sábado, 15 de outubro de 2016

Qual é a sua Narrativa? – Danny Marks

  
          Você já deve ter ouvido essa história em algum outro momento, mas não exatamente desta forma. Calma, não perdeu o início do texto, é assim mesmo, a questão está em que as narrativas raramente são totalmente originais, isso porque desde tempo pré-históricos elas são utilizadas – fazem parte de nossa trajetória civilizatória – e fica difícil, depois de tanto tempo, criar coisas novas.
            Um outro fato interessante é que usamos narrativas para praticamente tudo, desde ensinar valores morais que sejam úteis a sociedade, até comandar exércitos e seguidores contra um determinado inimigo. As possibilidades de uso das Narrativas são infinitas e a cada dia descobre-se mais modelos e usos que antes não haviam sido investigados, embora as mais famosas sejam no meio artístico, como expressão de sentimentos e concepções, retratando justamente as sociedades que ajudaram a criar e a desenvolver.
            Mas o que é uma Narrativa afinal? Fugindo de todos os tecnicismos possíveis poderia definir a narrativa como a exposição sequencial de fatos – reais ou imaginários – sob um viés interpretativo que possui intencionalidades, expressas ou não, nos conteúdos apresentados de forma a criar uma perspectiva parcial orientada. Ainda muito complicado? Ok, vamos fugir um pouco mais das questões técnicas. Uma Narrativa é uma forma de alinhavar fatos reais ou imaginários sob uma perspectiva particular com a intenção de orientar a percepção do outro. É, não melhorou muito, então vamos a um exemplo:
            — Diz-me com quem andas, que te direi quem és.
            Essa expressão extremamente popular está enraizada na base da nossa formação psicológica e pode ser traduzida em infinitas possibilidades e usos. Basta que pense em uma linguagem não formal, aquela que não usa palavras. Pense em, por exemplo, cantores de Rap. Eles vão ter uma determinada “atitude”, um determinado tipo de vestimenta, um determinado vocabulário, um determinado estilo musical, tudo isso define os adeptos desse grupo. O mesmo vale para surfistas, para empresários, para advogados, para políticos, para donas-de-casa, para qualquer classe social, geográfica, racial, etc.
            Nosso cérebro evoluiu para identificar e usar padrões classificatórios, era uma vantagem quando a velocidade que se identificava um predador ou um aliado significava viver ou morrer. Portanto sempre buscamos nos mesclar com os grupos que nos dão a sensação de segurança e absorvemos automaticamente padrões de comportamento desse grupo em oposição a todos os outros. Ou seja, as pessoas com quem me identifico, dizem muito sobre quem sou e onde quero chegar, ou “diz-me com quem andas que te direi quem és”.
            Mas o que isso tem a ver com a Narrativa? Basicamente tudo. Da mesma forma que identificamos padrões para sobreviver, criamos narrativas dentro desses padrões interpretativos para auxiliar nessa identificação de aliados e predadores. Essa tendência de seleção de fatos interpretados que permita a assimilação mais fácil dos padrões é que criam as narrativas. Associamos determinadas atitudes a determinados grupos e pressupomos que todos os integrantes assumam as mesmas possibilidades de ação em situações semelhantes, em outras palavras, criamos uma narrativa para cada conjunto de ações que determinam previamente uma tendência quase que irrevogável.
            Contra fatos não há argumentos, certo? Errado. A narrativa é feita de fatos escolhidos e alinhados dentro de um argumento que vai ser utilizado de forma a obter um resultado objetivado. A forma como escolho os fatos que vou ressaltar ou omitir, a sequência e velocidade que vou apresenta-los, são determinantes para construir o meu argumento de forma que crie uma tendência de assimilação dos mesmos como sendo a expressão da verdade que quero demonstrar. Portanto, fatos interpretados são na verdade argumentos disfarçados em verdades incontestáveis e totalmente convincentes de acordo com a habilidade utilizada na construção da narrativa.
            A forma mais utilizada para impedir que uma narrativa nos conduza onde quiser e nos faça agir sem refletir profundamente sobre os padrões é contrapor com uma narrativa igualmente consistente – com fatos interpretados sob um viés contraditório de forma a anular a assimilação automática da narrativa e obrigar uma reflexão sobre os fatos sem interpretação que são a base da verdade.
            Claro que em tempos em que a internet aumenta a facilidade com que os fatos são apresentados e versões sobre eles são divulgados aos borbotões isso não ocorre. Estamos vacinados das narrativas por quantidades homéricas de fatos apresentados por infinitas fontes e não vamos cair jamais em armadilhas argumentativas das narrativas criadas exclusivamente para direcionar pensamentos e ações, certo? Errado de novo. A internet tornou ainda mais fácil a construção de narrativas justamente pela inundação de dados interpretados que criam um caos interpretativo e a única solução para não enlouquecer com tantas versões da mesma sequência narrativa é justamente apoiar-se em padrões aglutinadores, a versão do grupo ao qual pertencemos.
            Quando observamos uma narrativa sendo elaborada, identificamos em primeiro lugar qual a fonte, em que grupo ela foi criada – e, na atualidade, as narrativas mais relevantes são criadas e desenvolvidas no meio de grupos amplamente estruturados e, na maioria das vezes, opositores – antes de nos posicionarmos contra ou a favor dela – sem precisar refletir muito sobre a narrativa, porque é preciso estar livre para a infinidade de outras narrativas que estão sendo produzidas a todo momento.
            Assim, a internet tem desenvolvido tipos de comportamento grupal que extrapolam os limites geográficos e as tendências comportamentais locais. Aprendemos constantemente a nos redefinir pelos grupos que possuem maior quantidade de características semelhantes às nossas. Ainda buscamos pertencer a grupos, mas atualmente os filtramos não pelo que podemos verificar em tempo real, mas pelas narrativas que esses grupos produzem, pelo comportamento geral e específico de seus indivíduos, que pressupomos serem livres em suas expressões, como nós mesmos.
            Cada vez mais nos identificamos com o que as pessoas dizem ser – mesmo que não sejam – do que com atitudes reais e concretas. Nos identificamos com as narrativas chamadas de “discursivas”, ou apenas Discursos, que permeiam cada grupo como uma regra consensada e não escrita ao qual nos filiamos ou nos posicionamos contrários. A generalização e superficialidade necessárias desses discursos é contida apenas pelas contribuições individuais daqueles que acabamos por definir como representantes do grupo todo, e quanto maior o nível de influência externa, maior o poder desse indivíduo na construção do Discurso do grupo ao qual nos filiamos ou contra o qual combatemos.
            Antes havia sempre um único macho alfa e uma fêmea alfa no grupo – os chamados líderes que poderiam ser contestados de tempos em tempos dentro das premissas do próprio grupo – que seriam seguidos incontestes em casos onde a sobrevivência grupal estivesse em jogo. Pertencer a um grupo quase que automaticamente o excluía de todos os outros por uma questão puramente física – a impossibilidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Atualmente as coisas são mais complexas e podemos fazer parte de diversos grupos que não sejam completamente antagônicos e seguir ou ser o macho/fêmea Alfa do momento, já que os papeis grupais são mais líquidos e se moldam com a situação e o envolvimento.
            O fato de que é possível construir a própria narrativa virtual com base apenas em um Discurso apresentado sem necessidade de provas concretas, torna ainda mais evidente que podemos ser uma coisa e nos apresentar de outra forma, ou seja, podemos pertencer a dois grupos antagônicos com discursos completamente opostos e ainda ser aceitos por ambos como sendo verdadeiros, até que se prove o contrário. A internet possibilitou a construção de narrativas que neguem os fatos reais com fatos imaginários bastando para isso manter o Discurso certo nos momentos em que é necessário.
            Por isso a confiabilidade individual e grupal se tornou mais essencial do que o próprio discurso propagado pela narrativa. Vou seguir um Discurso enquanto ele for fiel nos atos a si mesmo, e se em algum momento trair uma parte de si com atos ou palavras ao que anteriormente – e existem registros disso, facilmente acessíveis – ditos ou feitos, vou invalidar completamente o Discurso e o Grupo, desconsiderando inclusive todo o histórico anterior que comungava com minhas identificações, ainda que muitas dessas se mantenham. A integração ou desintegração do Grupo não está ainda mais vinculada ao Discurso, mas ao seu principal e atual fomentador.
            Portanto, na atualidade, não é preciso atacar diretamente todo o grupo, apenas o seu líder mais influente na questão mais sensível do Discurso, a credibilidade de sua narrativa. Com a mesma facilidade que se pode criar uma narrativa e aliciar diversos grupos dentro de um Discurso que os englobe, também pode-se destruir completamente o Discurso criando uma narrativa que ataque diretamente a credibilidade de seu principal produtor, o “rosto” do Discurso.
            Apesar de ser simples na apresentação dada, a complexidade e a periculosidade desse tipo de sociedade fundada em narrativas, vai além do que é normalmente divulgado, até porque isso poderia criar um caos maior ainda se não houver algo que o substitua de forma eficiente e rápida, e até o momento isso ainda não foi desenvolvido. Para o bem ou para o mal a guerra de Narrativas está cada vez mais forte no mundo atual e se desenvolvendo assustadoramente em complexidade. Não é por acaso que se possa observar uma radicalização em vários segmentos sociais, é apenas um efeito subliminar desse retorno a estratégia de “diga-me com quem andas que te direi quem és”.
            Quanto mais avançamos nas construções narrativas dos Discursos veiculados ao longe, mais nos afundamos no “regionalismo concreto” que nos define, porque podemos ao menos vivenciar os fatos – por mais aberrantes que nos pareçam, são reais o suficiente para que possamos comprovar sua existência concreta em contraposição a virtualidade confusa de infinidade de “versões” – e nos posicionar diante deles.
A crise de confiança que permeia os Discursos - cada vez mais elaborados e esquematizados para produzir efeitos significativos dentro de esquemas psicológicos pré-definidos – nos empurra na desconstrução da identidade grupal em direção ao individualismo concreto e a construção de uma máscara social que serve como escudo e que tem sua confiabilidade construída não por bases reais, mas de acordo com as necessidades de sobrevivência grupal.
Assim nos dividimos entre o concreto e “real” que vivenciamos e o “virtual” onde testamos a nossa narrativa pessoal antes de a apresentar no mundo real, ou apesar de não o fazer. No virtual podemos até ser outra persona que na verdade não somos, mas gostaríamos de ser e que se contrapõe ao que de fato somos enquanto agentes da realidade em que vivemos. Essa ruptura de identidades pode gerar sérias crises existenciais e até a perda de uma auto definição que leva a consequências imprevisíveis.
            Obviamente é possível combater essa guerra de Narrativas Discursivas de forma eficiente, mas para isso seria necessário a construção de um novo tipo de conhecimento que a cada dia – de forma intencional ou não – vem sendo minado em suas bases e desconsiderado em sua importância. Esse conhecimento tem suas raizes justamente na mesma área que cria as Narrativas, é a Análise Discursiva. Não é interessante que na mesma velocidade e intensidade que se criam Narrativas Globais que determinam os rumos de toda uma sociedade, cada vez mais se busca diminuir a importância da interpretação de textos, do estudo das construções narrativas, da análise discursiva nas obras clássicas?
            Isso ocorre porque quanto mais as pessoas conseguirem observar e separar os fatos das suas interpretações, mais complexas terão que ser as narrativas para conduzir os pensamentos e interpretações e mais sólidos e reais terão que ser os Discursos para que permaneçam com a credibilidade que lhes dá força. Em um tempo em que qualquer um pode escrever um livro e publicar conteúdo sem o mínimo conhecimento técnico necessário, banalizando algo essencial a construção da sociedade, cria-se o envenenamento da única ferramenta que pode construir uma sociedade forte e saudável onde os seus indivíduos podem se sentir seguros e se identificar no contexto.
            Não sou contrário que haja um aumento de publicações e uma diversidade de narrativas ficcionais, pelo contrário, isso permite uma ampliação de leitores de novos modelos narrativos, o que é fundamental é que haja a capacitação desses novos autores para que possam, eles mesmos, serem críticos em seu olhar acerca dos fatos e não passem apenas a reproduzir narrativas infundadas validando-as até que sejam desmontadas e desapareçam completamente. Reveja, se necessário, a parte em que comento sobre o risco de se destruir uma narrativa complexa apenas destruindo a credibilidade do “rosto” do discurso, que pode ser apenas um autor inexperiente que o reproduziu sem aprofundamento necessário. Não apenas a carreira desse novo autor, mas todo o discurso que apoiava em suas narrativas, passa a ser invalidado, apesar de poder conter coisas importantes e verdadeiras, junto com outras inverossímeis que serão apontadas e generalizadas na sua destruição.
            Antes queimava-se ou proibia-se livros para que não houvesse “contaminação” da Narrativa Oficial, atualmente com a internet isso seria impensável e impraticável, então faz-se o caminho oposto. Cria-se tantas narrativas superficiais ou complexas que possam ser desmontadas dentro de um plano estratégico que invalide todo um conjunto ao qual tenham se vinculado mantendo apenas a Narrativa Oficial que passa a ser a única confiável dentro da interpretação que se quer dar. Não é mais necessário – ou possível – destruir uma obra literária relevante, mas tornou-se fácil criar uma enxurrada de obras irrelevantes e banais de forma que aquela significativa se afogue no mar de possibilidades e apenas a que se mantem artificialmente pela força da divulgação constante é que sobrevive, e – como todos sabemos – quem detém a capacidade de divulgação, detém o poder de determinar a narrativa.
            Pelo que foi apresentado, pode-se afirmar que o mundo do futuro depende não de novos líderes que orientem seus grupos, já que estes podem ser desenvolvidos artificialmente, mas da capacidade individual de interpretar textos para identificar os verdadeiros líderes e as intencionalidades escondidas em seus discursos para poder se posicionar a favor ou contra. É na busca pelos fatos reais e na capacidade de interpreta-los por si mesmo que se consegue a sobrevivência na era dos discursos enganosos.
            E, então, qual é a sua Narrativa?
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