domingo, 29 de novembro de 2015

Verdade seja (Mal)dita (?) – Danny Marks


              Hoje fui limpar a geladeira e descobri uma alface americana em um canto insuspeito. Estava um pouco amarelada, a maioria das folhas já não serviam mais e isso apenas uma semana depois de ter sido comprada. Fiquei imediatamente furioso com isso.
              Mesmo com todas as técnicas que garantem que as verduras fiquem frescas por mais tempo, e algumas prometem conservar os seus legumes e vegetais por até meses com todo frescor, a minha alface havia se estragado quase completamente.
              Não tem como não ficar furioso com isso. Afinal, quem compra uma alface para ficar conservada por mais tempo é porque não pretende come-la antes desse tempo, não é mesmo? Propaganda enganosa contra si mesmo.
              Como comprar roupas para parecer mais magro, mais alto, em melhor forma física, “valorizando” o que, pelo próprio conceito implícito, já perdeu boa parte do valor que deveria ter.
              A indústria cosmética não conhece crise, essa é a grande e amarga verdade. E por indústria cosmética pode-se entender, em algum grau ou sob alguma perspectiva, um monte de coisas. Desde maquiagem até roupas, desde marketing de produtos até campanha política, desde filosofia popular até livro de autoajuda.
              A internet é a campeã da cosmética, sem dúvida. Ela propaga notícias velhas como se fossem atuais para atender ao interesse do momento, cria falsos testemunhos como se fossem fatos incontestáveis, desenvolve padrões de necessidades que nunca haviam sido percebidos pelos consumidores que seguem compulsivamente para a próxima compra.
              Mas há também as grandes festas do comercio, que anteriormente privilegiavam os governantes no controle das massas (pensando bem, acho que ainda o fazem, só é preciso definir o que é “governo”). São verdadeiras festas que oferecem tudo o que as pessoas não precisavam, mas que se não tiverem sentirão um deslocamento, uma culpa por terem se excluído de um processo que deve ajudar a própria sociedade gerando empregos diretos e indiretos na produção e venda de artigos que logo se tornarão a última moda e referência social.
              A verdade que parece sobressair disso tudo é que preferimos a mentira branda, aquela chamada de “branca” para dizer que tem boas intenções que a tornam mais aceitável e até, em alguns casos, desejável. Afinal é mais fácil responder àquela pergunta insegura sobre a beleza, a saúde, a inteligência, etc., com uma mentirinha branca, do tipo: Está melhor que nunca! Quase uma meia verdade, afinal, antes poderia estar bem pior, não é?
              Buscamos a beleza em todas as suas formas, mas queremos que ela seja entregue em uma bandeja de ouro por um serviço delivery, no horário programado e por um preço baixo. E não nos satisfazemos com menos, ou alguém (que pela própria concepção da palavra, será qualquer um menos eu) vai ter que pagar por isso.
              Condenamos a mentira alheia com outra mentira: Eu gosto é da verdade. Eu jamais minto. Comigo, se mentir uma vez, é a última. Mas quem está preparado de fato para a verdade? Ela costuma ser dura, cruel até, e chega em momentos terríveis destruindo qualquer ânimo, qualquer alegria do momento, certo? Talvez.
              Talvez seja necessário que aprendamos a lidar com a verdade de uma forma que ela não precise ser tão dura e destrutiva, ao contrário, que possa assumir uma condição de libertadora, de promotora do bem-estar, de geradora de ânimo. Como fazer isso? Começando por nós mesmos.
              Quando nos dispomos a mentir menos para nós mesmos já estamos aprendendo a lidar com a verdade de uma forma melhor. Começamos a perceber que há formas delicadas de apresentar coisas desagradáveis, que é possível apresentar o lado positivo de algo que pode dar trabalho a princípio, mas que vale a pena investir e colher os resultados ao longo do tempo.
              Quando sentir vontade de comprar algo, basta questionar-se se vai precisar mesmo daquilo para uso pessoal ou apenas para mostrar que possui, e se o desejo se mantiver, compre! Ao menos foi uma compra honesta e não vai haver arrependimentos depois, já que o objetivo verdadeiro foi alcançado.
              Se precisar de autoafirmação, diga antes como se sente, mas não imponha uma mentira que deseja ouvir. Estou tão feliz com esta roupa, não é? Você acredita que adorei de fazer este penteado? Estou acima do peso, mas me sentindo tão bem-disposto. Você não acha? Aceite a sua verdade e se não gostar do que descobrir, mude. Não obrigue ao outro que minta para lhe fazer feliz. Só você pode mudar o que está errado na sua vida, ainda que precise de alguma ajuda externa para isso.
              Não aceite mentiras, mas lute pela generosidade, pela delicadeza, pela sensibilidade com que a verdade pode e deve ser dita para você e para os outros. Claro que isso exige um certo trabalho, mas as melhores coisas da vida são conquistadas com trabalho. A palavra conquista já diz que a coisa não foi simples e fácil, mas que valeu a pena e sua permanência será mais duradoura do que aquilo que vem com muita facilidade: a mentira, por exemplo.
              Os ganhos vão ser imensos se conseguir lidar com a verdade, mesmo que seja com um mero silêncio quando não souber o que dizer de forma verdadeira e gentil. Um gesto de carinho pode ser um bom substituto nesses casos, mesmo que seja para consigo mesmo.
              Quando começamos a mentir menos, percebemos o peso que a mentira traz escondido na facilidade. Uma mentira obriga a outra mentira que a sustente e assim se constrói uma pirâmide que vai ficando cada vez maior e mais sufocante, até que a base se rompe e vem uma avalanche que pode soterrar a sua credibilidade entre os escombros.
              Ser gentil e verdadeiro comigo mesmo fez com que a raiva de ter gasto um dinheiro desnecessário se transformasse em uma proposta racional de ter mais qualidade de vida, uma alimentação melhor, mais organização nas minhas tarefas, um bem querer mais verdadeiro e uma tolerância sincera com as minhas dificuldades no caminho para ser melhor.
              Uma tolerância que fez com que a minha alface deixasse de ir completamente para o lixo e se transformasse em uma deliciosa salada, que me incentivou a escrever um texto sobre o assunto e a limpar não apenas a geladeira, mas a casa toda, e a me livrar de um monte de coisas que estavam guardadas apodrecendo em cantos insuspeitos.
              A verdade pode não te dar asas, mas com certeza te faz se sentir bem mais leve para consigo mesmo e para com os outros. E quem não aprecia a leveza delicada da sinceridade?


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