quinta-feira, 2 de março de 2017

A Fabulosa Bola Quadrada – Danny Marks



          Deixe-me contar-lhe a história da Fabulosa Bola Quadrada, originária da fantástica terra de Obtusolândia. Uma terra tão boa que qualquer coisa que se plantasse por ali, dava e abundava até os horrores. E digo isso porque todos hão de saber que há sempre mais ervas daninhas que arvores frutíferas em qualquer pomar descuidado. Mas não nos desviemos, ainda, do rumo dessa interessante história sobre o inacreditável ocorrido nos idos de alguma década que não me vem à memória no momento, nesse paraíso de comércios e consumos.
          Não me recordo direito dos detalhes, ainda influenciado pelos efeitos da visita em Obtusolândia, de como a coisa se deu, mas digamos que havia uma nova perspectiva comercial muito boa, inspirada em algo semelhante que já ocorria em outras terras. Era a Bola Quadrada, um sucesso imediato entre os comerciantes e seus produtores. Houve um momento em que todo mundo se considerava capaz de produzir a sua própria bola quadrada e comercia-la, e isso gerou todo um modelo de negócio vantajoso para o comércio. Desde os maiores e mais preparados autores de bolas quadradas até os mais simples e inspirados, todos acabavam tendo sua chance de inserir suas produções artisticamente feitas com todos os ângulos desenhados para atender as expectativas dos que iriam confecciona-la. E as empresas que produziam bolas quadradas sob encomenda dos seus criadores, ganhavam muito dinheiro entregando seus produtos acabados em vários formatos para os seus autores, algumas até ofereciam brindes extras e outros penduricalhos para alavancar a venda da tal bola quadrada. Mas depois de algum tempo começou a haver reclamações, os autores trocavam, doavam, pagavam para que outros autores falassem sobre suas bolas quadradas e como eram maravilhosas, mas não havia consumidores para elas. Ninguém que não era autor de bolas quadradas ou amigo dos autores ou parente dos autores, ou produtor de bolas quadradas para autores, queria comprar o produto e assim o negócio foi definhando. Houve um ou outro que tentou apresentar um novo modelo, um Poli Dodecaedro, mas foram escorraçados pelos famosos entre si, autores de bolas quadradas que chamavam aquilo de imitação do produto estrangeiro, cheio de pontas e ângulos que doíam só de olhar. E, por falta de novos clientes autores de bolas quadradas, até mesmo as produtoras acabaram deixando a Obtusolândia e indo trabalhar em outras terras, onde se vendia bolas redondas para outro tipo de público.
          Ok, deve estar me perguntando que porcaria de história ridícula é essa. Mas é o mesmo tipo de pergunta que me faço quando falam na “crise do livro brasileiro”. Como assim? Até onde sei, para que haja uma crise comercial, em algum momento teve um comércio vigoroso que entrou em declínio por algum fator a ser analisado. A menos que o nome da crise esteja errado, por motivos quaisquer que possam haver. Quando me falam das “grandes livrarias” fechando as portas e saindo do país, e como isso vai afetar as vendas de livros nacionais, quando ouço falar nas tecnologias que ”estão matando” o hábito de ler, quando ouço dizerem que “esta nova geração” não gosta de leituras, fico completamente confuso quanto a quem essas pessoas se referem.
          Vejo muitos jovens lendo, boa parte em formatos de eBooks nos celulares que (pasmem) permitem esse tipo de leitura também (!) porque são mais acessíveis no preço (absurdo) que os livros físicos são vendidos. Sem falar que houve toda uma campanha em rádio e tv (e nas próprias publicações impressas) quando lançaram os eBooks para que evitassem derrubar arvores para fazer papel (hoje nem se fala mais nisso, acho que acabaram as arvores ou a vontade mudou). Eu vejo editoras investindo em autores novos, no sentido de tentar cada vez mais ter autores publicando com eles. Todos os dias novas editoras (e outras já estabelecidas) incentivam os autores a estarem enviando seus originais para avaliação. Nunca se escreveu tanto neste país, em diversas plataformas, eletrônicas ou aquelas mais formais, em livro. Chovem resenhas, e citações, e comentários de livros de autores nacionais, crescem os blogs literários, criou-se até um comercio (escondido, mas que todos sabem que existe) de “leituras” e “likes” e recomendações de livros de autores que “são um sucesso de vendas”.
          Então como é possível que as livrarias estejam fechando? Como é possível que haja uma crise nesse meio? Pois é, há uma crise e não é nova. Na verdade, todo o modelo comercial foi estruturado de forma errada. Quando se foca um modelo comercial na produção estrangeira, quando se cria uma demanda nacional sem um estudo completo do negócio, se estabelece a base para uma crise séria, uma base que se assemelha a uma “pirâmide”. É, aquela daquele golpe clássico em que é preciso haver sempre uma “injeção” de novos “contribuintes” para que não desabe sobre si mesma. Até os que já obtiveram lucros em algum momento são incitados a se reinserir na base para que ela continue aumentando, até que tudo explode e muitos perdem para que poucos ganhem. E nunca se sabe em que estágio da “pirâmide” se vai estar quando ela explodir, ou implodir, para ser mais exato.
          O negócio de livros é complexo e envolve muitas variáveis de investimento. O Governo diz que investe em livros, mas só faz é comprar livros clássicos para ser doado em escolas para alunos que não foram preparados para ler de forma crítica, mesmo livros modernos não funcionariam assim. Ok, vão falar que há autores nacionais muito ruins, e há de fato, mas onde estão as faculdades, os cursos técnicos, as oficinas públicas de Literatura? Há cursos (caros e muitas vezes inacessíveis) de escrita, mas quantos desses procuram formar LEITORES? Quantos desses ensinam como fazer uma leitura crítica? Ou mais importante, como formar leitores críticos para os livros existentes? Podemos reclamar que as livrarias vendem os livros caros, ao que elas vão dizer que pagam caro para obtê-los e mantê-los em estoque, até porque mais da metade (para não dizer quase todos) são de autores estrangeiros e apenas os nacionais que vendem muito (ou seja, que possuem um público já formado) são disponibilizados.
          Vejam a complexidade da coisa. Há investimentos que são feitos em um produto que ninguém conhece, para um consumidor que não sabe que necessita desse produto e que nem sabe para que serve, e quando não vende se fala em crise. Aí entra o governo com seus investimentos em produtos consagrados que mais ninguém quer, na tentativa de estimular a venda dos produtos mal-acabados feitos por principiantes que não tiveram condições alguma de aprimorar seus produtos e que se acham o máximo porque leram resenhas pagas para dizerem isso. E novamente se fala em crise. Alguma semelhança com a Obtusolândia e sua fantástica bola quadrada?
          Quantos autores se dedicam a criar um público leitor? Quantos falam de Livros que não sejam os seus? Que sejam de autores nacionais contemporâneos? Que ensinem como se lê um clássico ou mesmo um livro moderno? Que se aprimoram em técnicas de escrita para levar para seus leitores uma qualidade melhor, seja nos seus livros, seja na crítica que fazem de outros autores? Quantos incentivam a leitura seja no celular, no tablet, no notebook, no eReader, no livro físico, tendo como base a importância da leitura de qualidade e não do meio em que ela é feita?
          Lembro-me de um caso em que uma de minhas alunas não tirava os olhos do celular, enquanto tentava dar aula de como fazer uma resenha. Fui até ela e perguntei o que estava fazendo e ela me disse constrangida (assustada até) que estava lendo um livro. Achei interessante, nunca havia visto alguém ler no celular. Perguntei o que estava lendo, era um autor estrangeiro desses best sellers instantâneos. Perguntei se estava gostando. Disse que sim. Então pedi que fizesse um resumo da história, uma apresentação do livro para os colegas de classe. Ela foi engatinhando na coisa e fui ajudando (eu havia lido o tal livro e detestado, mas o objetivo não era expor a minha opinião ou debate-la com pessoas menos preparadas) e ela foi se entusiasmando e fez um ótimo trabalho de estimular os colegas a ler. Aproveitei o gancho e sistematizei a resenha dela dentro de um modelo profissional de qualidade, que era o objetivo da aula.
          O que aconteceu? Todos prestaram atenção redobrada e me perguntaram se poderiam trazer as suas próprias resenhas de livros que estavam lendo para divulgar entre os colegas. Claro que incentivei e fizemos ótimas leituras de resenhas, com inúmeras sugestões de livros que poderiam ler. Até mesmo eu fiz algumas para demonstrar que havia autores nacionais contemporâneos ótimos e que mereciam um espaço. Mas quantos fazem algo do tipo? Quantos não teriam dito que “aula de literatura não é para ler” (oi??), ou então “guarde esse celular que aqui não é o lugar”, ou coisa pior ainda, matando o estímulo de leitura de alguém que só tinha condições de ler pelo celular, porque não podia comprar um aparelho mais adequado, porque não podia pagar o preço de um livro da moda, por morar em uma comunidade carente.
          Será que haveria crise se os investimentos no comercio de livros fossem mais estruturados com os verdadeiros consumidores? Se o governo criasse políticas para formar tanto leitores quanto autores qualificados, de forma que houvesse um crescimento da qualidade do produto e um incremento de toda uma nova forma mercadológica estruturada de ponta a ponta e não no velho “vai que dá certo” do jeitinho brasileiro? Informalidade não pode ser padrão, tem que ser exceção para poder funcionar direito. As livrarias poderiam reduzir seus estoques porque os autores nacionais são mais acessíveis, os livros impressos aqui mesmo, com tecnologias que seriam desenvolvidas aqui para os leitores nacionais, com o seu jeito específico de ler, sua cultura revisitada por autores que não teriam a preocupação de serem “vendáveis” como os estrangeiros.
          Poderia haver toda uma nova forma de negócio nas plataformas digitais, para todos os bolsos e gostos, que não seria exclusiva, mas complementar (eu mesmo leio e escrevo nos dois modelos, por que não?) com suas vantagens e desvantagens apreciadas pelo seu principal fomentador, os leitores. Poderia até mesmo haver um novo investimento em tecnologias mais baratas e acessíveis, modelos de distribuição de livros criados para atender as demandas de um país de nível continental. Quantos modelos menores de negócios poderiam ser criados a partir de um investimento no rumo certo, nos agentes certos, com a visão correta. O governo poderia investir em aparelhos para leituras de livros eletrônicos, com milhares de livros disponíveis para todos os gostos, em vez de comprar livros que muitas vezes vão para o lixo sem chegarem nunca na mão dos leitores a que se destinam (sim, já houve muito disso por aqui).
          Ou podemos nos juntar ao povo de Obtusolândia que não consegue entender por que uma bola quadrada não vende tão bem quanto as bolas redondas que são produzidas em outros lugares, mas são tão caras que se tornam proibitivas para o grande público, se resumindo a pequenos consumidores que as abandonam em troca de outras coisas mais “da moda”. Podemos continuar falando em crises, apontando os culpados, rindo dos polis dodecaedros que aparecerem, e dizendo que a culpa é do “governo”, da “falta de cultura do povo”, da péssima qualidade dos (outros) autores. E talvez um dia, não haja nem mais espaço para um blog sobre literatura que não seja a estrangeira. Difícil vai ser tentar vender resenhas para os autores de lá com a qualidade crítica das produzidas aqui. E então, a Fabulosa Bola Quadrada fará todo o sentido e eu terei sido apenas uma voz berrando na multidão ululante com suas ideias fechadas e suas bolas quadradas.

          Agora, diga-me, posso lhe contar uma boa história?
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