quinta-feira, 7 de abril de 2016

Uroborus - Selene Ferreira




Uroboros – Danny Marks

              Você está bem? Você está bem? Fica estranho fazer essa pergunta para você. É uma pergunta que se faz quando se sabe que o outro não está bem, na verdade. As pessoas costumam perguntar isso na esperança de que o outro minta e diga que sim, está tudo bem. Mesmo quando não está. Normalmente não se quer saber dos problemas do outro, apenas se está tentando manter uma conexão, algum link onde possamos enviar os nossos problemas, as nossas dúvidas, nosso prazer, nossa dor, qualquer coisa, para algum lugar e imaginar que está sendo recebido aumentando o alcance do que é apenas nosso. Mas, as vezes isso não funciona, cai-se em um buraco que vai sugando a atenção, exigindo cada vez mais da conexão e entupindo as pretensões até que é necessário derrubar a rede inteira, explodir alguma bomba que quebre definitivamente o vínculo. Por algum tempo. Depois é só pedir desculpa, e inventar algum motivo para o ocorrido, e tentar tudo de novo. Você está bem?
              Há um problema no mundo e poucas pessoas percebem isso. Bilhões de pessoas tem problemas no mundo. Dez por cento dessas pessoas comandam o mundo e gerenciam seus problemas como se fossem recursos. Um por cento dessas pessoas sabe realmente o que estão fazendo e orquestram todo o resto. E nenhuma dessas pessoas sabe qual o problema de verdade, não percebem nada além do que eles mesmos criaram, ou se envolveram, ou projetaram, ou partilharam com...
              Poder. No fundo tudo se resume a isso. Agora posso ver. No início todos queriam comida para sobreviver, ter filhos para ter prazer e sobreviver no tempo, de alguma forma. Depois queriam dinheiro para poder ter comida e conseguir todo o resto. Depois passaram a usar a comida, o sexo, o dinheiro, os filhos, o tempo, para ter cada vez mais poder. Poder sobre a comida do outro, o sexo do outro, o dinheiro do outro, os filhos do outro, o tempo do outro, a vida do outro. Porque uma vida apenas não é suficiente para usar o poder que se pode ter quando se busca cada vez mais Poder. E arrancar o poder dos outros dá mais poder de estuprar a alma coletiva, a sua, para não ter que encontrar algum sentido nisso tudo.
              É preciso manter a mentira da felicidade, possuir a felicidade por alguns segundos, alcançar a felicidade que está em algum lugar, ver a felicidade, usar a felicidade, comprar a felicidade, vender a felicidade, sentir a felicidade correndo nas veias congestionadas do vício. Só a felicidade adia a morte.
              A Morte cobra um sentido, a morte esclarece que não há sentido, apresenta o vazio, o desconhecido, o absoluto e inegável Nada que destrói qualquer dúvida, qualquer esperança, qualquer deus que possa usar como totem do seu poder. A Morte invencível que retira a sua máscara e lhe diz que valor tem. Nenhum. Só os seus atos sobrevivem.
              Você não é nada sem sua contribuição para o fazer. E o que você faz é apenas manter alguma coisa que não lhe pertence, que lhe foi imposta e você aceitou como sua, que não entende mas finge amar, para fazer algum sentido estar vivo, fazendo, até que seja substituído por um declínio. E tudo caminha para a morte, tentando demorar o mais que puder antes que alcance o seu objetivo.
              Há um incomodo em você agora. Posso sentir. Você ainda não percebeu, mas logo vai fazer sentido, e vai querer correr, vai querer fugir, desaparecer, desligar. Logo você vai tentar romper a conexão. Talvez até consiga. Depois vai voltar.
              Você está bem? Você está bem?

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"Houve um tempo em que acreditava que o ápice de um autor era ver o seu trabalho reconhecido. Depois acreditei que era necessário ter uma publicação que pudesse ultrapassar o tempo. Agora descubro que o melhor que podemos atingir é ver nosso trabalho ampliado, melhorado à perfeição, como um legado que gera um infinito cheio de Estrelas e nos devolve com sua luz a humildade e a grandiosidade de fazer parte de algo tão maravilhoso que nos causa êxtase.
Obrigado Selene, por me ensinar a cada dia. Maravilhosa montagem, excelente narrativa, uma obra de arte feita com alma para a alma. Fiquei orgulhoso e humilde e, acima de tudo, FELIZ,
Um beijo no seu imenso coração."
( Danny Marks​)

Uroborus
Texto: Danny Marks
Edição: Selene Ferreira
Narração: Rose Ferreira
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