quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Paradoxismos - Danny Marks


Eu sempre gostei de paradoxos. Chama a minha atenção essa coisa quase impossível de existir. Dois opostos perfeitos em rota de colisão que extrapolam as leis da lógica por existirem em um nível diferente.
Mas ultimamente tenho me assustado com os paradoxos.
Já estava intrigado com a imensa quantidade de pessoas que optavam por gravar em vídeo com seus celulares, eventos em que se esforçaram para estar, e que poderiam vivenciar depois nas imagens ruins, não naquele momento em que precisavam compor a prova de sua participação. Participação?
Mas paradoxos são surpreendentes. Em um barzinho de uma certa cidade um grupo de Death Metal, cuja tradução seria “Metal da Morte”, tocava para um grupo de jovens as suas músicas falando de morte, violência, da fragilidade da vida, esses temas niilistas que agradariam a Nietzche se vivesse hoje em dia, teve seu show interrompido por outro grupo de jovens que, em nome de uma suposta religiosidade, levaram violência, morte, e demonstraram a fragilidade da vida com balas de metralhadora e bombas, destruindo tantos quanto puderam antes de destruírem-se também.
Em outra cidade, uma empresa que tira o seu lucro de desenterrar riquezas do solo, provoca uma catástrofe sem precedentes na história da humanidade, enterrando um rio com toda a sua fauna e flora, uma cidade com seus habitantes, uma cultura local que jamais vai se recuperar do pesadelo de lama que a soterrou.
Em outra cidade manifestações acaloradas contra uma suposta peça de teatro, de gosto duvidoso, que recebeu mais publicidade gratuita que outras peças excelentes, devido a ser de gosto duvidoso e por ser financiada pelo governo. E o paradoxo não para aí, boa parte das pessoas que foram contra o financiamento do governo da tal “arte duvidosa” se beneficiam do financiamento do governo em programas de “socialização duvidosa”.
Sem falar naquele representante do povo que, sem consultar o povo que representa, decide fechar escolas para “melhorar a qualidade do ensino”. E os alunos que normalmente querem distancia da escola, tanto que é preciso fazer campanha e até lei para obriga-los a ir para a escola, decidem ocupar as escolas para defender o seu direito de ter uma escola para não ir, e até de ter professores para discutirem, baterem, ignorarem.
Eu adoro paradoxos porque eles escondem uma verdade mais profunda, algo que não é visto de cara. Há uma lógica que nos escapa aos sentidos e quando a percebemos, às vezes, até achamos engraçada e a chamamos de ironia.
E não conheço ninguém melhor para lidar e explicar a ironia inteligente do que o grande Machado de Assis, ele próprio uma ironia. Um negro, coxo, em uma sociedade escravagista, que passou para a história como um dos maiores críticos da sociedade e, que me corrijam os especialistas se puderem, o maior gênio e crítico da complexidade humana. Ler os textos que Machado de Assis escreveu há mais de um século é ter a impressão que foram produzidos ainda o ano passado, ou este.
Foi Machado que disse que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal. Foi o cara que escreveu a inacreditável história de um analista que queria curar a loucura, até descobrir que a única loucura que precisava ser curada era a dele. Antecipou a “Igreja do Diabo” onde tudo era permitido com a benção do capeta, que tinha a ilusão (e a concessão de Deus) de que ao fundar uma igreja conseguiria corromper de vez a humanidade, e acabou desconsolado com a contradição humana.
Ah, se houvesse uma maneira de trazer Machado à vida novamente para explicar os imensos paradoxos que a humanidade apresenta todos os dias. É nesses momentos em que os paradoxos se riem de nós, pobres mortais, porque Machado está vivo, suas palavras ainda estão acessíveis depois de sua morte sem que tenha uma única vez feito um selfie, gravado um vídeo.
Foi na contradição paradoxal de Machado de Assis que achei a resposta
"Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho. Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas." (Machado de Assis).
Como contestar isso?
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