quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dia de Pinóquio


Sem dúvida alguma, o dia 10 de abril de 2009 vai ficar na história deste escritor.
Não é todo dia que se pode voltar a ser criança, ouvir o grilo falante, ter uma cara feita da mais pura madeira e tudo isso diante de uma platéia inteligente e atenta.

Quando fui convidado para dar uma palestra para alunos de letras, veio imediatamente a sensação de prazer e medo. Há mais de vinte e cinco anos que não dava uma palestra, e nunca sobre o assunto sugerido: Visão Critica e Mercado Literário.

O gênio do ego falou: Ah, moleza, é como andar de bicicleta, uma vez que se aprende não se esquece jamais. Ok, estou pronto para a aventura então.

Três meses de pesquisa, formatação e reformatação do que seria dito, duas semanas de ensaios, marcação de texto, revisão e finalmente chega o grande dia.

E começam os problemas, inimagináveis até que aconteçam.

Cadê os exemplares do novo livro para apresentar para o público? Meu amigo editor passou madrugadas insones para tentar cumprir o prazo, não conseguiu.

Duas horas de viagem, alguns contratempos pelo caminho e estou no local do evento. A ansiedade crescendo e o medo também. Revisões mentais para não esquecer nenhum detalhe, cada palavra é importante, a mensagem precisa ser transmitida de forma clara para ser compreendida e absorvida.

O que é Visão Critica? O que é Texto Literário? O que é SER escritor?

Três coisas fundamentais para a compreensão do Si Mesmo e do mundo.

Tudo certo, apresentação, inicio e... Opa!

A música não entra, mas nos testes estava ok. A ansiedade aumenta e o terrível fantasma que assola a vida de todo escritor aparece, branco como uma página desejosa de ser completada, mas sem uma única virgula nela, apenas um grande ponto. O que era mesmo para dizer aqui? Pequenos flashes de memória.

Tento o grande recurso do ao vivo e a cores, relaxe, este é apenas um teste, você vai lembrar o que ia dizer, já está dito em algum lugar da sua memória.

Algumas pessoas na platéia se ajeitam melhor e fecham os olhos cansados depois de um dia exaustivo de trabalho, aproveitando o momento para relaxar, basta cumprir com a obrigação de comparecer. Corpo presente, alma distante, quantas palestras não assisti assim? Esta é a primeira que estou do outro lado verificando o efeito no orador.

Uma rápida pincelada e vamos em frente, é preciso lembrar que há um tempo a ser cumprido, outro fantasma da vida moderna: Ou você corre ou o tempo te devora.

Ah, o texto literário escrito com areia e luz, detalhes se somando e construindo a mensagem, o talento, a técnica e a forma perfeita no ambiente perfeito.

O grilo falante grita no ouvido da alma: Ei, cadê a sua participação

Bem, é hora de trabalhar, já relaxado pela exposição à beleza da arte, ensaio algumas mensagens importantes, melhor dizê-las logo antes que o fantasma do branco surja novamente. Não há como exorcizar esse monstro medonho devorador de palavras e idéias. Todo modelo ensaiado perdido, então o melhor é construir outro on line.

E o grilo falante gritando: Como é? Não vai concluir o que havia dito?

Não há tempo reclamo, há muita coisa para ser dita e o tempo está correndo, então o melhor é...brincar.

Eis uma nova pausa para relaxar e brincar com o público, verdadeiras estrelas desse momento, já que todos os esforços são dedicados a eles. O primeiro brilho, da luz indireta já está lá, faltam apenas mais dois.

Voluntários corajosos são engajados, o público pega o ritmo da brincadeira e instantaneamente a mágica do Texto Literário se faz, as pessoas se identificam, compreendem a mensagem, interagem com o texto e com o ambiente.

Essa magia é poderosa, o cansaço desaparece, os erros são superados, o riso substitui a preocupação, e todos se nivelam em entendimento, receptivos à mensagem que deve ser transmitida. Mas qual é mesmo a mensagem?

Ei, está fugindo do assunto, volta aqui diz o grilo que deveria se chamar revisor de tão chato que é.

São tantas coisas que gostaria de estar passando para essas pessoas que estão iniciando e nem sabem das maravilhas e armadilhas que encontrarão em sua viagem fantástica – respondo tentando ser razoável com o Grilo.

Ser razoável com o seu Revisor interno, é praticamente impossível.

Você não é Deus, volte ao seu trabalho – grita ele inconformado.

Não adianta, já estou envolto da magia do texto literário, a visão aguçada e a mente ágil e respondo imediatamente, sem interromper o andamento.

Claro que não sou Deus, ou a palestra sairia perfeita, sem fantasmas ou defeitos, mas, eis a grande questão, é por não ser perfeito que sou escritor.

O grilo não cede, tem que ser duro ou então o cara de pau nunca vai ser um menino de verdade, mas tem que reconhecer um talento para as palavras então usa um recurso cruel, aponta para o relógio e diz: Dez Minutos.

Que horror, o tempo voou e eu nem senti, preocupado eu olho para as pessoas e não vejo mais o aconchego dedicado ao cansaço. Vejo sim, o brilho do olhar e o do sorriso satisfeito, interessado, poderíamos continuar a viagem por séculos afora mas temos que retornar ao duro mundo da realidade sem magia.

Contabilizo rapidamente o quanto ainda faltou ser dito, registro as falhas para referência futura, anoto os detalhes para uma futura revisão e faço o encerramento desse momento que começou trêmulo como todo primeiro encontro, mas que se estendeu em prazer depois das barreiras quebradas. Ah, se fosse possível usar a realidade da mesma forma que acontece no texto literário, cortando as partes desnecessárias e deixando apenas o essencial. Revisando e tornando a revisar para poder lapidar até ficar perfeito para ser exibido.

Reconheço que tenho muito a aprender, sempre temos, e é isso que torna a vida interessante. Descobrir que não se sabe é o primeiro passo para buscar o conhecimento que nos torna mais humanos. Vejo a bela Fada Azul sobrevoando os aplausos sinceros e ouço aquela voz irritante que me acompanhou por todo esse momento difícil dar o seu veredito:

Bom trabalho, mas não pense que vou facilitar da próxima vez, vai ter que se esforçar mais, senão...

Ainda me sinto em dívida com este meu público especial, colegas de letras, formadores de opinião. E me comprometo a dar continuidade aqui e onde desejarem, até que satisfaçam todas as dúvidas que porventura tenham despertado nesse dia mágico de primeiro de abril, dito dia da mentira, onde ouviram algumas verdades essenciais para se tornarem os próximos a ocupar o lugar de destaque diante de todos. Palavra do Cara de Pau, que se tornou menino pela magia do texto literário, na frente de todos, para provar que é possível, embora não seja tão simples quanto parece.

Assim será.

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