quarta-feira, 23 de março de 2016

Epidemia – Danny Marks


— Bom dia, o senhor é o próximo?
— Sim, sou eu. Gostaria de agradecer a oportunidade, aqui estão os documentos que...
— Não, guarde isso, por favor. Não sei se lhe informaram, mas é melhor tomar cuidado com algumas coisas. Sabe como é, tempos difíceis, com essa epidemia se alastrando cada vez mais.
— Sim, perfeitamente! Desculpe, é que não estou bem ao par de como funcionam as políticas de...
— Evite essa palavra também. Atualmente estamos utilizando o termo “Sugestões de procedimentos”.
— Certo. De qualquer forma gostaria de dizer que estou disposto a vestir a camisa e...
— Uniforme! Estamos suprimindo esse outro termo também. Para não causar nenhum engano, sabe? Na verdade, em breve estaremos adotando os uniformes transparentes, para não haver nenhuma sugestão equivocada com determinadas cores.
— Transparência? Nos uniformes?
— Sim, e nas roupas de baixo também, para garantir. Tivemos alguns problemas com cuecas recentemente. Já superamos isso, mas vai que...
— Mas, desculpe perguntar, não há problemas com, não sei; o quadro de funcionários não é misto? Quero dizer...
— Plural, usamos o termo plural para os colaboradores. Dá um caráter mais inclusivo, sem discriminar sexos e etc. O importante é o engajamento nessa nossa... desculpe, não estou encontrando as palavras... — consultou rapidamente um caderninho enquanto lia para si mesmo — “Luta” não pode, “empreendimento” deve ser evitado para não lembrar “empreiteira”, “guerra” nem pensar, droga já riscaram também o “trabalho”? Ah, aqui está: etapa! — voltando a falar com o entrevistado — Como ia dizendo é importante o engajamento das pessoas nessa nova etapa de... do que estamos fazendo para... superar, isso, superar a cris... quero dizer, superar a... — olhando desesperadamente o caderno e por fim encontrando uma palavra liberada — epidemia.
— Sei... também me sinto assim. Eu poderia ter uma cópia desse seu... como dizer? Dessa coisa que o senhor está consultando?
— Não fale em consultoria aqui!!! O senhor quer acabar comigo? Não presto consultorias, nem palestras! Digo, eu presto, só não faço esse tipo de... consulta, isso. Não sou um consultor!
— Ok, tudo bem! É que, como disse, as coisas andam complicadas, na verdade nem sei bem o que vou fazer aqui, as pessoas não conseguiram me explicar direito e até estou achando que resolveram me aprovar para evitar maiores explicações.
— O senhor está cogitando se aprofundar nessa questão? Digo, pretende levantar o sigilo da sua contratação?
— Não, nem pensar, está difícil arrumar alguma colocação e nem sei mais quais palavras usar sem criar um problema.
— Eu sei, tem ficado cada vez mais difícil. Por isso estamos contratando novos... você sabe. Ainda ontem tivemos dois casos de infectados e está se espalhando cada vez mais. Mesmo com toda a nossa... todo o nosso... quer dizer, com o que estamos fazendo para evitar o surgimento de novos casos, ainda está... do jeito que está. Soube que em outros lugares tem havido uma proliferação rápida, já estão sendo obrigados a tentar se comunicar sem se comunicar, de forma que não haja uma contaminação maior.
— Não se preocupe, vou observar as coisas para ver qual a melhor forma de agir. Preciso muito dessa vaga e não quero desperdiçar a oportunidade.
— Perfeito. Só uma coisa, a sua assinatura não está muito legível. Qual a sua graça? Digo, nome, não estou fazendo qualquer referência a um trabalho anterior ou julgando alguma particularidade do seu caráter, nem...
— Entendo, é Renan! E o senhor?
O homem ficou murmurando a resposta e de repente se pôs a rir e a chorar ao mesmo tempo. Arrancava páginas do caderno e cabelos, tirava e vestia as roupas dando gritos incompreensíveis. Teve que ser retirado à força de cima de uma das mesas onde se dispunha a fazer um discurso com palavras de ordem aleatórias e sem sentido algum.
O candidato ficou paralisado vendo aquela cena, até que um outro assistente veio conversar com ele.
— Coitado, mais um que sucumbiu à infecção. O senhor estava com ele? Viu alguma coisa? Poderia dar o seu depoimento?
— Depoimento? Não... não sei de nada, não vi nada. Não fui informado do que aconteceu. Vou falar com os meus assessores, vou consultar as bases, vou...
Não pode concluir, a mesma equipe que havia levado o assistente anterior voltou às pressas para levar o candidato também.
Quando se viu sozinho novamente, o novo assistente recolheu os papeis e os documentos que estavam espalhados pelo chão e os colocou em uma das caixas descrita como “Arquivo Morto”. Nem quis olhar para o conteúdo. Melhor não arriscar uma infecção. Tempos difíceis.


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