sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Sobre a paixão pela Literatura (ou a falta dela) – Danny Marks




            Creio que este ensaio deveria começar com um pedido do tipo “Salve os apaixonantes autores de Literatura” ou algo do tipo, mas há um problema com a palavra “salve” que nesta construção pode tanto significar “aplauda” ou “socorra”. Nesse caso a dubiedade da palavra poderia comprometer o objetivo.
            Esse é apenas um dos inúmeros problemas que os autores de Literatura encontram a cada palavra que colocam nos seus textos, de forma a criarem suas belíssimas obras que podem perdurar séculos, ou morrer no esquecimento logo depois de produzidas.
            “Mas o que eu tenho a ver com isso?” diriam alguns; aos quais responderia em sonoro e bom tom interjetivo: Aha!!! Tem tudo a ver.
            Como escritor, palestrante e professor de Literatura e técnicas de redação, escutei por diversas vezes em diferentes situações a clássica pergunta: O que fazer para as pessoas lerem mais?
            A resposta mais comum, e já a usei em diversos momentos, é de que “Os livros são caros”, ou algo do tipo. Mas confesso que, após anos analisando a questão sob diversos ângulos, isso não explica absolutamente nada.
            Então vamos tentar decifrar juntos esse caminho lógico para descobrir os motivos possíveis, claro que a construção a seguir foi a que desenvolvi, haja vista que não se pode começar um texto sem ter uma ideia clara do que se quer dizer, um ensaio precisa versar sobre uma linha de raciocínio mais ou menos coerente para que o leitor possa corroborar ou refutar, total ou parcialmente, o que foi dito pelo ensaísta.
            Consideremos então a resposta padrão: O preço do livro no Brasil é muito caro e as pessoas não podem compra-lo.
            Essa questão cai por terra ao verificarmos que há recordes de vendas de livros em diversos segmentos, em especial os “da moda”, ou seja, os que caem por algum motivo no gosto do público, independente do seu conteúdo, pois não se quer neste momento fazer juízo de valor (intelectual) e sim estabelecer uma relação "preço x consumo".
            Obviamente que uma boa campanha de marketing, a utilização dos canais de mídia para estimular o consumo de uma determinada obra ou autor, o uso de todos os recursos disponíveis de distribuição e promoção de exemplares, facilita muito que um livro se torne um Best-Seller imediato, mas o que se quer buscar não é entender como o mercado trabalha para vender o seu produto, mas entender por que o leitor médio brasileiro é considerado como um péssimo leitor, com um consumo literário bem abaixo de outros países, até mesmo os que são considerados como “pobres”.
            A questão não é descobrir o tipo de literatura que agrada a que tipo de público, mas o que fazer para que o povo brasileiro leia mais e com mais prazer, independente do tipo de literatura que lhe agrade.
            Se fosse uma questão de divulgação, a famosa “divulgação boca a boca” com a qual muitos autores contam para alavancar a sua carreira, poderia ser um fator decisivo. O que se vê é que muitas pessoas realmente acabam adquirindo exemplares de autores desconhecidos porque simplesmente viram que estes autores estão sendo lidos por outras pessoas conhecidas.
            Poderia dizer que o problema é com a Literatura mesmo; as escolas mandam os alunos lerem os clássicos que são difíceis de serem entendidos em tempos de internet onde a leitura é rápida e intuitiva e não estruturada e metafórica. Mas há muitos autores, principalmente os nacionais, que estão totalmente adaptados a esses novos parâmetros de literatura. Criam literatura com a agilidade de um videogame ou de um jogo de RPG. 
            Há os que utilizam padrões de oralidade e até mesmo as desconstruções próprias da literatura marginal. Sem falar que há os adventos dos microcontos, minicontos, Web textos e por ai vai.
            Se o problema não é preço, não é divulgação, não é a forma escrita, o que impede que tenhamos no Brasil um público mais afeito à literatura?
            CULTURA! Berrariam lá do fundo da multidão.
            Isso mesmo! Berraria eu de volta, até porque acredito que realmente seja esse o problema, mas não da forma como alguns acreditam.
            Entenda-se, cultura não é erudição, não é entender profundamente disso ou daquilo. Cultura é um padrão socialmente aceito, adotado por um grupo e levado adiante nas suas contribuições espontâneas a esse conjunto de atos que formam uma coletividade com características próprias, uma identidade social desenvolvida e acolhida pelos integrantes.
            Vivemos em um país onde a paixão pelos seus ídolos transborda por todos os poros, consumimos produtos com a marca do nosso time favorito, defendemos com unhas e dentes o personagem que amamos na novela como se fosse um parente nosso. Entregamos-nos a sacrifícios imensos apenas para poder dar uma olhada no ilustre desconhecido que nos representa em alguma situação midiática. Mas não falamos nada sobre o autor que lemos e amamos, não defendemos o personagem do livro que lemos diversas vezes e que se parece tanto com o que passamos a ser, a voz que recorremos quando nos faltam palavras para dizer algo que tememos não expressar tão profundamente.
            E por que isso ocorre? Se gritamos com orgulho o nome do nosso time, da nossa escola de samba, do nosso cantor preferido. Se usamos o mesmo corte de cabelo do nosso jogador estimado, ou as roupas e joias que vimos a musa televisiva usar, por que só sussurramos em conversas privadas com outros aficionados pela leitura o nome do nosso autor preferido?
            Simples, porque ninguém nos disse para amar descaradamente, sem preconceitos, a literatura, o livro, o autor que nos encanta dia a dia.
            Eu mesmo, confesso, já me peguei fazendo algo do tipo. Sou apaixonado por Bradbury, Asimov, Mia Couto, Marcelino Freire, Quintana, Drummond e tantos outros autores nacionais e estrangeiros, mas o quanto falo sobre eles?
            Já os homenageei em meus textos, reproduzindo os estilos, misturando elementos que mais gostei neste ou naquele livro, revivendo falas e marcações em epígrafes e aforismos, mas o quanto berro “Eu amo este autor?”.
            Não saio por ai com uma camiseta estampada de Nietzsche, não declamo em praça pública Adélia Prado, não proclamo as maravilhas imaginativas de Robert Heinlein ou Machado de Assis. O que há comigo?
            Cultura. Somos levados a acreditar que os autores são seres extra-humanos com capacidades sobrenaturais de produção textual, inatingíveis de alguma forma que nos coloca distantes anos-luz de qualquer contato.
            Posso fotografar uma rainha de bateria de escola de samba, posso pedir autógrafo para um jogador de futebol ou para um ator famoso, mesmo sabendo que jamais vou sambar do mesmo jeito, jogar bola com tanta maestria ou representar um personagem com tanta convicção. Mas como fotografar a mente de uma pessoa? Como pedir autógrafo para um gênio inatingível? Como me expressar com um mestre das palavras sem parecer estar crocitando?
            E os autores brasileiros pecam por não desfazerem essa imagem de idolatria absoluta, por alimentarem seus egos com o carisma abstrato de um público reduzido, membros de uma seita fechada que só reconhece os adeptos.
            O que poderia ser feito para que o brasileiro lesse mais? A resposta me parece simples agora: Apenas demonstrem o seu amor pelo livro, pelo autor que escolheram. Defendam com garra o seu personagem favorito no livro que mais gostou do autor que descobriu ser importante para você.
            Vista a camisa do seu autor, do seu livro, do seu personagem com a mesma vontade que veste a camisa do seu time, da sua escola de samba.
            Abra um blog e coloque o que gostou e o que não gostou, fale para os amigos sobre este ou aquele autor, sobre este ou aquele livro. Fantasie-se do seu personagem e não aceite que não o reconheçam, mesmo que ainda não tenha saído a versão cinematográfica.
            Apaixonem-se abertamente, descaradamente, despudoradamente pela literatura, porque sempre haverá uma literatura que fará com que o seu coração pulse mais forte, faça suas pernas tremerem, cole um sorriso no seu rosto e lhe transmita a coragem de um herói diante dos obstáculos mais terríveis.
            Viva a Literatura da mesma forma que vive todas as suas outras paixões e liberte-se de rótulos ou estigmas, porque autores não são deuses, embora criem mundos; não são mestres da vida, embora reproduzam a vida em seus textos; não são diferentes de você, embora possam representar muitos papeis.
            Ensine as crianças, os amigos, a você mesmo, que ler não o torna pior ou melhor que ninguém, apenas faz com que perceba todas as outras coisas como nunca havia visto antes, porque além dos seus olhos, há os olhos de todos aqueles que habitam os livros.
            E não se esqueça de Danny Marks, um excelente autor brasileiro com uma diversidade estilística impressionante, que vai conduzi-lo por lugares e situações que mais ninguém poderia apresentar-lhe, e merece que todos saibam disso, a começar por você.
            Se fizer isso, poderemos definir o “Salve” do início deste ensaio, não como um pedido de socorro para os autores e para a Literatura, mas como um glorioso “Ave” à Literatura e a todos os seus autores maravilhosos que conseguem traduzir a sua vida em textos para todos lerem. Só depende de você.

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