quinta-feira, 9 de junho de 2016

Conspiração: Uma Teoria – Danny Marks

          Vivemos na era da informação, portanto era de se esperar que as Teorias da Conspiração cairiam em desuso tanto no mundo real quanto na sua interpretação, o mundo das artes. Só esta frase já deveria denunciar o absurdo da afirmação, pois, em essência, é uma teoria da conspiração.
          Para entender o princípio de uma Teoria da Conspiração (TC) é preciso mergulhar em uma característica da mente humana, o reconhecimento e interpretação de padrões a partir de análises pré-concebidas. Essa ferramenta evolutiva é que permitiu a sobrevivência da espécie habilitando os portadores dessa característica de sobreviver em um mundo em que não havia tempo hábil para analisar se um perigo era real ou imaginário partindo de informações mínimas, como um som de galho quebrando, um arrepio instintivo, uma ausência de sons da natureza, etc.
          O predador estava sempre por perto, mas nem sempre visível, e poderia em um golpe repentino acabar com os menos vigilantes e desconfiados. Essa paranoia natural da vigilância influenciou a evolução humana de forma que pudesse sobreviver, mas também criou ferramentas de controle, de manipulação, de ajustes da própria condição humana.
          Quando a sociedade como a conhecemos foi instituída, os predadores mudaram e se adaptaram. A Polis obrigava a um novo tipo de relacionamento de comunidade que obrigava a determinadas regras públicas, a política, a arte de conviver com os semelhantes.
          Como todas as coisas que sobrevivem, sejam organismos vivos ou ideias, essa ferramenta evolutiva também evoluiu e adaptou-se ao meio. A história humana nos conta sobre os diversos complôs, esquemas subterrâneos que visavam alterar a ordem estabelecida, mudar os agentes supremos e recriar sociedades e parcerias. Como não poderia deixar de ser, a arte sempre buscou apresentar e reinterpretar a visão de mundo, permitindo revelar o que sempre se buscou ficar oculto e, para tanto, utiliza-se muitas vezes dos próprios princípios que pretende denunciar, até para desvelar melhor os seus mistérios.
          As primeiras TC do mundo artístico eram transmitidas de forma oral, ganhavam corpo e formas diversas na tradição cantada e contada, criando o que hoje chamaríamos de “lendas urbanas”. Eram excelentes formas de gerenciamento, transmissão de conhecimento e preparação para o difícil mundo de conviver com o poder subjetivo e efetivo a que a grande maioria das pessoas estava submetido. Mascaradas em mitos, fábulas, histórias de aventura e histórias morais, revelavam o que de outra forma não poderia ser dito, brincando com os medos e as verdades estabelecidas, encantando da mesma forma os algozes e as vítimas e, desta forma, sobrevivendo a qualquer tipo de controle, embora sendo ferramentas de controle.
          Neste trabalho serão reveladas algumas características básicas das TC e como são utilizadas para diversos fins, em especial a construção de textos literários ao longo dos tempos e suas diversas possibilidades e intersecções.

Estrutura de uma Teoria da Conspiração.

          Desde a mais simples até a mais complexa TC é necessário que haja uma estrutura elementar, que sustente de forma adequada todo o conjunto de intencionalidades e induções a que se destina. Sem esses elementos fundamentais teremos qualquer coisa semelhante, mas nunca uma teoria da conspiração.
          — Princípio da Universalidade – para funcionar adequadamente, uma TC precisa ser universal, ou seja, abranger de alguma forma conceitos que atinjam de igual forma todo o grupo ao qual atende.
          — Princípio da Realidade – sempre terá suas bases, por mais fantasiosos que forem os desenvolvimentos posteriores, na realidade e serão facilmente comprováveis os seus fundamentos mais poderosos. Sem esse apoio da verdade comprovável, tende a desmoronar sobre o peso de suas argumentações.
          — Principio da Simplicidade – Talvez o mais importante para que seja difundida, se baseia no fato de que precisa ter aceitação pelo maior grupo de indivíduos afetados de forma rápida. Portanto, por mais complexa que seja a TC ela será dividida em camadas consecutivas de forma que haja um aprofundamento gradual possível dos conceitos aplicados de forma que sempre pareça acessível aos que tiverem o interesse de mergulhar pelos seus subterrâneos. Qualquer indivíduo pode ir descortinando os seus segredos e “vendo” o que estava oculto aos demais. Esse fator de sedução e diferenciação do adepto contra o resto da sociedade o torna um conspirador favorável ou contrário, dando uma aura de mistério e carisma insuperável.
          — Principio da Solução – Aqui reside a força da TC. A capacidade de qualquer conspirador, favorável ou não, de solucionar os seus mistérios, ainda que de forma parcial. Funciona como um labirinto onde possibilidades diversas conduzem a finais alcançáveis mediante as capacidades dos investigadores. Todos que se dispuserem a buscar, encontrarão algo no final do percurso, ainda que seja um engodo criado apenas para satisfação dos que tentam destruir a estrutura principal. Uma boa TC tem que ser trabalhada como uma teia em que as estruturas secundárias suportem rompimentos de grandes seções sem desmontar completamente, até mesmo usando esse desmonte como um mecanismo de proteção e aprisionamento do investigador.
          Existem outras estruturas que poderiam ser descritas, mas apenas utilizando os Princípios elencados já é possível ter uma ideia de como funcionam.

LENDAS URBANAS

          Algumas TC se tornam clássicos populares, costumam ser simples e divertidas em suas formas didáticas de inserir valores relativos para a sociedade. É o caso, por exemplo, do “Pipoqueiro do Mal”, aquela figura simpática que fica em lugares públicos, normalmente próximo a escolas infantis, que adiciona drogas viciantes no seu produto, obrigando os incautos a comprarem sempre mais para suprir as necessidades do vício.
          Os fatos reais são fundamentados na oferta de produtos viciantes, que tornam uma ação altruísta algo nocivo. Brinca com a questão de que devemos desconfiar de tudo que nos é oferecido sem custo. Sobrevive na realidade dura das cidades onde traficantes verdadeiros oferecem a “prova” das drogas ilícitas para depois cobrarem altos custos dos viciados. Apesar disso é desmontada com facilidade diante de um raciocínio lógico: O custo da droga misturada à pipoca é muito superior a qualquer quantidade de pipoca vendida posteriormente.
          Mas o raciocínio se sustenta pela forma da metáfora, onde a “pipoca” pode ser qualquer coisa, desde o brinde de um pacote de figurinhas que só se justificam na compra do álbum e nas figurinhas que terão que ser compradas para o completar, até um animal de pelúcia na aquisição de um carro zero km.
          Esse princípio é o da “isca”, usa-se algo de valor intrínseco para atrair um consumo não desejado de algo que supera e inclui o valor do brinde ofertado. Quem nunca acabou “fisgado” por algumas revistas “grátis’ na assinatura dos novos exemplares, ou por uma “prova” de algum produto se entrar na loja para comprar algo? Esses recursos são amplamente utilizados e permanecem vivos porque produzem efeitos válidos.
          A lenda urbana do “Pipoqueiro do Mal” atinge o Princípio da Universalidade porque age diretamente na questão dos ícones da infância, qual a criança que não gosta de pipoca? O pipoqueiro está presente em todas as atrações mais divertidas, do circo ao cinema, do passeio no Zoológico à praça com brinquedos.
          O Princípio da Realidade é satisfeito pela questão de que não se sabe o caráter da pessoa que vende a pipoca. Não há como definir se aquela pessoa é alguém “do bem” só pelo ofício que exerce. Não se exige qualquer especialidade para exercer a profissão de pipoqueiro e é, normalmente, algo que passa uma imagem de inocência e confiabilidade.
          O Princípio da Simplicidade e o Princípio da Solução são satisfeitos pelo fato de que seus elementos compositores são tão profundos quanto se quiser aprofunda-los. Como foi dito anteriormente, seria ridículo contaminar as pipocas com drogas para aumentar o consumo, o custo x benefício seria comprometido, portanto a teoria se desmonta. Porém, por ninguém desconfiar do singelo pipoqueiro, ninguém vai pensar que ele pode ser um espião vigiando abertamente um local ou pessoas, ou mesmo que ele pode ser algum agente interessado em causar o pânico contaminando as pipocas com algum vírus que se disseminaria rapidamente pelo agrupamento. Poderiam ser inseridos contextos de complexidades diversas a partir do inocente pipoqueiro, e ainda teriam a proteção do “desmonte” programado. Quem iria acreditar no pipoqueiro envolvido em uma grande conspiração?
          Basta lembrar que um bom labirinto não apenas torna os caminhos semelhantes, mas induz a determinadas saídas e soluções que “desvelam” seus segredos, enquanto na verdade estão apenas escondendo à vista de todos o verdadeiro tesouro que guarda.

          Na TC não apenas o que é oculto tem importância, mas também o que é revelado, a forma como é revelado e quando é revelado, que muitas vezes servem de truques ilusionistas para desviar a atenção enquanto a verdadeira ação está acontecendo sob os olhares de todos, como um truque de mágica, até que seja tarde demais para impedir-se os efeitos. Essa estratégia é chamada de Camada (des)Informativa e trataremos dela a seguir.
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