domingo, 2 de outubro de 2016

Formador de Opinião - Danny Marks


          Tem aqueles dias que você precisa de uma opinião, mas não encontra. Aconteceu comigo dia desses, o jeito foi tentar ir lá na esquina para ver se encontrava alguma que se ajustasse ao que precisava.
          Na esquina sempre tem alguém com opinião, é uma lei quase que universal isso. Antigamente era nos cantos que ficavam as opiniões, lembra? Aquela professora centenária que já olhava por cima dos óculos com ar de toda a sabedoria dos campos de batalha e declarava: Pegue a sua opinião e vá lá para o canto pensar no que está fazendo. E acrescentava implacável: E de costas para os outros que ninguém está interessado na sua opinião.
          Tempo bom, aquele. Hoje não se faz mais isso, dizem que traumatiza, que bobagem. A verdade é que agora as opiniões vêm de longe. Da China ou da Índia, onde se fabricam opiniões aos montes para distribuir para o resto do mundo por um preço bem abaixo do que as que são produzidas “in Loco”.
          Opinião viajada, para todos os tipos e gostos. Dizem que por lá não fica quase nenhuma, mandam todas para fora, para manter o controle, de qualidade. Enfim, o importante é que sempre que se precisa de opinião, pode-se recorrer à esquina que lá tem. Eu precisava muito de uma.
          Cheguei lá o cara já foi logo tentando me empurrar uma opinião pronta, como se eu fosse algum otário que aceita as coisas assim facilmente. Comigo não! Vou logo apontando o problema. “Essa roupa vermelha? Que é isso? Está tirando uma com a minha cara? ”.  Logo fica todo condescendente, percebe que sou dos que tem cacife para coisa mais alta. “Desculpe, Senhor. Prefere azul? Não? Já sei, o senhor tem jeito de quem gosta de um verde com alguns detalhes em amarelo. Acertei? Pois é, está muito na moda agora. O senhor tem bom gosto. Ora se tem. ”.
          Tira a roupa vermelha e pega outra verde e amarela no saco em que tinha todo tipo de cores. Quem seria a coisa que pegaria aquele rosa choque com purpurina? Algum artista? Droga, quase deixo escapar o detalhe. “Essa esquerda está com defeito. Não vou querer levar isso não”. “Nossa, não é mesmo? O senhor tem bom olho, percebeu logo de cara. Espera que vou trocar. Prefere duas direitas? Não? É, acho melhor não, acabam brigando entre si. Espere que vou dar um jeito. Já sei o que o senhor precisa, um minutinho. ”. Reforma daqui e reforma dali até que a opinião ganha ares mais equilibrados. Fica melhor assim. Qualquer coisa a roupa disfarça alguma imperfeição que possa ter escapado por baixo dos panos.
          Olho o relógio preocupado, o tempo passa e nada da opinião estar pronta. Daqui a pouco nem adianta mais. Dou uma olhada no trabalho que ele está fazendo e vejo que já tem alguma articulação. Isso é bom, todos gostam de uma opinião bem articulada. Dá para você levar ela para um lado ou para o outro, de acordo com o momento, fazer parecer diferente só mexendo um pouquinho.
          Ele dá uma escovada bem forte para tirar uma poeira imaginária, passa um produto nas superfícies expostas para dar uma lustrada e o conjunto todo fica maravilhoso, aspecto novo. Estou impressionado com a habilidade, vou recomendar para os amigos quando precisarem de opiniões. Guardo um anuncio na manga sem que ele perceba. É importante ter sempre um cartão na manga quando se lida com fabricantes de opinião.
          Já ia embalar para me dar, mas peço que espere. Vou conferir melhor. Há coisas que só se veem quando estão na nossa mão. Dito e feito, logo percebi o engodo. “O que é isso meu amigo? Está vendo aqui? Made in China! Está de brincadeira comigo? Estou pagando caro pela opinião e o senhor me vem com um produto de segunda? ”.
          Peguei-o de jeito. Comigo é assim, não dou mole com as opiniões. Se é para ter uma, que seja o melhor que se pode ter. Percebe que não vou aceitar ser enganado, nem tenta. Emputecido pega a opinião e arranca o selo deixando de lado, vai acabar passando para algum outro trouxa, tenho certeza. De baixo do balcão pega uma caixa fechada à chave. Abre e tira de lá outro selo, sem deixar ver o que mais tinha, uma arma creio eu, não me intimido. Me mostra antes de aplicar para que veja: Made in USA. Agora sim. Aplica o selo de qualidade na opinião e finalmente embrulha.
          Coloca na sacola uns confetes, de brinde pelo constrangimento. Pega o dinheiro que desaparece rapidinho. Quando vê que estou satisfeito com a minha opinião elogia: “O senhor é um grande formador de opinião! ”. Dou risada e confirmo, já está fazendo efeito. Não há nada melhor do que ser reconhecido pelo que se tem.

Opinião é tudo, hoje em dia!
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