quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A Última Pergunta - Isaac Asimov

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A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia 21 de Maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em direção à luz. A questão nasceu como resultado de uma aposta de cinco dólares movida a álcool, e aconteceu da seguinte forma: Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos fiéis assistentes de Multivac. Eles conheciam melhor do que qualquer outro ser humano o que se passava por trás das milhas e milhas da carcaça luminosa, fria e ruidosa daquele gigantesco computador. Ainda assim, os dois homens tinham apenas uma vaga noção do plano geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um humano solitário poderia sequer tentar entender. Multivac ajustava-se e corrigia-se sozinho. E assim tinha de ser, pois nenhum ser humano poderia fazê-lo com velocidade suficiente, e tampouco da forma adequada. Deste modo, Adell e Lupov operavam o gigante apenas sutil e superficialmente, mas, ainda assim, tão bem quanto era humanamente possível. Eles o alimentavam com novos dados, ajustavam as perguntas de acordo com as necessidades do sistema e traduziam as respostas que lhes eram fornecidas. Os dois, assim como seus colegas, certamente tinham todo o direito de compartilhar da glória que era Multivac.
Por décadas, Multivac ajudou a projetar as naves e enredar as trajetórias que permitiram ao homem chegar à Lua, Marte e Vênus, mas para além destes planetas, os parcos recursos da Terra não foram capazes de sustentar a exploração. Fazia-se necessária uma quantidade de energia grande demais para as longas viagens. A Terra explorava suas reservas de carvão e urânio com eficiência crescente, mas havia um limite para a quantidade de ambos. No entanto, lentamente Multivac acumulou conhecimento suficiente para responder questões mais profundas com maior fundamentação, e, em 14 de Maio de 2061, o que não passava de teoria tornou-se real.
A energia do sol foi capturada, convertida e utilizada diretamente em escala planetária. Toda a Terra paralisou suas usinas de carvão e fissões de urânio, girando a alavanca que conectou o planeta inteiro a uma pequena estação, de uma milha de diâmetro, orbitando a Terra à metade da distância da Lua. O mundo passou a correr através de feixes invisíveis de energia solar. Sete dias não foram o suficiente para diminuir a glória do feito e Adell e Lupov finalmente conseguiram escapar das funções públicas e encontrar-se em segredo onde ninguém pensaria em procurá-los, nas câmaras desertas subterrâneas onde se encontravam as porções do esplendoroso corpo enterrado de Multivac. Subutilizado, descansando e processando informações com estalos preguiçosos, Multivac também havia recebido férias, e os dois apreciavam isso.
A princípio, eles não tinham a intenção de incomodá-lo. Haviam trazido uma garrafa consigo e a única preocupação de ambos era relaxar na companhia do outro e da bebida. “É incrível quando você para pra pensar”, disse Adell. Seu rosto largo guardava as linhas da idade e ele agitava o seu drink vagarosamente, enquanto observava os cubos de gelo nadando desengonçados. “Toda a energia que for necessária, de graça, completamente de graça! Energia suficiente, se nós quiséssemos, para derreter toda a Terra em uma grande gota de ferro líquido, e ainda assim não sentiríamos falta da energia utilizada no processo. Toda a energia que nós poderíamos um dia precisar, para sempre e eternamente”. Lupov movimentou a cabeça para os lados. Ele costumava fazer isso quando queria contrariar, e agora ele queria, em parte porque havia tido de carregar o gelo e os utensílios.
“Eternamente não”, ele disse.
“Ah, diabos, quase eternamente. Até o sol se apagar, Bert”.
“Isso não é eternamente”.
“Está bem. Bilhões e bilhões de anos. Dez bilhões, talvez. Está satisfeito?”. Lupov passou os dedos por entre seus finos fios de cabelo, como que para se assegurar de que o problema ainda não estava acabado e tomou um gole gentil da sua bebida.
“Dez bilhões de anos não é a eternidade”.
“Bom, vai durar pelo nosso tempo, não vai?”.
“O carvão e o urânio também iriam”.
“Está certo, mas agora nós podemos ligar cada nave individual na Estação Solar, e elas podem ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nunca nos preocuparmos com o combustível. Você não conseguiria fazer isso com carvão e urânio. Se não acredita em mim, pergunte ao Multivac”.
“Não preciso perguntar a Multivac. Eu sei disso”.
“Então trate de parar de diminuir o que Multivac fez por nós”, disse Adell nervosamente, “Ele fez tudo certo”.
“E quem disse que não fez? O que estou dizendo é que o sol não vai durar para sempre. Isso é tudo que estou dizendo. Nós estamos seguros por dez bilhões de anos, mas e depois?”. Lupov apontou um dedo levemente trêmulo para o companheiro. “E não venha me dizer que nós iremos trocar de sol”.
Houve um breve silêncio. Adell levou o copo aos lábios apenas ocasionalmente e os olhos de Lupov se fecharam. Descansaram um pouco, e quando suas pálpebras se abriram, disse: “você está pensando que iremos conseguir outro sol quando o nosso estiver acabado, não está?”.
“Não, não estou pensando”.
“É claro que está. Você é fraco em lógica, esse é o seu problema. É como o personagem da história, que, quando surpreendido por uma chuva, corre para um grupo de árvores e abriga-se embaixo de uma. Ele não se preocupa porque quando uma árvore fica molhada demais, simplesmente vai para baixo de outra”.
“Entendi”, disse Adell. “Não precisa gritar. Quando o sol se for, as outras estrelas também terão se acabado”.
“Pode estar certo que sim”, murmurou Lupov. “Tudo teve início na explosão cósmica original, o que quer que tenha sido, e tudo terá um fim quando as estrelas se apagarem. Algumas se apagam mais rápido que as outras. Ora, as gigantes não duram cem milhões de anos. O sol irá brilhar por dez bilhões de anos e talvez as anãs permaneçam assim por duzentos bilhões. Mas nos dê um trilhão de anos e só restará a escuridão. A entropia deve aumentar ao seu máximo, e é tudo”.
“Eu sei tudo sobre a entropia”, disse Adell, mantendo a dignidade.
“Duvido que saiba”.
“Eu sei tanto quanto você”.
“Então, você sabe que um dia tudo terá um fim”.
“Está certo. E quem disse que não terá?”.
“Você disse, seu tonto. Você disse que nós tínhamos toda a energia de que precisávamos, para sempre. Você disse ‘para sempre’…”.
Era a vez de Adell contrariar: “talvez nós possamos reconstruir as coisas de volta um dia”, ele disse.
“Nunca”.
“Por que não? Algum dia…”.
“Nunca”.
“Pergunte a Multivac”.
“Você pergunta a Multivac. Eu te desafio. Aposto cinco dólares que isso não pode ser feito”.
Adell estava bêbado o bastante para tentar, e sóbrio o suficiente para construir uma sentença com os símbolos e as operações necessárias em uma questão que, em palavras, corresponderia a esta: “a humanidade poderá um dia sem nenhuma energia disponível ser capaz de reconstituir o sol à sua juventude, mesmo depois de sua morte?”. Ou talvez a pergunta possa ser posta de forma mais simples da seguinte maneira: “A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida?”. Multivac mergulhou em silêncio. As luzes brilhantes cessaram, os estalos distantes pararam. E então, quando os técnicos assustados já não conseguiam mais segurar a respiração, houve uma súbita volta à vida no visor integrado àquela porção de Multivac. Cinco palavras foram impressas: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA”.
Na manhã seguinte, os dois, com dor de cabeça e a boca seca, já não lembravam do incidente.
* * *
Jerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a paisagem estelar no visor se transformar, enquanto a passagem pelo hiperespaço consumava-se em uma fração de segundos. De repente, a presença fulgurante das estrelas deu lugar a um disco solitário e brilhante, semelhante a uma peça de mármore centralizada no televisor. “Este é X-23”, disse Jerrodd em tom de confidência. Suas mãos finas se apertaram com força por trás das costas até que as juntas ficassem pálidas. As pequenas Jerodettes haviam experimentado uma passagem pelo hiperespaço pela primeira vez em suas vidas e ainda estavam conscientes da sensação momentânea de tontura. Elas cessaram as risadas e começaram a correr em volta da mãe, gritando: “nós chegamos em X-23, nós chegamos em X-23!”.
“Quietas, crianças”, disse Jerrodine asperamente. “Você tem certeza Jerrodd?”.
“E por que não teria?”, perguntou Jerrodd, observando a protuberância metálica que jazia abaixo do teto. Tinha o comprimento da sala, desaparecendo nos dois lados da parede, e, em verdade, era tão longa quanto a nave. Jerrodd possuía conhecimentos muito limitados acerca do sólido tubo de metal. Sabia, por exemplo, que se chamava Microvac, que era permitido lhe fazer questões quando necessário, e que ele tinha a função de guiar a nave para um destino pré-estabelecido, além de abastecer-se com a energia das várias Estações Sub-Galácticas e fazer os cálculos para saltos no hiperespaço.
Jerrodd e sua família tinham apenas de aguardar e viver nos confortáveis compartimentos da nave. Alguém um dia disse a Jerrodd que as letras “ac” na extremidade de Microvac significavam “automatic computer” em inglês arcaico, mas ele mal era capaz de se lembrar disso. Os olhos de Jerrodine ficaram úmidos quando observava o visor. “Não tem jeito. Ainda não me acostumei com a idéia de deixar a Terra”.
“Por que, meu Deus?”, inquiriu Jerrodd. “Nós não tínhamos nada lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma pioneira. Há mais de um milhão de pessoas no planeta. Por Deus, nosso bisneto terá que procurar por novos mundos porque X-23 já estará super povoado”. E, depois de uma pausa reflexiva: “no ritmo em que a raça tem se expandido, é uma benção que os computadores tenham viabilizado a viagem interestelar”.
“Eu sei, eu sei”, disse Jerrodine com descaso.
Jerrodete I disse prontamente: “nosso Microvac é o melhor de todos”.
“Eu também acho”, disse Jerrodd, alisando o cabelo da filha.
Ter um Microvac próprio produzia uma sensação aconchegante em Jerrodd e o deixava feliz por fazer parte daquela geração e não de outra. Na juventude de seu pai, os únicos computadores haviam sido máquinas monstruosas, ocupando centenas de milhas quadradas, e cada planeta abrigava apenas um. Eram chamados de ACs Planetários. Durante um milhar de anos, eles só fizeram aumentar em tamanho, até que, de súbito, veio o refinamento. No lugar dos transistores, foram implementadas válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos ACs Planetários fosse reduzido à metade do volume de uma espaçonave. Jerrodd sentiu-se elevado, como sempre acontecia quando pensava que seu Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o antigo e primitivo Multivac que pela primeira vez domou o sol, e quase tão complexo quanto o AC Planetário da Terra, o maior de todos, quando este solucionou o problema da viagem hiperespacial e tornou possível ao homem chegar às estrelas.
“Tantas estrelas, tantos planetas…”, pigarreou Jerrodine, ocupada com seus pensamentos. “Eu acho que as famílias estarão sempre à procura de novos mundos, como nós estamos agora”.
“Não para sempre”, disse Jerrodd, com um sorriso. “A migração vai terminar um dia, mas não antes de bilhões de anos. Muitos bilhões. Até as estrelas têm um fim, você sabe. A entropia precisa aumentar”.
“O que é entropia, papai?”, Jerrodette II perguntou, interessada.
“Entropia, meu bem, é uma palavra para o nível de desgaste do Universo. Tudo se gasta e acaba, foi assim que aconteceu com o seu robozinho de controle remoto, lembra?”.
“Você não pode colocar pilhas novas, como em meu robô?”.
“As estrelas são as pilhas do universo, querida. Uma vez que elas estiverem acabadas, não haverá mais pilhas”.
Jerrodette I se prontificou a responder: “não deixe, papai. Não deixe que as estrelas se apaguem”.
“Olha o que você fez”, sussurrou Jerrodine, exasperada.
“Como eu ia saber que elas ficariam assustadas?”, Jerrodd sussurrou de volta.
“Pergunte ao Microvac”, propôs Jerrodette I. “Pergunte a ele como acender as estrelas de novo”.
“Vá em frente”, disse Jerrodine. “Ele vai aquietá-las.” (Jerrodette II já estava começando a chorar).
Jerrodd se mostrou incomodado. “Bem, bem, meus anjinhos, vou perguntar a Microvac. Não se preocupem, ele vai nos ajudar”. Ele fez a pergunta ao computador, adicionando, “Imprima a resposta”. Jerrodd olhou para a o fino pedaço de papel e disse, alegremente: “viram? Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não há porque se preocupar”. Jerrodine completou rapidamente, para encerrar o assunto: “E agora crianças, é hora de ir para a cama. Em breve nós estaremos em nosso novo lar”. Jerrodd leu as palavras no papel mais uma vez antes de destruí-lo: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA”. Ele deu de ombros e olhou para o televisor.
X-23 estava logo à frente.
* * *
VJ-23X de Lameth fixou os olhos nos espaços negros do mapa tridimensional em pequena escala da Galáxia e disse: “me pergunto se não é ridículo nos preocuparmos tanto com esta questão”. MQ-17J de Nicron balançou a cabeça: “creio que não. No presente ritmo de expansão, você sabe que a galáxia estará completamente tomada dentro de cinco anos”. Ambos pareciam estar nos seus vinte anos, eram altos e tinham corpos perfeitos.
“Ainda assim”, disse VJ-23X, “hesitei em enviar um relatório pessimista ao Conselho Galáctico”.
“Eu não consigo pensar em outro tipo de relatório. Agite-os. Nós precisamos chacoalhá-los um pouco”, disse MQ-17J.
VJ-23X suspirou: “o espaço é infinito. Cem bilhões de galáxias estão a nossa espera. Talvez mais”.
“Cem bilhões não é o infinito, e está ficando menos ainda a cada segundo. Pense! Há vinte mil anos, a humanidade solucionou pela primeira vez o paradigma da utilização da energia solar, e, poucos séculos depois, a viagem interestelar tornou-se viável. A humanidade demorou um milhão de anos para encher um mundo pequeno e, depois disso, quinze mil para abarrotar o resto da galáxia. Agora a população dobra a cada dez anos”.
VJ-23X interrompeu: “devemos agradecer à imortalidade por isso”.
“Muito bem. A imortalidade existe e nós devemos levá-la em conta. Admito que ela tenha o seu lado negativo. O AC Galáctico já solucionou muitos problemas, mas, ao fornecer a resposta sobre como impedir o envelhecimento e a morte, sobrepujou todas as outras conquistas”.
“No entanto, suponho que você não gostaria de abandonar a vida”.
“Nem um pouco”, respondeu MQ-17J, emendando: “ainda não. Eu não estou velho o bastante. Você tem quantos anos?”.
“Duzentos e vinte e três, e você?”.
“Ainda não cheguei aos duzentos. Mas, voltando à questão: a população dobra a cada dez anos, uma vez que esta galáxia estiver lotada, haverá uma outra cheia dentro de dez anos. Mais dez e teremos ocupado por inteiro mais duas galáxias. Outra década e encheremos mais quatro. Em cem anos, contaremos um milhar de galáxias transbordando de gente. Em mil anos, um milhão de galáxias. Em dez mil, todo o universo conhecido. E depois?”.
VJ-23X disse: “além disso, há um problema de transporte. Eu me pergunto quantas unidades de energia solar serão necessárias para movimentar as populações de uma galáxia para outra”.
“Boa questão. No presente momento, a humanidade consome duas unidades de energia solar por ano”.
“Da qual a maior parte é desperdiçada. Afinal, nossa galáxia sozinha produz mil unidades de energia solar por ano e nós aproveitamos apenas duas”.
“Certo, mas mesmo com 100% de eficiência, podemos apenas adiar o fim. Nossa demanda energética tem crescido em progressão geométrica, de maneira ainda mais acelerada do que a população. Ficaremos sem energia antes mesmo que nos faltem galáxias. É uma boa questão. De fato uma ótima questão”.
“Nós precisaremos construir novas estrelas a partir do gás interestelar”.
“Ou a partir do calor dissipado?”, perguntou MQ-17J, sarcástico.
“Pode haver algum jeito de reverter a entropia. Nós devíamos perguntar ao AC Galáctico”, VJ-23X não estava realmente falando sério, mas MQ-17J retirou o seu Comunicador-AC do bolso e colocou na mesa diante dele. “Parece-me uma boa ideia”, ele disse. “É algo que a raça humana terá de enfrentar um dia”. Ele lançou um olhar sóbrio para o seu pequeno Comunicador-AC. Tinha apenas duas polegadas cúbicas e nada dentro, mas estava conectado através do hiperespaço com o poderoso AC Galáctico que servia a toda a humanidade. O próprio hiperespaço era parte integral do AC Galáctico. MQ-17J fez uma pausa para pensar se algum dia em sua vida imortal teria a chance de ver o AC Galáctico. A máquina habitava um mundo dedicado, onde uma rede de raios de força emaranhados alimentava a matéria dentro da qual ondas de submésons haviam tomado o lugar das velhas e desajeitadas válvulas moleculares. Ainda assim, apesar de seus componentes etéreos, o AC Galáctico possuía mais de mil pés de comprimento.
De súbito, MQ-17J perguntou para o seu Comunicador-AC: “poderá um dia a entropia ser revertida?”.
VJ-23X disse, surpreso: “Oh, eu não queria que você realmente fizesse essa pergunta.”
“Por que não?”.
“Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode construir uma árvore de volta a partir de fumaça e cinzas”.
“Existem árvores no seu mundo?”, perguntou MQ-17J.
O som do AC Galáctico fez com que silenciassem. Sua voz brotou melodiosa e bela do pequeno Comunicador-AC em cima da mesa. Dizia: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA”.
VJ-23X disse: “viu!”.
Os dois homens retornaram à questão do relatório que tinham de apresentar ao conselho galáctico.
* * *
A mente de Zee Prime navegou pela nova galáxia com um leve interesse nos incontáveis turbilhões de estrelas que pontilhavam o espaço. Ele nunca havia visto aquela galáxia antes. Será que um dia conseguiria ver todas? Eram tantas, cada uma com a sua carga de humanidade. Ainda que essa carga fosse, virtualmente, peso morto. Há tempos a verdadeira essência do homem habitava o espaço. Mentes, não corpos! Há eons os corpos imortais ficaram para trás, em suspensão nos planetas. De quando em quando erguiam-se para realizar alguma atividade material, mas estes momentos tornavam-se cada vez mais raros. Além disso, poucos novos indivíduos vinham se juntar à multidão incrivelmente maciça de humanos, mas o que importava? Havia pouco espaço no universo para novos indivíduos. Zee Prime deixou seus devaneios para trás ao cruzar com os filamentos emaranhados de outra mente.
“Sou Zee Prime, e você?”.
“Dee Sub Wun. E a sua galáxia, qual é?”.
“Nós a chamamos apenas de Galáxia. E você?”.
“Nós também. Todos os homens chamam as suas Galáxias de Galáxias, não é?”.
“Verdade, já que todas as Galáxias são iguais”.
“Nem todas. Alguma em particular deu origem à raça humana. Isso a torna diferente”.
Zee Prime perguntou: “em qual delas?”.
“Não posso responder. O AC Universal deve saber”.
“Vamos perguntar? Estou curioso!”.
A percepção de Zee Prime se expandiu até que as próprias Galáxias encolhessem e se transformassem em uma infinidade de pontos difusos a brilhar sobre um largo plano de fundo. Tantos bilhões de Galáxias, todas abrigando seus seres imortais, todas contando com o peso da inteligência em mentes que vagavam livremente pelo espaço. E ainda assim, nenhuma delas se afigurava singular o bastante para merecer o título de Galáxia original. Apesar das aparências, uma delas, em um passado muito distante, foi a única do universo a abrigar a espécie humana. Zee Prime, imerso em curiosidade, chamou: “AC Universal! Em qual Galáxia nasceu o homem?”.
O AC Universal ouviu, pois em cada mundo e através de todo o espaço, seus receptores faziam-se presentes. E cada receptor ligava-se a algum ponto desconhecido onde se assentava o AC Universal através do hiperespaço. Zee Prime sabia de um único homem cujos pensamentos haviam penetrado no campo de percepção do AC Universal, e tudo o que ele viu foi um globo brilhante difícil de enxergar, com dois pés de comprimento. “Como pode o AC Universal ser apenas isso?”, Zee Prime perguntou. “A maior parte dele permanece no hiperespaço, onde não é possível imaginar as suas proporções”.
Ninguém podia, pois a última vez em que alguém ajudou a construir um AC Universal jazia muito distante no tempo. Cada AC Universal planejava e construía seu sucessor, no qual toda a sua bagagem única de informações era inserida. O AC Universal interrompeu os pensamentos de Zee Prime, não com palavras, mas com orientação. Sua mente foi guiada através do espesso oceano das Galáxias, e uma em particular expandiu-se e se abriu em estrelas. Um pensamento lhe alcançou, infinitamente distante, infinitamente claro. “ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM”.
Ela não tinha nada de especial, era como tantas outras. Zee Prime ficou desapontado. Dee Sub Wun, cuja mente acompanhara a outra, disse de súbito: “e alguma dessas é a estrela original do homem?”. O AC Universal disse: “A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM ENTROU EM COLAPSO. AGORA É UMA ANÃ BRANCA”.
“Os homens que lá viviam morreram?”, perguntou Zee Prime, sem pensar.
“UM NOVO MUNDO FOI ERGUIDO PARA SEUS CORPOS, HÁ TEMPOS”.
“Sim, é claro”, disse Zee Prime. Sentiu uma distante sensação de perda tomar-lhe conta. Sua mente soltou-se da Galáxia do homem e perdeu-se entre os pontos pálidos e esfumaçados. Ele nunca mais queria vê-la.
Dee Sub Wun disse: “o que houve?”.
“As estrelas estão morrendo. Aquela que serviu de berço à humanidade já está morta”.
“Todas devem morrer, não?”.
“Sim. Mas quando toda a energia acabar, nossos corpos irão finalmente morrer, e você e eu partiremos junto com eles”.
“Vai levar bilhões de anos”.
“Não quero que isso aconteça nem em bilhões de anos. AC Universal! Como a morte das estrelas pode ser evitada?”.
Dee Sub Wun disse perplexo: “você perguntou se há como reverter a direção da entropia!”.
E o AC Universal respondeu: “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA”.
Os pensamentos de Zee Prime retornaram para sua Galáxia. Não dispensou mais atenção a Dee Sub Wun, cujo corpo poderia estar a trilhões de anos luz, ou na estrela vizinha do corpo de Zee Prime. Não importava. Com tristeza, Zee Prime passou a coletar hidrogênio interestelar para construir uma pequena estrela para si. Se as estrelas devem morrer, ao menos algumas ainda podiam ser construídas.
* * *
O Homem pensou consigo mesmo, pois, de alguma forma, ele era apenas um. Consistia de trilhões, trilhões e trilhões de corpos muito antigos, cada um em seu lugar, descansando incorruptível e calmamente, sob os cuidados de autômatos perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos haviam escolhido fundir-se umas às outras, indistintamente. “O Universo está morrendo”, concluiu o Homem ao contemplar as Galáxias opacas. As estrelas gigantes, esbanjadoras, há muito não existiam. Desde o passado mais remoto, praticamente todas as estrelas consistiam em anãs brancas, lentamente esvaindo-se em direção à morte.
Novas estrelas foram construídas a partir da poeira interestelar, algumas por processo natural, outras pelo próprio Homem, e estas também já estavam em seus momentos finais. As Anãs brancas ainda podiam colidir e, das enormes forças resultantes, novas estrelas nascerem, mas apenas na proporção de uma nova estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e estas também se apagariam um dia. O Homem disse: “cuidadosamente controlada pelo AC Cósmico, a energia que resta em todo o Universo ainda vai durar por um bilhão de anos”.
“Ainda assim, vai eventualmente acabar. Por mais que possa ser poupada, uma vez gasta, não há como recuperá-la. A Entropia precisa aumentar ao seu máximo”.
“Pode a entropia ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico…”.
O AC Cósmico cercava-os por todos os lados, mas não através do espaço. Nenhuma parte sua permanecia no espaço físico. Jazia no hiperespaço e era feito de algo que não era matéria nem energia. As definições sobre seu tamanho e natureza não faziam sentido em quaisquer termos compreensíveis pelo Homem. “AC Cósmico”, disse o Homem, “como é possível reverter a entropia?”.
O AC Cósmico disse: “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA”.
O Homem disse: “colete dados adicionais”.
O AC Cósmico respondeu: “EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM BILHÕES DE ANOS. MEUS PREDESCESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES. MAS OS DADOS QUE TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES”.
“Haverá um dia”, disse o Homem, “em que os dados serão suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias concebíveis?”.
O AC Cósmico afirmou: “NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS”.
“Você vai continuar trabalhando nisso?”.
“VOU”.
O Homem disse: “nós iremos aguardar”.
* * *
As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após dez trilhões de anos de atividade. Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico. A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita, agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao zero absoluto.
O Homem perguntou: “AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Nada pode ser feito?”.
O AC respondeu: “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA”.
A última mente humana uniu-se às outras e apenas AC passou a existir – e, ainda assim, no hiperespaço.
* * *
A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem. Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência. A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender. No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis. Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento.
Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia. Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso. Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, AC organizou o programa. A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.
E AC disse: “FAÇA-SE A LUZ!”.
E fez-se a luz.
http://entrecontos.com/2015/12/01/a-ultima-pergunta-isaac-asimov/

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Saia Justa - Danny Marks


          Em meados da década de 50, em um certo país republicano, aconteceu um incidente que viria a se tornar uma lenda.
          Uma instituição de caridade, aproveitando o êxtase do período eleitoral, resolveu dar um jantar beneficente convidando o candidato que melhor se situava nas pesquisas para fazer um discurso.
          Por uma falha de comunicação, não apenas o candidato à senador Richard Elmm foi convidado, mas a sua concorrente Eva Thompson.
          Como os dois compareceram, a solução foi dar um espaço de tempo para cada e pedir que os discursos não envolvessem política, apenas para evitar um conflito.
          Richard subiu ao palco e fez um longo discurso sobre as qualidades de liderança do Homem. Seu poder e força de comando frente às dificuldades.  Um ataque direto à concorrente, feminista assumida e em notória desvantagem nas pesquisas.
          Foi a vez de Eva Thompson discursar.
          Vestindo um “tailleur” de um grande estilista da época, foi forçada a dar passos miúdos em direção ao púlpito pela saia justa que ia até os joelhos e restringia os seus movimentos.
          Eva quase teve um ataque ao perceber que a plataforma do púlpito era alta o suficiente para impedir que subisse nela com aquela maldita saia.
          Usando de todo o autocontrole que pôde reunir, puxou as saias bem para cima e apoiando-se no oratório conseguiu “escalar” o degrau.
          Com isso o microfone caiu e ela, em um impulso instintivo, abaixou-se para pegá-lo, forçando a costura da saia, que rompeu.
          Definitivamente a noite estava contra ela, mas decidira ir em frente, fosse como fosse.
          Fez um breve discurso sobre a capacidade intelectual superior da mulher que usava a criatividade, no lugar da força masculina, para superar as adversidades.
          Richard enfureceu-se e, levantando-se à sua mesa, rebateu:
          — Srta. Thompson, todos pudemos observar a suposta “superioridade da criatividade feminina”, quando teve dificuldades até para subir nesse púlpito. Coisa que qualquer homem faria com facilidade.
          A audiência congelou, os repórteres aguçaram os ouvidos.
          Todos queriam saber como Eva poderia responder àquilo.
          Ela deu uma piscadela e um sorriso maroto.
          — Sr. Richard, isso só prova a superioridade feminina nos mínimos detalhes. Se este púlpito fosse construído por uma mulher, seria mais baixo e até uma criança estaria segura nele. E se esta Saia Justa tivesse sido projetada por uma mulher, seria muito mais confortável.
          E virou a saia de forma que a costura ficasse de lado e terminou de rompê-la até o joelho, expondo uma bela e sedutora coxa.
          Com passos largos e graciosos, desceu do púlpito sob os aplausos de pé, da audiência.
          Em uma única noite Eva Thompson cunhou a expressão “Saia Justa”, criou a sensual saia com corte lateral que se tornou sucesso imediato e ainda conseguiu vencer as eleições por maioria absoluta de votos, contra todas as pesquisas em contrário.
          Pesquisas feitas por homens. É claro.

domingo, 29 de novembro de 2015

Verdade seja (Mal)dita (?) – Danny Marks


              Hoje fui limpar a geladeira e descobri uma alface americana em um canto insuspeito. Estava um pouco amarelada, a maioria das folhas já não serviam mais e isso apenas uma semana depois de ter sido comprada. Fiquei imediatamente furioso com isso.
              Mesmo com todas as técnicas que garantem que as verduras fiquem frescas por mais tempo, e algumas prometem conservar os seus legumes e vegetais por até meses com todo frescor, a minha alface havia se estragado quase completamente.
              Não tem como não ficar furioso com isso. Afinal, quem compra uma alface para ficar conservada por mais tempo é porque não pretende come-la antes desse tempo, não é mesmo? Propaganda enganosa contra si mesmo.
              Como comprar roupas para parecer mais magro, mais alto, em melhor forma física, “valorizando” o que, pelo próprio conceito implícito, já perdeu boa parte do valor que deveria ter.
              A indústria cosmética não conhece crise, essa é a grande e amarga verdade. E por indústria cosmética pode-se entender, em algum grau ou sob alguma perspectiva, um monte de coisas. Desde maquiagem até roupas, desde marketing de produtos até campanha política, desde filosofia popular até livro de autoajuda.
              A internet é a campeã da cosmética, sem dúvida. Ela propaga notícias velhas como se fossem atuais para atender ao interesse do momento, cria falsos testemunhos como se fossem fatos incontestáveis, desenvolve padrões de necessidades que nunca haviam sido percebidos pelos consumidores que seguem compulsivamente para a próxima compra.
              Mas há também as grandes festas do comercio, que anteriormente privilegiavam os governantes no controle das massas (pensando bem, acho que ainda o fazem, só é preciso definir o que é “governo”). São verdadeiras festas que oferecem tudo o que as pessoas não precisavam, mas que se não tiverem sentirão um deslocamento, uma culpa por terem se excluído de um processo que deve ajudar a própria sociedade gerando empregos diretos e indiretos na produção e venda de artigos que logo se tornarão a última moda e referência social.
              A verdade que parece sobressair disso tudo é que preferimos a mentira branda, aquela chamada de “branca” para dizer que tem boas intenções que a tornam mais aceitável e até, em alguns casos, desejável. Afinal é mais fácil responder àquela pergunta insegura sobre a beleza, a saúde, a inteligência, etc., com uma mentirinha branca, do tipo: Está melhor que nunca! Quase uma meia verdade, afinal, antes poderia estar bem pior, não é?
              Buscamos a beleza em todas as suas formas, mas queremos que ela seja entregue em uma bandeja de ouro por um serviço delivery, no horário programado e por um preço baixo. E não nos satisfazemos com menos, ou alguém (que pela própria concepção da palavra, será qualquer um menos eu) vai ter que pagar por isso.
              Condenamos a mentira alheia com outra mentira: Eu gosto é da verdade. Eu jamais minto. Comigo, se mentir uma vez, é a última. Mas quem está preparado de fato para a verdade? Ela costuma ser dura, cruel até, e chega em momentos terríveis destruindo qualquer ânimo, qualquer alegria do momento, certo? Talvez.
              Talvez seja necessário que aprendamos a lidar com a verdade de uma forma que ela não precise ser tão dura e destrutiva, ao contrário, que possa assumir uma condição de libertadora, de promotora do bem-estar, de geradora de ânimo. Como fazer isso? Começando por nós mesmos.
              Quando nos dispomos a mentir menos para nós mesmos já estamos aprendendo a lidar com a verdade de uma forma melhor. Começamos a perceber que há formas delicadas de apresentar coisas desagradáveis, que é possível apresentar o lado positivo de algo que pode dar trabalho a princípio, mas que vale a pena investir e colher os resultados ao longo do tempo.
              Quando sentir vontade de comprar algo, basta questionar-se se vai precisar mesmo daquilo para uso pessoal ou apenas para mostrar que possui, e se o desejo se mantiver, compre! Ao menos foi uma compra honesta e não vai haver arrependimentos depois, já que o objetivo verdadeiro foi alcançado.
              Se precisar de autoafirmação, diga antes como se sente, mas não imponha uma mentira que deseja ouvir. Estou tão feliz com esta roupa, não é? Você acredita que adorei de fazer este penteado? Estou acima do peso, mas me sentindo tão bem-disposto. Você não acha? Aceite a sua verdade e se não gostar do que descobrir, mude. Não obrigue ao outro que minta para lhe fazer feliz. Só você pode mudar o que está errado na sua vida, ainda que precise de alguma ajuda externa para isso.
              Não aceite mentiras, mas lute pela generosidade, pela delicadeza, pela sensibilidade com que a verdade pode e deve ser dita para você e para os outros. Claro que isso exige um certo trabalho, mas as melhores coisas da vida são conquistadas com trabalho. A palavra conquista já diz que a coisa não foi simples e fácil, mas que valeu a pena e sua permanência será mais duradoura do que aquilo que vem com muita facilidade: a mentira, por exemplo.
              Os ganhos vão ser imensos se conseguir lidar com a verdade, mesmo que seja com um mero silêncio quando não souber o que dizer de forma verdadeira e gentil. Um gesto de carinho pode ser um bom substituto nesses casos, mesmo que seja para consigo mesmo.
              Quando começamos a mentir menos, percebemos o peso que a mentira traz escondido na facilidade. Uma mentira obriga a outra mentira que a sustente e assim se constrói uma pirâmide que vai ficando cada vez maior e mais sufocante, até que a base se rompe e vem uma avalanche que pode soterrar a sua credibilidade entre os escombros.
              Ser gentil e verdadeiro comigo mesmo fez com que a raiva de ter gasto um dinheiro desnecessário se transformasse em uma proposta racional de ter mais qualidade de vida, uma alimentação melhor, mais organização nas minhas tarefas, um bem querer mais verdadeiro e uma tolerância sincera com as minhas dificuldades no caminho para ser melhor.
              Uma tolerância que fez com que a minha alface deixasse de ir completamente para o lixo e se transformasse em uma deliciosa salada, que me incentivou a escrever um texto sobre o assunto e a limpar não apenas a geladeira, mas a casa toda, e a me livrar de um monte de coisas que estavam guardadas apodrecendo em cantos insuspeitos.
              A verdade pode não te dar asas, mas com certeza te faz se sentir bem mais leve para consigo mesmo e para com os outros. E quem não aprecia a leveza delicada da sinceridade?


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Paradoxismos - Danny Marks


Eu sempre gostei de paradoxos. Chama a minha atenção essa coisa quase impossível de existir. Dois opostos perfeitos em rota de colisão que extrapolam as leis da lógica por existirem em um nível diferente.
Mas ultimamente tenho me assustado com os paradoxos.
Já estava intrigado com a imensa quantidade de pessoas que optavam por gravar em vídeo com seus celulares, eventos em que se esforçaram para estar, e que poderiam vivenciar depois nas imagens ruins, não naquele momento em que precisavam compor a prova de sua participação. Participação?
Mas paradoxos são surpreendentes. Em um barzinho de uma certa cidade um grupo de Death Metal, cuja tradução seria “Metal da Morte”, tocava para um grupo de jovens as suas músicas falando de morte, violência, da fragilidade da vida, esses temas niilistas que agradariam a Nietzche se vivesse hoje em dia, teve seu show interrompido por outro grupo de jovens que, em nome de uma suposta religiosidade, levaram violência, morte, e demonstraram a fragilidade da vida com balas de metralhadora e bombas, destruindo tantos quanto puderam antes de destruírem-se também.
Em outra cidade, uma empresa que tira o seu lucro de desenterrar riquezas do solo, provoca uma catástrofe sem precedentes na história da humanidade, enterrando um rio com toda a sua fauna e flora, uma cidade com seus habitantes, uma cultura local que jamais vai se recuperar do pesadelo de lama que a soterrou.
Em outra cidade manifestações acaloradas contra uma suposta peça de teatro, de gosto duvidoso, que recebeu mais publicidade gratuita que outras peças excelentes, devido a ser de gosto duvidoso e por ser financiada pelo governo. E o paradoxo não para aí, boa parte das pessoas que foram contra o financiamento do governo da tal “arte duvidosa” se beneficiam do financiamento do governo em programas de “socialização duvidosa”.
Sem falar naquele representante do povo que, sem consultar o povo que representa, decide fechar escolas para “melhorar a qualidade do ensino”. E os alunos que normalmente querem distancia da escola, tanto que é preciso fazer campanha e até lei para obriga-los a ir para a escola, decidem ocupar as escolas para defender o seu direito de ter uma escola para não ir, e até de ter professores para discutirem, baterem, ignorarem.
Eu adoro paradoxos porque eles escondem uma verdade mais profunda, algo que não é visto de cara. Há uma lógica que nos escapa aos sentidos e quando a percebemos, às vezes, até achamos engraçada e a chamamos de ironia.
E não conheço ninguém melhor para lidar e explicar a ironia inteligente do que o grande Machado de Assis, ele próprio uma ironia. Um negro, coxo, em uma sociedade escravagista, que passou para a história como um dos maiores críticos da sociedade e, que me corrijam os especialistas se puderem, o maior gênio e crítico da complexidade humana. Ler os textos que Machado de Assis escreveu há mais de um século é ter a impressão que foram produzidos ainda o ano passado, ou este.
Foi Machado que disse que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal. Foi o cara que escreveu a inacreditável história de um analista que queria curar a loucura, até descobrir que a única loucura que precisava ser curada era a dele. Antecipou a “Igreja do Diabo” onde tudo era permitido com a benção do capeta, que tinha a ilusão (e a concessão de Deus) de que ao fundar uma igreja conseguiria corromper de vez a humanidade, e acabou desconsolado com a contradição humana.
Ah, se houvesse uma maneira de trazer Machado à vida novamente para explicar os imensos paradoxos que a humanidade apresenta todos os dias. É nesses momentos em que os paradoxos se riem de nós, pobres mortais, porque Machado está vivo, suas palavras ainda estão acessíveis depois de sua morte sem que tenha uma única vez feito um selfie, gravado um vídeo.
Foi na contradição paradoxal de Machado de Assis que achei a resposta
"Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho. Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas." (Machado de Assis).
Como contestar isso?

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