domingo, 19 de maio de 2013

Uma História (Quase) Verdadeira – Danny Marks


Eu queria escrever uma história verdadeira onde a verossimilhança fosse o ponto mais alto da narrativa. Para isso tinha que construir um personagem verdadeiro.
Pensei em um garoto com problemas de saúde que o obrigassem a passar boa parte da infância em um hospital. Não seria um garoto muito bonito, mas também não seria feio, assim os leitores poderiam se identificar com ele. Mas não queria que tivessem pena, então ele seria forte ou ao menos aparentaria isso aos outros. A justificativa para esse engodo seria a sua personalidade introvertida que o faria estar bem mesmo em momentos de solidão, porém ele gostaria do contato humano, ainda que por pouco tempo ou se sentiria cansado pela demanda emocional. Mas quem se identificaria com um garoto assim? A menos que ele fosse algum tipo de super-herói, o que me obrigaria a entrar para o estilo Fantasia.
O personagem poderia ser um bruxo famoso, a reencarnação de um maquiavélico ser originário de uma civilização antiga, com conhecimentos fabulosos sobre o Universo e algum contato místico com essa outra personalidade. Poderia ter sido condenado por seus crimes ou enganos e, sentindo-se culpado, aceitado a penalidade. Ao tentar reverter os danos da vida anterior usaria o seu conhecimento mistico para auxiliar a humanidade.
Claro que poucos saberiam disso, seus poderes seriam usados apenas para fazer o bem e um senso de responsabilidade fundamentado na culpa pregressa poderiam causar o equilíbrio necessário. 
E quem acreditaria em um personagem assim?
Então o melhor era fazê-lo um jovem romântico e tímido, mas com muita inteligência. Ele conheceria pessoas do submundo e elas o adotariam por seu jeito enigmático e sua capacidade de compreender o outro. O iniciariam nas artes sexuais e ele se tornaria um excelente amante.
Porém, como justificar a incoerência entre o romântico e o sexualizado?  Entre o tímido e o sedutor?  Sem falar que o risco da história se tornar pornográfica e superficial seria grande, o que fugiria ao objetivo.  Um amante extraordinário e romântico funciona na primeira vez, mas essa história já foi contada e qualquer outra beiraria o plágio ou a falta de inspiração.
Então o melhor seria coloca-lo como um pai de família dedicado, com uma grande capacidade criativa. Ele poderia ser um solucionador de problemas e isso o colocaria em uma carreira administrativa de sucesso. O conflito estaria entre a sua capacidade imaginativa e as exigências mecanicistas da carreira com que pagava as contas. Em pouco tempo teria que coloca-lo em uma rota suicida porque seria impossível resolver o dilema entre o sustento familiar e a busca dos sonhos em um plano criativo. Todos sabem que poucos sonhadores conseguem se manter com suas criações. Vender sonhos não é fácil a menos que eles gerem utilidades reais.
O conflito seria insolúvel.
Talvez se o personagem fosse um promissor, mas nunca realizado efetivamente, gestor. Teria a capacidade mas não a ambição e se limitaria a cargos menores equilibrando as finanças.  Poderia ter o potencial para um grande salto em qualquer área que escolhesse, mas evitava ingressar por caminhos mais realistas para não abandonar os seus sonhos.  Poderia desejar ser um desenhista, um projetista, talvez um roteirista ou quem sabe, o pior de todos, um escritor.
Isso, porém, o tornaria um egoísta, subvertendo a qualidade de vida que sua família poderia ter em troca de um sonho pessoal. Quantos leitores veriam o meu personagem como anti-herói ou até mesmo um vilão? Como apoiar a narrativa em um personagem tão dicotômico?
E se, por essas questões psicológicas internas ele usasse seus recursos intelectuais para estudar o psiquismo humano e poder lidar com essas questões complexas e antagônicas de uma forma inusitada?  Ele poderia se tornar um humanista e construir sua carreira de forma a juntar os seus recursos em um só caminho, o de professor.
Porém, um professor pode ser tímido ou mesmo introvertido? Afinal era esse o modelo inicial. Alguma coisa estava muito errada com o personagem e a verossimilhança me escapava constantemente.
Não importava o que fizesse para construir a sua personalidade, os antagonismos se sobrepunham e ele se tornava o protótipo de um fracassado.
Nenhum leitor iria se identificar com um personagem que, embora com profundidade psicológica, estivesse fadado desde o início da trama a se tornar um derrotado, por mais que fosse capaz de solucionar problemas pessoais ou de outros.
Ninguém gosta de pessoas que não se dão bem na vida. É como se o mundo gritasse em silêncio que se o Autor está com a personagem, ela vai superar todos os obstáculos e vencer, ou então algo está muito errado na narrativa.
Nas novelas até os subalternos tem boa saúde e moram em ótimas residências. Os favelados fazem quatro refeições diárias; Os bandidos que são presos, são tratados humanitariamente, enquanto isso não ocorre fartam-se em prazeres e maldades.
Nas histórias maniqueístas, mesmo o mais baixo dos personagens tem suas vantagens e sempre há a possibilidade de contar com a generosidade do autor de, no final, ser tratado com justiça ou compaixão. Os bons não podem cometer atos maus, não é mesmo?
Foi então que eu percebi que jamais poderia escrever uma história verdadeira porque a vida não imita a arte, ao contrário, é a arte que tenta melhorar a vida. Torna-la pura, bela, justa e agradável aos olhos de quem lê.
O que torna a mentira irracional uma bela obra de ficção que se assemelha de forma idealizada à realidade, e nos faz querer viver dentro dessas histórias, como personagens impossíveis na vida que gostaríamos de ter.

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