A senhora e os duendes que fingiam se ocupar com outras coisas simplesmente pararam como atingidos por um sopro enregelante, mas logo continuaram a fazer o que pareciam estar fazendo.
                — Isso é ridículo. — riu Nelson, mas ao ver o rosto dos que o cercavam mudou de ideia — Estou morto e isso é a punição pelos meus pecados contra o Natal?
                — Não é nada disso, meu filho.  Preciso de sua ajuda porque não há nada que eu possa fazer para mudar as coisas, mas acredito que a solução possa estar em suas mãos.
                — Está de brincadeira? Gente, o Noel resolveu ME pedir ajuda? Escuta velho, não sei o que está acontecendo com minha cabeça, mas é bom que saiba; se pudesse, acabava com o Natal. Entende? Ainda quer minha ajuda?
                — Realmente, e se me ajudar posso lhe dar esse poder.
                — Se pode fazer algo assim, para quê precisa de mim? Faça-o você mesmo.  
                — Não entende, só posso atender ou negar pedidos. É complicado. Nelson, ajude-me, por favor.
                Nicolau deixou sua cabeça pender sobre a longa barba que encobria a parte superior da barriga. A senhora e os duendes vieram juntar-se a ele para fechar a cena trágica.
                Nelson há muito não se comovia com o Natal, as cenas ensaiadas e levadas a termo pela imensidão de farsantes no mundo todo. Pensava que seu inconsciente lhe dava justificativas para seu desejo de acabar com a farsa.
                — Quer saber, não sei para quê precisa de minha ajuda, mas o que deveria fazer era contar a verdade para todos. Ora que se dane, eu ajudo você e depois acabamos com o Natal.
                Nicolau levantou o olhar brilhante para Nelson, havia um largo sorriso no seu rosto.
                — Eu sabia que você seria a solução...
(...)

                Nelson não era o mesmo homem de dias atrás quando aceitara o seu encargo, mas, a menos que revelasse, ninguém notaria diferença.  A apresentadora estava aterrorizada embaixo da sua bem construída máscara social. Não era para menos.
                Há apenas alguns dias ninguém sabia quem era aquele homem, até que começara a falar publicamente sobre a farsa que envolvia o Natal.
                Convencera tabloides locais a darem voz ao seu discurso. A Verdade abria portas que muitos preferiam manter fechadas; por outro lado, sempre haveria os que queriam dar vazão ao seu ressentimento, sua frustração, e o discurso de Nelson servia-lhes bem.            
A notícia se tornara viral na internet chamando atenção até nos lugares mais remotos do mundo. Em vários idiomas, ele discursara de forma contundente provocando reações diversas. Médicos tentaram diagnosticar algum distúrbio psicológico que pudesse apresentar; não conseguiram.  Governos tentaram bloquear os seus vídeos; só aumentaram o interesse. Empresas tentaram se apropriar de seus discursos para lucrar mais; sofreram protestos do publico. Grupos extremistas tentaram alicia-lo; tiveram suas ideologias desmascaradas.
A Verdade derrubava a todos impiedosamente.
                Qualquer um que tentasse aproveitar-se da situação via-se imediatamente compelido a falar a verdade sem restrição. Segredos íntimos, comprometedores, firmemente guardados, eram revelados pelos seus guardiões tão logo tentavam usar as palavras de Nelson em interesse próprio. A verdade rompia as barreiras e não parava mais.
                Casamentos foram perdidos, sociedades e pactos foram desfeitos, empresas faliram e carreiras foram destruídas, assassinos se entregaram às autoridades de quem se escondiam, governos caíram.
Em qualquer lugar quem se posicionasse contra o Mensageiro sucumbia diante dos próprios pecados auto revelados.
                Em alguns dias Nelson deixara o anonimato para se tornar a pessoa mais temida e menos comentada do mundo. Ninguém se atrevia a contradizê-lo, ou apoia-lo.
                Nelson suportava o peso das verdades inconfessáveis sobre ombros magros. Quase não dormira ou se alimentara naqueles últimos dias, que pareciam séculos para ele. Cada vez falava menos, e menos lhe perguntavam.
                Faltava apenas dois dias para a véspera de Natal e ele convocou uma coletiva de imprensa.  Um imenso anfiteatro foi equipado com os mais sofisticados equipamentos de transmissão, ocupado plenamente por repórteres de todos os lugares do mundo.
Independente de ideologias políticas e religiosas, as pessoas aguardavam as palavras do “Homem que queria destruir o Natal”, como já o chamavam.
                Sentado em uma confortável poltrona diante da repórter que escolhera para fazer a sua ultima entrevista, reproduzido no imenso telão para que todos pudessem ver cada mínimo detalhe de sua postura, Nelson exibia a mesma roupa simples que dias atrás usara, quando sua vida mudara para sempre.
                Depois das desnecessárias apresentações a repórter deu início à entrevista com perguntas feitas e selecionadas pelos repórteres presentes.
                — A pergunta que mais se repete é “por que o senhor quer destruir o Natal?”.
        — O Natal não existe mais, o que peço é que a farsa acabe. Assumam que estão interessados em ganhar dinheiro vendendo coisas inúteis por preços exorbitantes. Necessitam de uma boa desculpa para se drogarem, beberem e comerem além de qualquer limite? Podem fazê-lo, mas não tornem isso um exemplo a ser seguido. Nunca foi preciso um dia específico para perdoar os que lhe ofenderam, amar os que se distanciaram, desejar o melhor para os que estão próximos. O que estão ensinando às suas crianças? Quais valores desejam que elas tenham quando forem cuidar de vocês?
                — Mas o senhor é contra que haja um dia em que as pessoas tenham esperança de um futuro melhor?
                — Alguma vez se perguntou por que a Esperança estava na Caixa de Pandora junto com os maiores males da humanidade? O futuro é feito hoje, nas relações que se constroem. A superficialidade torna raso o futuro que estão construindo para vocês mesmos.
                — Então o senhor acredita que não há verdadeiramente o espírito de natal?
                — Pelo contrário, sei que há e muitos ainda o vivenciam. Mas a cada dia se rendem a restringir essa vivencia a um único dia, como se houvessem perdido a batalha de salvar a humanidade, mas nunca lhes foi pedido fazer mais que dar o melhor de si e receber o que lhes era ofertado, com alegria. Presentear não é trocar valores, é doar dádivas, e isso deve ser feito diariamente.
                — Não compreendo. O senhor diz que devemos todos parar de comemorar o natal, mas ao mesmo tempo diz que seria melhor se as pessoas vivenciassem o natal durante o ano todo? Não é contraditório?
                — Contraditório é promover guerras em nome da Paz, promover a intolerância religiosa em nome de Deus, promover a discriminação em nome da aceitação das diferenças. Contraditório é ignorar uma pessoa durante o ano inteiro e no dia do seu aniversário, fazer uma grandiosa festa. Contraditório é dizer que o espírito de natal só vive por um dia e nada mais. Querem comemorar? Então o façam pelos motivos certos. O Espírito de Natal não se importa de morrer pelo que acredita, mas não o usem como desculpa para seus interesses pessoais. Querem um bom presente de Natal? Ofereçam a verdade dos seus sentimentos, o valor dos seus atos, embrulhados nos laços do seu relacionamento. Ou simplesmente deixem essa bobagem de lado.
                — O senhor pode nos dizer por que só agora decidiu apresentar para o mundo suas ideias sobre o natal e como ele deveria ser conduzido?  O que pretende conseguir com tudo isso? Mudar a humanidade?
                Nelson ficou parado, mudo diante dos repórteres.  Enquanto todos aguardavam sua resposta ele desvaneceu-se lentamente até desaparecer para nunca mais ser visto.

(...)

                — Estava errado. Achei que poderia fazer a diferença, deixei que minha revolta me guiasse e acabei me defrontando com a minha verdade. Como fui tolo.
                Nicolau deixou que Nelson desabafasse antes de lhe passar uma xícara de chocolate quente e servir-se de outra. Estavam sentados de frente para a janela, olhando os flocos de neve caindo suavemente.
                — Não se sinta assim, Nelson. Já reparou que não existem dois flocos de neve iguais, embora todos provenham da mesma fonte? Estou satisfeito com o seu trabalho. Obrigado.
                — Queria que as coisas tivessem mudado. Não podia suportar o que estão fazendo com o Natal. Uma única pessoa não vai mudar tudo, não é?
                Nicolau sorriu, havia retomado ao seu antigo vigor nos últimos dias e naquela casa todos creditavam o fato a Nelson, eram-lhe gratos por isso.
                — Não, meu querido amigo, as coisas não são tão simples assim. Mas uma pessoa pode fazer toda a diferença quando aponta um caminho a seguir. Você fez com que as pessoas parassem para refletir, ouvissem os seus corações e se confrontassem com a verdade que há neles. Isso terá que servir por enquanto. Dê-lhes tempo, acredite neles.
                — Eles não acreditam em você.
                — Mas eu sempre vou continuar acreditando neles, e em você, Nelson.
                — Nunca mais vou poder voltar a minha vida anterior.
                — É verdade. Quando se entra em contato com o verdadeiro Espírito do Natal, ele nunca mais nos abandona. Sua vida anterior pertencia a outra pessoa que não é mais você, mas posso dar um jeito nas coisas. O que deseja de presente de Natal? Peça qualquer coisa.
                — Bem, estive pensando por todo esses dias...
                — Diga, meu filho, o que mais deseja?
                — Você tem lugar para mais um ajudante na sua fábrica?
                Nicolau riu alto, como há muito tempo não fazia, e sua alegria contagiou aos que vivem todos os dias o Espírito de Natal.
                E isso era tudo o que precisava ser feito.

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