sábado, 22 de outubro de 2016

Dez Reais para Zé Bigode - Danny Marks


       Quando se mora em uma cidade turística litorânea, acostuma-se com a sazonalidade populacional que acomete determinadas épocas como chuvas de verão. Costumam vir ruidosas, rápidas, transbordantes, atrapalhando todos os planos e, depois, quando se vão, deixam muito lixo e bagunça expostos.
          Claro que para determinados tipos de pessoas, como políticos – que lucram com os impostos e popularidade, comerciantes – que lucram com a venda de produtos para pessoas que não estão preocupados com o dinheiro, e escritores – que desconhecem a palavra lucro, mas acabam conhecendo novos personagens –, sempre há algo de bom nesse fluxo humano.
          Foi assim que conheci um personagem urbano inusitado, não há palavra que o descreva melhor, chamado popularmente de Zé Bigode. Não que seja esse o nome real, se é que ainda lembra de ter algum, seja pela embriaguez, seja pela demência leve que demonstra, seja porque é difícil para uma pessoa em “situação de rua” – sempre me intrigou esse eufemismo moderno para a arcaica palavra mendigo – manter uma identidade. Situação de rua na minha opinião deveria ser algo como assalto, manifestação, essas coisas, mas enfim, não vamos fugir ao tema.
          Um mendigo de bigode não é algo inusitado, a menos que os mantenha enrijecidos e curvados à Salvador Dali, quase sem barba – me pergunto onde consegue laminas para a fazer. Mas essa particularidade que lhe dá nome só é vista por último, depois que se repara nos trajes: um paletó de terno a cobrir nada além da pele curtida pelo tempo em seu duplo sentido e pelos brancos no peito, a servir de leito para a gravata, uma calça que já viu tempos melhores – com um corte lateral – e um pé de sapato – o outro leva uma garrafa pet amarrada com trapos que podem ter sido a camisa ausente.
          Zé Bigode é aquela espécie de turista que não agrada políticos ou comerciantes, que tentam a todo custo mantê-lo longe, mas que de alguma forma acaba se tornando mais uma exótica parte do espetáculo público, depois que se vence o impacto inicial. Sempre limpo, apesar de sua situação restritiva, caminhando pelo calçadão com ar majestoso como a verificar se os jardins e os equipamentos de seu lar de verão estão em bom estado, escolhe ao acaso alguém e lhe pede, sem qualquer apresentação prévia:
          — Dez reais!
          Não pede nada diferente disso, seja valor ou outras coisas. Sempre “dez reais”. Também não aceita que alguém que não tenha sido solicitado lhe ofereça donativos, apenas a pessoa – que pode até se tornar intermediário na transação – pode contempla-lo com qualquer valor, até mesmo os dez reais solicitados.
          Quando alguém o faz solta, em um tom de voz que não admite questionamentos, alguma de suas frases emblemáticas que, junto com as vestes e o bigode, o tornam tão popular. Feito o seu espetáculo retira-se como se nada houvesse interrompido o seu passeio, deixando apenas o som do mar e o silêncio abismado das pessoas.
          Claro que para um escritor ser escolhido por uma figura assim, inusitada, é como encontrar um dos personagens refugiados da ficção na curva de uma esquina que se vira de forma automática. Mas como não adianta nada tentar impor à Zé Bigode a sua presença, que será ignorada completamente, resta apenas aguardar que a sua loucura seja identificada e atraia a atenção. Por isso sempre que Zé Bigode está na cidade ando com dez reais no bolso, feito moedas para o barqueiro.
          E quando menos se espera, coisas acontecem. Projetando um raio de luz sobre as divagações em um banco de jardim público, chega a voz imperativa que o coloca no centro de um palco improvisado, no momento em que todos os roteiros possíveis estão descansando em algum lugar distante.
          — Dez reais!
          Rapidamente se forma um pequeno público a observar o estranho, talvez um turista que não conhece o costume. Diversos se preparam para fornecer suprimentos para o estranho, apenas para poder participar como coadjuvantes desse espetáculo popular sem hora marcada.
          Saco da bolsa, onde carrego a leitura do momento, a oferenda exigida pelo arauto dos novos tempos e tiro dos fones a trilha sonora que sempre me acompanha, para dar vazão a ansiedade na audição do vaticínio do oráculo moderno. Ele recolhe rápido, sem olhar, o valor ofertado que é displicentemente jogado no bolso esquerdo e proclama:
          — Fantasmas pertencem ao passado, só espíritos habitam o futuro.
          Comungo, provavelmente com o pequeno público que poderia até aplaudir se não estivessem tão ou mais aturdidos que eu, com as palavras. Vai-se o momento, vai-se Zé Bigode, vão os dez reais, vão os expectadores; cada qual pegando seu destino em direções opostas preenchidos por sentidos, fico sozinho com palavras e percepções.
          Reflito se as pessoas terão entendido o que disse aquele arauto do submundo, se cheguei a alcança-las em sua profundidade. Caronte deve estar a sorrir sob o capuz que lhe é peculiar. Olho para o horizonte e lá está a conversar animado com flores do canteiro, ouvintes cativas que nada lhe devem, antes de descer a rampa que conduz para o mar. Não o vi desde então, ainda calam em mim as palavras que se justificaram pelo valor dado, e mais.
          Teria Zaratrusta abandonado sua caverna e, rindo-se do escritor que tenta ver o mundo com olhos críticos de esperança, atira-lhe ao rosto realidades tantas vezes vivenciadas e não percebidas? Ao passado pertencem os fantasmas, só aos espíritos permite-se almejar o futuro. Poderia facilmente escrever uma tese, artigos, textos e peças teatrais a partir desse mote, mas logo sou invadido por percepção amarga que rouba o ímpeto.
          Jamais voltarei a ver Zé Bigode, ouvir sua louca sabedoria. Terá se tornado fantasma que permanecerá no passado, zombando do futuro e seus espíritos imaturos. Não podendo dividir direitos autorais com um fantasma, resta-me apenas o registro que, talvez, avise os espíritos de que há caminhos tortos no rosto da realidade – que nos assombra com sua síntese, e que se vai sem ligar para o que fazemos com o que nos deixa.
Só valemos dez reais de sua atenção, e nada mais.
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