quinta-feira, 2 de abril de 2009

Visão Critica e Mercado Literário (2/2)



Genialidade Construída

Claro que ninguém espera que todos os autores iniciantes tenham o poder de síntese de um Hemingway, o que se espera é que tenha talento suficiente para que possa transmitir as suas idéias de forma a impactar de alguma forma o leitor, prendendo a sua atenção a ponto dele se sentir impelido a fazer uma crítica (boa ou ruim, não importa) do que acabou de ler.

Parece absurdo dizer que uma crítica ruim não importa, mas isso é um fato, porque a PRIMEIRA necessidade do autor é que ele seja lido. Não adianta nada ter um texto genial que nunca foi apreciado por pessoas críticas de verdade. E não estou falando de parentes ou amigos, mas de estranhos que não o conhecem, que não tem um vinculo emocional com o autor. Esse é o publico efetivamente falando. É preciso primeiro convencer esses estranhos, que muitas vezes jamais veremos pessoalmente, a ler o que temos para dizer.

Como fazer isso? Tornando o texto uma idéia genial.

Parece difícil? Com certeza é, felizmente, porque senão haveria tantos autores que não teríamos condições de dizer quem mereceria nossa atenção por alguns minutos que fosse.

Essa é a questão fundamental, tornar-se um escritor genial é um processo longo, tortuoso, difícil, com altos e baixos homéricos. E é justamente esse o prazer que se possui em conquistar esse espaço.

Mas como se pode ensinar a ser genial?

Esse é o “pulo do gato”, não há uma formula qualquer ou seria simples alguém usá-la e não estou falando de escritores com um bom marketing, estou falando de escritores que realmente tem talento e que são difundidos pelos leitores que adquirem, na melhor propaganda que existe, a chamada Boca a Boca. É quase como um beijo, por isso que é tão bom.

Claro que não se pode ensinar o talento, mas pode-se lapidá-lo para que ele deixe de ser algo um pouco acima do normal para se tornar algo verdadeiramente genial. E é importante dizer que CRIATIVIDADE é o nosso negócio. Portanto um autor tem que descobrir como vai lapidar o seu talento para se tornar único e imprescindível na vida e na leitura de seus futuros fãs.

As oficinas literárias, os textos de mestres consagrados, o olhar crítico sobre o TEXTO literário e o mundo, a leitura de todos os autores contemporâneos que alcançarmos, tudo isso contribui para aprimorar o talento, seja pelo exemplo positivo, seja pelo negativo, porque não basta saber o que é bom, é preciso conhecer o ruim para saber quando ele está se inserindo no nosso caminho, em nossas escolhas, em nosso trabalho.

Escolhendo o Estilo

Quando eu falo em Saramago, todos já sabem que se trata de um romancista filosófico. Se pensar em Gabriel Garcia Marques, quem o conhece vai saber que é um romancista com um humor sutil e complexo que vai da fantasia a filosofia em segundos e sem escalas perceptíveis. Já um Luiz Fernando Veríssimo é famoso por suas crônicas de humor.

Cada autor tem um estilo em que se desenvolve melhor, mas isso não é um limitador, como pode parecer, é mais uma escolha pessoal. Como dizer que se prefere pessoas baixas ou altas, negras ou brancas, loiras ou ruivas.

Preferências todos temos, para qualquer coisa na vida, e nos conduzimos de forma a satisfazer o máximo que podemos essas preferências. É o nosso Estilo Pessoal, uma marca que seguimos e que nos identifica como indivíduos e como parte de um determinado grupo.

Para o autor iniciante, a recomendação é que busque o que gosta de fazer, busque conhecer o seu estilo e passe a investir maciçamente nele, aprimorando o seu toque pessoal. Sem, porém, abdicar de tentar outras formas.

Não é porque eu sou bom em escrever contos e crônicas que não vou tentar escrever um romance ou uma noveleta, ou uma peça de teatro. Eu posso adorar escrever sobre humor, mas nada me impede de me aventurar em poesia e prosa romântica, ou mesmo um terror sombrio.

Diversidade é a palavra, é ela que nos diz onde estão os limites de nossa arte, e o que podemos absorver desses limites. Conhecer uma limitação nos dá o direito de escolher aceitá-la ou tentar superá-la, mas a escolha tem que ser consciente das dificuldade e dos benefícios que podem advir delas.

Feito o Texto, o que fazer com ele?

Uma ótima idéia que não é realizada não serve para nada. Então é preciso ter coragem para expor o seu texto (e a si mesmo) para o mundo.

Em primeiro lugar procure pessoas amigas, de preferência aquelas que terão uma visão crítica e que, acima de tudo, serão capazes de lhe dizer como está ruim o seu texto, aconselhando a destruí-lo imediatamente e nunca mais fazer isso novamente.

É verdade, se não tiver alguém assim por perto, então você está em sérias complicações, porque pode embarcar na idéia de que o seu texto é maravilhosamente bem feito e querer pagar uma importância fabulosa para vê-lo impresso em formato de livro para ser publicamente rechaçado.

Existem muitas editoras interessadas em publicar textos de qualquer qualidade para obterem o lucro DELAS, afinal VOCÊ esta pagando para isso. Não há nenhum crime nisso, é apenas um negócio para eles. Se o autor tem necessidade de ver o seu texto em um livro e eles podem lucrar com isso, então quem está enganando quem?

Claro que o seu livro pode ser vendido para os amigos e parentes que vão, normalmente, dizer que é um bom texto, mesmo sem nunca terem lido. Mas isso não faz de você um autor de verdade, apenas uma pessoa que publicou um texto.

Por isso a necessidade de se ter um LEITOR BETA, essa pessoa intima o suficiente para dizer onde está errando. Se esse leitor beta tiver conhecimento técnico de escrita melhor ainda porque ele pode apontar o POR QUE está errando, sugerindo caminhos para superar essa deficiência. Algumas pessoas são leitores beta profissionais, cobram para ler os escritos e descem a lenha com a maior tranqüilidade. Mas é sempre melhor poder apanhar de um amigo do que de um desconhecido, pelo menos não está pagando para isso.

O fundamental é ter humildade de reconhecer que o texto precisa ser melhorado (ou até esquecido) e tentar de novo com algo melhor.

Feito isso, e aprovado o texto pelo nosso carrasco pessoal, então se está pronto para ir para uma fase mais difícil: expor o texto ao mercado literário.

Antologias

Normalmente os novos autores fazem textos curtos, os chamados contos e crônicas, sem mencionar os que escrevem poemas.

Atualmente existe um mercado editorial muito vasto e receptivo para esses novos autores, que fazem publicações de antologias temáticas.

Uma antologia temática reúne em um mesmo livro, textos de vários autores versando sobre um tema comum a todos, como por exemplo: Vampiros, Medieval, Poesia Contemporânea, Seres Sobrenaturais, etc.

Essas antologias podem ser, basicamente, de dois tipos:

Por concurso: onde o autor remete o seu texto para ser avaliado e se for aprovado no processo de seleção, terá o seu texto impresso em formato de livro sem custo adicional, com uma bonificação pelos direitos autorais de impressão naquele livro.

Por Demanda: Este tipo mais comum, também passa por um processo seletivo inicial, mas, sendo aprovado, o autor se compromete a vender uma cota de livros da publicação, cobrindo parte dos custos de impressão e obtendo o seu lucro na venda desses exemplares.

Qual o melhor caminho?

Ambos, é necessário para o autor iniciante buscar uma divulgação do seu trabalho, e passar por um processo seletivo em uma antologia já é uma demonstração de que possui o que se chama de “qualidade literária” ou seja, que se está apto a ser considerado um autor. Mas isso não significa que seja um bom autor, apenas que está no caminho certo.

Conhecer os trabalhos da editora para a qual se deseja enviar os textos é importante. Ter um texto publicado em um bom livro (com outros bons autores) é ter uma boa propaganda sobre o seu trabalho, sendo o inverso verdadeiro, também.

Publicação de Livro Solo

Publicar em antologias é um caminho mais fácil para iniciantes, mas o objetivo do autor deve ser o de ter um livro solo, ou seja, aquele em que é o único autor.

Para isso deve ir reunindo material inédito (de preferência) para uma publicação mais ousada.

Esse é portanto um passo mais complexo que exige um estudo do mercado literário, mais especificamente das editoras. Cada editora tem o que se chama de “Selos”, coleções que tratam de um determinado estilo de publicação.

Não adianta tentar enviar um livro de contos para uma editora que só publica romances ou livros técnicos. Como também não tem sentido algum enviar um romance para uma editora cujo estilo seja livro de auto-ajuda.

Então é necessário que o autor saiba em que estilo o seu livro se encaixa e busque as editoras que trabalham com esse estilo, avalie o material publicado por ela e veja se é interessante estar tentando uma publicação.

Algumas editoras não são tão conhecidas, mas estas são justamente as que terão maiores chances de atender a um autor iniciante. Claro que se pode tentar negociar com uma editora grande e até conseguir um espaço nela, mas deve-se levar em consideração a dificuldade envolvida.

Por uma questão de ética profissional, não é recomendado tentar negociar com duas editoras ao mesmo tempo sobre a mesma obra. Se for enviar para uma editora avaliar, espere, por um tempo razoável, o resultado para depois tentar com outra editora. Ser recusado por uma editora não significa que o material é ruim, apenas que não atende a visão daquele editor em particular.

Também, por uma questão de ética, é recomendado que se envie os originais de sua próxima obra para a avaliação por uma editora com a qual já publicou.

O mercado literário é competitivo, porém todos os editores se conhecem e uma falha de ética pode literalmente matar todas as chances de se tornar um autor reconhecido e aceito.

Trocando de Editora

Claro que nenhum autor está obrigado a permanecer em uma editora, havendo chance de fechar negócio com outra editora melhor. Mas essa é uma questão que deve ser avaliada com cuidado para que haja uma continuidade da carreira.

É bom lembrar que as obras publicadas são regidas por contratos de publicação que garantem os direitos do autor e da editora. Negociar esses contratos é uma questão complexa e exige cuidado. Se o autor puder contar com um bom advogado para orientá-lo, ajuda muito. Não se deixe levar pelo entusiasmo de estar publicando e cair em uma armadilha que causará muitos transtornos.

Inegavelmente, o Marketing é fundamental para qualquer tipo de negócio. Sem que seja divulgado um produto, não há como vendê-lo adequadamente. Garantir que a editora em que está publicando tenha uma boa divulgação para sua obra é uma coisa a ser pensada.

O que muitos autores iniciantes esquecem é que a imagem do autor também é um produto e precisa ser divulgada de todas as maneiras possíveis.

O Marketing pessoal é uma ferramenta importante para um autor, seja ele iniciante ou não, e precisa ter uma atenção toda especial. Alguns caminhos simples podem ser utilizados de forma bastante produtiva.

- Ter um blog pessoal com suas obras e tendências, e um dos fatores mais elementares e fundamentais. Um blog pode falar sobre quem é o autor, divulgar seus textos “abertos”, aqueles que estão disponíveis para o público em geral, como uma amostra do trabalho do autor.

Saber produzir um blog é uma forma de arte também, um texto mal redigido, uma apresentação errada, pode fazer o efeito inverso de uma boa divulgação. Portanto cuidado quando for montar o seu blog, é uma parte do seu trabalho e visível a um número maior de pessoas interessadas.

- Participar de comunidades de relacionamento, também é um bom caminho para conhecer não apenas outros autores, como também editoras e editores. Sempre lembrando que é preciso saber se conduzir com ética e postura de um profissional. Pode-se fazer muitos amigos nesses sites de relacionamento, mas também é possível se fazer inimigos.

A recomendação é que seja você mesmo, e tenha a sensibilidade de reconhecer e respeitar o outro. Como tudo o que é dito fica registrado por tempo indefinido, é possível que muitos questionamentos possam ocorrer devido a palavras antigas ditas em momentos de pouca reflexão. Esteja preparado para assumir os erros e discutir suas idéias atuais com embasamento.

- Conhecer os Editores, é o melhor meio de se ingressar no mercado editorial. Não que o simples fato de se ter um amigo editor vai tornar alguém um escritor aceito, mas aumenta as chances de ser avaliado pela empresa e até de ser indicado para outras editoras.

- Oficinas e eventos literários, é um bom meio de estar conhecendo os profissionais do mercado, aprender sobre técnicas e receber dicas de pessoas que já estão nesse meio. Quanto mais lançamentos e palestras puder participar, melhor, muitos contatos são feitos dessa forma e nada melhor que um “corpo a corpo” para divulgar uma imagem pessoal. Cabe lembrar que os editores e autores tem uma memória muito boa, cuidado com o que diz e para quem diz. O mercado literário é bem sensível e com muitos egos inflados.

- Mais do que ser um escritor, é preciso ser um leitor critico. Isso implica em estar sempre se atualizando, lendo muito, participando desse mundo em todos os sentidos, construindo a sua visão crítica e o seu estilo pessoal, observando as novas tendências e buscando novos meios de fazer mais e melhor aquilo que se dispôs a fazer: escrever.

- Aumentar a capacidade de observação e dedução, isso ajuda não apenas no conhecimento e relacionamento com os integrantes do mercado literário e o público em geral, como também na hora de escrever. Os textos são baseados na vida real e devem traçar paralelos com ela, observar o que ocorre a sua volta é fundamental para ser um bom escritor.

Conclusão:

Nessa rápida pincelada, já deu para sentir que ser escritor não é uma coisa fácil, mas pode e deve ser um fator de prazer pessoal para o autor e seu público.

Como costumo dizer, não é um objetivo, é um caminho para se encontrar os objetivos que vamos descobrindo ao longo dessa jornada.

Querer ser um escritor, publicar uma idéia, é tentar dar o melhor de si para pessoas que nunca viu antes e que talvez, jamais venha a conhecer, sem pedir nada mais em troca do que uma oportunidade de contato da sua alma com a alma do seu leitor.

Conquistar essa oportunidade é um prazer que não pode ser descrito corretamente, nem pelo maior de todos os escritores do mundo, mas confesso sem reservas, é algo que vão querer fazer pelo resto de suas vidas.

Eu espero ter contribuído um pouco para que isso se realize com sucesso.

Obrigado!

Danny Marks


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