sábado, 21 de março de 2009

Infância - Danny Marks


Foto: Luciana Serra

Confesso que sobrevivi.
De todas as coisas loucas que fiz em minha vida,
foi a infância, a mais temerária,
buscando em cada dificuldade uma saída,
lúdica, real ou imaginária.
Confesso que andei descalço nos campos de futebol,
correndo atrás de bola, ou de pneu velho, empurrado com a mão.
Me jogando ao chão, caindo esbaforido, em solo compactado de risadas e pegadas.
Confesso que fui eu quem subiu na goiabeira do vizinho,
para roubar frutas verdes suculentas que, em casa, amadureciam solitárias.
E também fui quem distribuiu, anônimo, todas as outras que não aguentei comer.
Confesso que chutei lata, qualquer uma, de casa até a escola,
apenas para testar o kichute, comprado dois anos antes
Participei de campeonatos de aviões de papel,
degustando naves espaciais de sorvete Yopa.
Os céus eram o meu limite, alcançado em pipas e sonhos,
escalava morros pelo prazer de sentir o vento e o medo
Nadava pelado no rio escondido, que só às meninas revelava existir.
Saia de manhã, aventureiro, com o sol ainda fresco de nascer
e voltava à noite, com breve intervalo para almoço,
porque senão a vara de goiabeira, nas pernas, ia comer.
Confesso, ter usado atiradeira em garrafas alinhadas, como prova de perícia,
e queimado a mesma, ao acidentalmente matar um pássaro em voo.
Bolas de gude, pião e figuras em papel soprado no bafo ou na palma
eram os desafios que enfrentava, a me preparar para jogos maiores.
Queimada, futebol, pega-pega, duro ou mole, taco ou simplesmente roda
muitas vezes, o ultimo a ser escolhido, mas importante era ter outro time vencido.
Correr era motivo de alegria e para tudo necessário se fazia,
chegar mais cedo, chegar mais rápido, chegar para poder voltar.
Confesso que sobrevivi ao refrigerante compartilhado no gargalo
comprado com dinheiro de lixo reciclado no ferro velho: latas, garrafas e jornais.
Sobrevivi aos socos trocados, com quem quer que fosse, por motivos banais.
Passada a raiva, pedidos carrancudos de desculpa evitavam cometer besteiras a mais.
Sobrevivi aos arranhões, aos tombos, ao coração partido pelo primeiro amor que se foi com outro.
Confesso sem remorsos, tudo isso e muito mais
Não tenho saudades desse tempo, é verdade!
E por mais que digam que seja maldade, não quero que voltem, jamais.
Porque o que um dia fui, não é o que sou
e se no tempo voltasse, não teria aprendido e amado, no tempo passado.
Perdido, estaria hoje, por não me saber feliz nesses dias de outrora
e agora, apenas sobrevivente sendo, me lamentaria.
Mas, aprendi na infância e por toda ela,
que viver o momento em que se está
é o que nos faz viver de fato e ter o que na memória guardar.
Isso, sem culpas, confesso.


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