quinta-feira, 2 de abril de 2009

Visão Critica e Mercado Literário (1/2)


O que é SER Escritor?

Escrever é uma capacidade que toda pessoa alfabetizada possui. Até mesmo uma criança pode escrever, colocar suas idéias e sentimentos em signos gráficos, porém para ser escritor é preciso algo mais do que simplesmente saber escrever, é preciso que haja um letramento.

O letramento ocorre quando desenvolvemos a leitura crítica, aquela que analisa o que está sendo visto (não apenas em termos de gostar ou não) descobrindo os signos e significados que o autor queria transmitir com a mensagem.

O letramento também contribui para expandir o universo interior dando a possibilidade de visualizar cenários a partir da escrita propriamente dita.

Cada palavra é importante dentro desse contexto, podendo fazer a diferença entre uma mensagem clara e uma com ruido.

Quando o leitor crítico se conecta com esse limbo imaginário, ele passa a usufruir um universo mágico que torna sua vida emocional e intelectual mais rica. É quando ocorre o apaixonamento pelas letras e, com isso, a necessidade de interagir mais com esse objeto de paixão.

Costuma-se dizer que o escritor sente uma compulsão para colocar uma idéia no papel, e essa idéia o persegue noite e dia até que ele a realize ou fique louco.

Essa é uma das formas que a paixão pela escrita assume. Essa vontade de se expressar pelas palavras e transmitir o que está habitando o universo interior é avassaladora e tende a aumentar com o passar do tempo.

A recomendação de muitos autores é: Livre-se disso, se puder, ou assuma que é o seu Karma e dedique-se intensamente a ele.


O Texto e suas várias formas

Cada texto tem um formato que deve se ajustar ao que se deseja transmitir e ao público que será o objetivo dessa mensagem.

Existem histórias complexas contadas com poucas palavras, outras exigem uma prolixidade maior para obter o seu efeito. Alguns textos exigem conhecimentos básicos para poderem ser interpretados, outros apenas o padrão cultural geral.

A questão passa a ser, qual a melhor forma de se comunicar com o seu público.

Bem, para isso é preciso que o autor conheça a si mesmo, descubra sobre o que gostaria de falar e se existe um público disposto a ouvi-lo.

Então pode fazer uso das inúmeras formas de literatura e produção de textos existentes, quanto mais técnicas dominar, melhor será a transmissão da mensagem.

Para um autor iniciante o recomendado é que procure se aperfeiçoar primeiramente no que gosta de ler. Se gosta de poesias e escreve nessa área, dever buscar as melhores técnicas para a produção de poesia, ler os grandes mestres e estudar as suas formas e habilidades para poder se apropriar desse conhecimento.

Depois que já se sente mais confiante, o autor deve buscar outros formatos, como o hai kai, o microconto, a crônica, o conto, a noveleta ou mesmo o romance.

Textos técnicos possuem um formato muito mais restrito, para se enveredar por esse caminho é preciso que o autor tenha habilidade em outros formatos, ainda que não os use com freqüência, para poder dar ao seu público o nível de acessibilidade a mensagem que um romancista dá aos que o lêem.


Conhecer-se é o caminho

Para que se tenha a pretensão de transmitir algo para alguém, é necessário que haja alguma coisa a ser dita que seja relevante. Mais do que transmitir uma mensagem de forma perfeita é necessário saber o que se quer transmitir e para quem.

Portanto, é preciso que o autor conheça o seu universo interior de forma a escolher o que quer divulgar de si mesmo para o mundo, eternizá-lo em um texto que será desnudado por outros e apreciado ou rechaçado por estes à exaustão.

A prática da escrita é uma forma de auto conhecimento, que induz uma análise interior mais aprofundada e, por conseqüência, uma oportunidade de aprimoramento pessoal.

Nem todos os leitores serão capazes de entender o que o autor quer transmitir, alguns farão correlações erradas e poderão amar ou odiar o que está sendo interpretado, mas não exatamente o que foi dito.

Richard Bach diz que devemos falar a nossa verdade sem medo de como ela possa ser distorcida pelas interpretações que podem ser feitas, pelo simples fato de que precisamos falar as nossas verdades para poder olhar para elas com outros olhos e ver como elas se sustentam a partir daí.


Construindo um Conto.

Algumas pessoas tem a visão, errada, de que para se escrever um conto é preciso apenas ter uma idéia, qualquer idéia serve, o que importa é o talento.

Isso é um mito totalmente prejudicial. Para se escrever um conto ou qualquer outro texto, é preciso sim, em primeiro lugar, definir o que se quer transmitir e por que.

Definida a IDÈIA BASE, é necessário uma boa pesquisa sobre o tema a ser desenvolvido.

Por exemplo: Se a idéia versa sobre um romance entre um homem e uma mulher no século XIX, é preciso que se saiba como se vestem, o que comem, qual o nível social em que estão inseridos e o que isso resulta em termos práticos de influência na construção da personalidade dos personagens.

Alguns dirão que se o romance for nos dias atuais fica mais simples. É um engano. As pessoas que moram na periferia de São Paulo vivem de uma forma diferente das que moram no centro. Os sotaques, as roupas, as perspectivas de futuro, as formas de amar e odiar, tudo isso é condicionado pelo ambiente em que suas personas se formam e influencia as suas decisões. Imaginem então se for em outra cidade ou pais? Cada cultura é ao mesmo tempo global e local. Sem falar que é necessário um conhecimento do ambiente em que os acontecimentos irão ocorrer. Escrever sobre uma casa com quintal é diferente de escrever sobre um apartamento, as vivências são diferentes.

Depois de feita a pesquisa e se apropriado de todo o conhecimento base é preciso definir o formato.

Um conto pode ser em primeira ou terceira pessoa, pode ter um orador onisciente ou a perspectiva do personagem, pode ter um ou mais oradores, cronologia ascendente, descendente, intercalada, enfim, cada detalhe tem que influenciar a trama de alguma forma e criar um clima que seja atrativo.

O fundamental é deixar a idéia fluir nos primeiros instantes, depois que se pensou bastante nela, que se pesquisou todos os detalhes, que já se tem os “quadros mentais” na cabeça, despeja-se tudo isso na tela do computador ou em uma folha, da forma como vier.

Depois se enterra essa coisa em algum lugar pelo tempo necessário para que nos esqueçamos de tudo o que foi escrito.

O próximo passo é acionar o sensor interno, buscar o revisor mais chato e crítico que conseguirmos desenvolver em nós mesmos e ler, minuciosamente, como se o texto não nos pertencesse e com a arrogância de um grande mestre da literatura.

O objetivo é percebermos que podemos escrever melhor do que “aquilo” que “alguém” escreveu.

Corte sem pena os adjetivos, veja se alguma palavra é realmente necessária ou se pode ser arrancada do texto sem que faça falta na trama. Cada objeto, personagem, palavra, pontuação tem que estar ocupando um lugar objetivo no texto, para que a mensagem seja clara e não haja distorções na interpretação.


EU SOU DEUS e meu Conto é minha Criação

O EGO é o pior inimigo de todo artista.

Quando o Ego fica maior do que o talento, a sombra projetada por ele apaga o brilho da obra e a carreira desmorona.

Para evitar que o ego interfira com a sua criação, é preciso que seja objetivo, faça perguntas do tipo:

- A mensagem original está lá? (Narrativa Curta)

- Ela se basta sozinha ou precisa de algo mais para complementá-la? (Noveleta)

- Fica a impressão de que algo está faltando, mesmo tudo o que precisava ser dito esteja no texto, como se fosse um resumo da ópera? (Romance)

- A forma como foi escrita a idéia é a correta ou ela fica melhor de outra forma? (Estilo)

Claro que conhecer os formatos padrão de escrita ajuda muito nessa fase, basta lembrar que eu já mencionei a necessidade de muito estudo e leitura. Conhecer o objeto da paixão é poder usufruir melhor desse prazer, tornando mais prazerosa a relação.


Textos Curtos X Idéias Complexas

Quando se chega à intimidade com a escrita, passa-se a brincar com as letras, a experimentar novas formas de prazer.

Uma única palavra pode conter uma miríade de significados, pode ser a chave para o entendimento de uma narrativa

E já que estou falando de prazer porque não brincar com uma palavra complexa que traduz idéias diferenciadas?

SEXO

Quando eu digo essa palavra, muitas pessoas imaginam imediatamente alguma coisa, que pode ou não ser a idéia que eu quero transmitir.

A palavra “Sexo” escrita em uma folha em branco pode assumir qualquer significado, é uma idéia complexa.

Inserida em um formulário sobre biótipo ela fica limitada à natureza física: Sexo Feminino, Sexo Masculino.

Se inserida em um texto sobre sexualidade ela pode assumir um ar acadêmico, tratando sobre as relações sexuais.

Se inserida em um texto ficcional ela pode assumir a forma de uma fantasia, um desejo, uma solicitação.

Enfim, a palavra em si assume vários significativos dependendo da forma e do veículo onde é utilizada.

Esse é o princípio da complexidade dos textos e da formatação das idéias. Cada palavra inserida mudando o contexto da idéia anterior, complementando ou modificar uma idéia, ou ainda, inserindo uma idéia completamente diferente.

Quando se escreve textos curtos a subjetividade aumenta e a complexidade do trabalho também. Um exemplo clássico é do microconto de Ernest Hemingway:

“Vende-se: sapatos de bebe. Nunca Usados.”

Todo um romance pode ser escrito a partir dessa idéia complexa e no entanto está tudo o que precisa ser dito neste pequeno espaço de seis palavras.

O leitor critico vai automaticamente se perguntar: Porque os sapatos estão sendo vendidos? Porque nunca foram usados? Há todo um enredo por trás desses sapatos, que está implícito neste conto. Pode-se imaginar uma mãe que por algum motivo não poderá ser mãe. Será que ficou estéril, será que o relacionamento se perdeu e ela desiludida se desfez dos seus sonhos? Porque vender algo que, todos sabemos lhe é tão caro, além do valor comercial? Porque não dá-los de presente? Existe todo um conflito por trás dessa simples história que nos remete a nuances cada vez mais profundos e complexos.

E se eu tentar remover uma única palavra, tudo se perde. Tente por exemplo tirar o “Vende-se” e todo o clima se desfaz, a frase muda de sentido e a idéia se perde.


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