quinta-feira, 30 de junho de 2016

A CONSPIRAÇÃO AOS OLHOS DE QUEM VÊ - Danny Marks


Veja a parte 1 em Conspiração: Uma Teoria
Veja a parte 2 em Camadas (des)Informativas

          Como foi dito anteriormente, uma TC precisa ser simples, induzir algumas soluções parciais satisfatórias, ocultar camadas cada vez mais complexas, lidar com a realidade e com a verdade de forma que estas se tornem a sua base de sustentação adequadamente manipuladas para construir uma ficção que se assemelha muito à verdade e que, quando desvelada, ainda se mantém consistente em diversos níveis, como uma teia que mesmo tendo boa parte de sua estrutura destruída, ainda se mantém estável e cumprindo o seu papel.
          Dito dessa forma parece algo complexo demais, fruto da genialidade de algum arquiteto maquiavélico com capacidade de elaboração extremada. Não é. Qualquer um pode construir uma boa TC simplesmente a partir de elementos que são dados na realidade, acrescentando pitadas imaginativas de interpretação direcionada.
          Vamos fazer um exercício para comprovar isso. Vamos construir camada a camada uma trama complexa que se fundamenta em diversas teorias da conspiração possíveis, mas que neste caso serão totalmente inventadas por este autor para a demonstração prática de como é possível fazer. Obviamente, por mera questão de praticidade e agilidade, será apresentada apenas a estrutura elementar das diversas camadas, até porque não se deseja criar de fato conspiradores, mas estimular artisticamente as possibilidades criativas e argumentativas na criação de histórias fictícias com base na realidade observável.
          O melhor ponto de partida argumentativa para uma TC é justamente um cenário real onde exista algo nebuloso e não completamente explicável. No caso vamos nos apropriar do cenário político brasileiro da atualidade. Escândalos políticos são ótimos para se construir teorias conspiratórias, ainda mais quando envolvem denúncias de corrupção. Parece meio óbvio e ultrapassado, afinal, esse tipo de cenário é mais comum na história das nações que se desejaria reconhecer, mas vamos aplicar alguns elementos diferenciais.
          Pode-se começar de qualquer ponto a construção da TC, mas para atender os princípios da Universalidade e da Simplicidade é necessário que seja algo que afete a todos e que seja um tanto quanto óbvio, ao menos a princípio. Essa é a “isca” para que seja propagada e incite a busca das camadas ocultas. Então vamos usar o caso ainda corrente do impeachment do governo.
          Depois de um longo período em que um partido popular de ideologia socialista ter presidido o governo com pontos altos e baixos, como é comum a qualquer governo, há uma reviravolta estrondosa com denúncias e escândalos imensos afetando toda a economia e criando uma instabilidade política e social de proporções nunca antes vistas. “Nunca antes vistas” é uma frase recorrente nas teorias conspiratórias, dá uma ênfase na enormidade do problema apresentado e indica subjetivamente que, finalmente, toda a verdade está sendo revelada. É importante estar atento a essas frases de efeito porque boa parte das teorias conspiratórias utilizam discursos semelhantes com a manipulação das palavras de forma eficiente e sempre provocativas de estados emocionais. É preciso que seja provocada uma emoção forte na construção de uma TC, só a emoção consegue amortecer a razão de forma que se possa induzir comportamentos que, racionalmente, não seriam cabíveis. A TC precisa de paixão no seu desenvolvimento, na sua apresentação, na sua disseminação.
          Então temos lá o tal governo popular, que se torna populista na apresentação pelos seus adversários, com o detalhe de que há uma descaracterização seletiva. Isso é importante, note bem o termo, descaracterização seletiva. Como isso funciona? Em primeiro lugar se generaliza a atuação do governo apresentando todos os malefícios como sendo provenientes de uma única pessoa, partido ou ideologia, ignorando que em um sistema de governo democrático há a necessária coabitação de diversas ideologias e partidos que fazem acordos para que haja a chamada governabilidade, portanto, seja pela ação ou pela omissão, todos os partidos estão envolvidos nos atos apresentados categoricamente como sendo de um único governante ou partido. O mesmo se dá, pelo oposto, quando os resultados alcançados são desejáveis, não foram as coalizões dos partidos, até mesmo adversários, que promoveram o sucesso, foi apenas “O Governo”.
          Como já havia alertado, a ferramenta da TC funciona independente dos valores morais de quem as usa. Ferramenta não tem intencionalidade, podendo ser bem utilizada ou não na realização de um trabalho, de acordo com a habilidade e o interesse do executor e manipulador da mesma.
          Entra em cena a questão primordial da TC, o “motivo” que culminou com os fatos apresentados. “A quem interessa? ” No caso, quem teria interesse em destituir um governo eleito, ameaçando a economia, o sistema político, até mesmo as negociatas escusas que ocorriam? É preciso pensar que muitos das negociações mais sórdidas e mesmo as piores guerras entre bandidos se dá de forma oculta, justamente para que os vencedores, sejam quem forem, não fiquem expostos e possam continuar suas atividades tranquilamente. A lógica é que podemos não gostar da nossa posição no sistema, mas não podemos desmontar o sistema sem sermos afetados pela instabilidade e, pior, nada garante que o novo sistema que será construído necessariamente nos beneficiará de alguma forma. Por essa lógica é que é difícil desmontar um sistema de dentro, a implosão acaba afetando dramaticamente os que a provocam, e todos sabem que para desmontar um sistema de fora, é preciso que se tenha algo tão forte e poderoso quanto o que se quer destruir, ou até mais forte e poderoso. Troca-se seis por meia dúzia, como se diz normalmente.
          Essa verdade é, como em toda TC, parcial. Pode-se desmontar um sistema de dentro, ou mesmo substitui-lo completamente por outro, desde que seja feito de um nível superior. No caso o que é mudado é apenas uma camada, não o sistema inteiro, mas fica-se com a impressão que “as coisas mudaram”. E isso pode ser extremamente vantajoso para o próprio sistema, restabelece a confiabilidade que estava prejudicada, paralisa investigações mais profundas que podem ameaçar as estruturas mais fundamentais. Sacrificar parte do próprio corpo para conseguir sobreviver é uma estratégia utilizada na própria natureza com bons resultados. Como costuma-se dizer, o lagarto perde o rabo, mas preserva os dentes; na verdade, diante do predador mais forte, oferece o rabo como barganha e assim que o adversário pensa tê-lo preso firmemente, escapa deixando o rabo para trás. Isso deve provocar uma nova interpretação da famosa expressão conspiratória de “estar com o rabo preso”.
          Ok, voltando a nossa linha central, a quem interessaria a desestabilização de um governo e de toda a estrutura sócio-politica? Em primeiro lugar podemos pensar em um governo estrangeiro, seria o mais comum, afinal é obvio que um adversário forte é temerário e a desestabilização provoca fraquezas, mas cuidado com as obviedades em uma TC, elas costumam ser projetadas para serem assim. Também podemos pensar em setores internos do sistema, como uma revolução, sociedades secretas anarquistas, sociedades políticas desfavorecidas e pouco atuantes no cenário estabelecido, até mesmo o crime organizado, as máfias corporativas ou não; qualquer um desses casos obteria grandes benefícios com o enfraquecimento e desmonte do sistema. O caos cria oportunidades, isso é um fato trágico na história da humanidade. Não se observa maior avanço tecnológico do que em períodos de instabilidade e até mesmo de guerra declarada e não apenas pelos agentes óbvios que subsistem de ganhos diretos relacionados, como produtores de armas. Muitos dos avanços da atualidade em todas as áreas, são frutos bastardos dos esforços da Segunda Grande Guerra, por exemplo.
          Pense no fusquinha, na internet, na medicina nuclear, na exploração espacial, nos satélites, nos antibióticos, nas vacinas, nos sistemas gerenciais. Seja onde for que vá buscar as raízes de alguma tecnologia que avançou rapidamente, vai acabar encontrando fins bélicos. Grandes empresas incentivam abertamente a agressividade nos negócios como incentivadora de avanços. Aparentemente a criatividade se torna mais forte em períodos de crise generalizada. A crise, o caos, as desestruturações, geram bons negócios.
          Estamos falando de Teoria da Conspiração, certo? Pois então é preciso entender que esse discurso é em si, uma, globalmente aceita, e tem bases na realidade como é típico de toda bem construída TC. É inegável que a sobrevivência é um grande estimulador da criatividade, mas a competição não precisa implicar em belicismo, haja vista que o esporte é uma forma de competição que, preservados os seus princípios básicos de superação pessoal, não tem características bélicas. Portanto, cuidado quando incorporar um discurso manipulador como o apresentado, sem que se perceba está fazendo parte de uma grande conspiração que tenta justificar o injustificável sob qualquer outro prisma.
          Voltando ao nível primário da nossa TC imaginária. A instabilidade que constantemente vemos noticiada, poderia ter por base tanto uma reforma política desejada pelos próprios políticos, estimulada por empresários, desejada por segmentos organizados oriundos da sociedade interna ou até mesmo por interesses de outros governos. A instabilidade obriga mudanças, obriga reinterpretações, obriga repactuações e negociações. A instabilidade prolongada causa danos e, em algum momento, precisa ser revertida. Seja em um novo rumo, seja nos mesmos moldes, mas com aparência de mudança, do contrário torna-se autoimune, agride a si mesma e, se não for tratada rapidamente, implica na morte de toda a estrutura que pretendia favorecer.
          Só essas bases apresentadas já dariam boas histórias conspiratórias, mas vamos aprofundar um pouco mais. Vamos colocar elementos geopolíticos mais amplos. Continue acompanhando neste mesmo local a continuidade deste trabalho e descubra como acrescentar mais camadas na Teoria da Conspiração, integrando-as no que já foi apresentado e ampliando o foco ao mesmo tempo que descemos ao mais profundo subterrâneo do indizível. 

Veja a parte final em Pirâmide da Teoria da Conspirção
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